Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







sexta-feira, 11 de março de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

     Já escrevi duas postagens envolvendo ônibus: “A deusa do ônibus”, em 18 de janeiro, e, uma semana depois “Vai levanu!”. Novamente vou escrever algo que tem ônibus no meio. Meus destinatários hão de pensar que tenho vocação pra isso e que, talvez, devesse trabalhar na assessoria de imprensa de alguma empresa de transportes coletivos. O ônibus, desta vez, não é o principal da história. Mas está nela, assim como está na minha paisagem.
     Pra desenvolver meu texto, tomei emprestado um da minha amiga Camila Doval, que, além de traduzir muito bem em palavras seus pensamentos, sentimentos, alegrias e angústias, coloca-os à disposição no seu blog, chamado Mulher de Sardas.
     Eis o texto da Camila.

Faz tempo que você está esperando?

Minha janela é em frente da parada de ônibus. Passo o tempo neste computador e o dia fica fora. Os ônibus passam. São as mesmas árvores, as mesmas pedras na calçada. As mesmas vitrines. As roupas mudam. A chuva vem. E passa. Meus vidros estão fechados. O ventilador ocupa o som. O que as pessoas conversam na parada. O que pensa o rapaz de mochila enquanto distribui os panfletos. O que pensam de mim. O ônibus os leva. Eu não vi para onde vão.
Eu vou para a rua em algum momento. Sou mundo também. Não o culpo por passar. Eu não culpo ninguém pelo que somos. Não é fácil ser humano e ter uma vida nas mãos. É fácil pegar um ônibus e chegar. É fácil voltar, caso se tome o ônibus errado. Mas viver, fazer da vida algo que valha, ao fim! Aproveitá-la e cumpri-la, não somar horas perdidas em computadores, em preguiças, em brigas. Em paradas de ônibus que não vêm.
Quanto tempo ficar com alguém? Quando o tempo sobra? Quando falta? Quando é para sempre numa vida de ontens? Quanto tempo é justo fazer alguém perder? Ou não é justo nunca, e o mundo é para se viver só, a sua chance, a única, uma vez.

Hoje, o primeiro ônibus que passar é o meu.

     Agora, o meu.


Da minha janela

      Também vejo ônibus das minhas janelas, que são várias, assim como vários são os ônibus cheios de janelas. Moro numa esquina em que eles dobram, descendo uma rua pra continuar descendo em outra. Não tem parada em frente. Meus postos de observação ficam entre duas delas.
     Da vista para o leste, eles passam mais perto. O motorista aciona o freio do motor para fazer a curva. A velocidade diminui e o motor ronca mais alto. Posso ver claramente os passageiros. Assim como Camila, não sei para onde vão, tampouco de onde vêm. Só sei de onde vêm os torcedores do Grêmio em dias de jogo no Olímpico Monumental. E estão sempre felizes. Pena que daqui a algum tempo não verei mais esses gremistas. Eles viajarão em outros ônibus que passam em outras janelas no caminho da futura Arena.
     Vez que outra, alguém sentado no lado esquerdo olha pra cima e me vê na sacada. Fico me indagando de onde vem e pra onde vai. Esse alguém aleatório deve me invejar, pois já — ou ainda, dependendo da hora — estou em casa. Quando é noite, os coletivos são praticamente individuais, passam quase vazios. O motorista sempre para o carro na esquina entre as duas paradas pra que desça algum passageiro que, de tão costumeiro, já virou permanente. Despedem-se como amigos. Um faz parte da vida do outro.
     A esquina é inclinada à esquerda, do lado norte vejo-os mais de cima. O motorista solta o freio do motor e acelera rumo à próxima parada. Às vezes, alguém o acompanha correndo pela calçada, na tentativa de chegar junto e poder embarcar rumo a um destino que desconheço. É na sala dessa janela que passo mais tempo. Fico no computador olhando pra sua janela de 17 polegadas que me mostra o mundo.
     Também tem outro mundo que vejo dessa janela onde os ônibus aceleram rua abaixo. A qualquer hora do dia, indiferentes a mim, aos passageiros dos coletivos ou a qualquer outro que passe, jovens de ambos os sexos, dos 16 aos 50 anos, sobem a rua enrolando um baseado ou já o queimando, viajando sei lá pra onde. Nas quintas, sextas e sábados, indivíduos de algumas tribos urbanas como manos, pichadores, grungers, mauricinhos, emos, rastafaris, metaleiros, baladeiros e outros sem eira nem beira se aglomeram em pequenos grupos. Alguns chegam de carro — Chevettes tunados, Golfs rebaixados, Mareas chapeados —, estacionam um pouco acima. Um ou dois deles desembarcam e sentam-se no cordão da calçada, mais abaixo. Todos têm uma coisa em comum: esperam abrir o varejo da maconha, do crack e do pó. É uma pequena parte do abominável mundo do tráfico desse nosso admirável mundo velho.
     De vez em quando aparece um carro da polícia. Acho que os PMs são mágicos, pois os fazem desaparecer. Não resta um. Assim que a viatura para de dar voltas na quadra, todos reaparecem. Abre-se, então, a pequena loja de horrores, sem portas nem vitrines, situada no fim da rua. Acho que seus vários vendedores também são mágicos, pois logo, logo as tribos também desaparecem.
     Sou como Camila e vou para a rua em algum momento. Sou mundo também. Mas não desse que vejo da janela: não uso drogas nem ando de ônibus, portanto não corro o risco de pegar um errado ou perder tempo numa parada esperando por um que não vem. Também aproveito a vida e a cumpro a meu modo. Não perco horas no computador, pois com ele ganho a vida e o mundo. Não sou preguiçoso nem briguento.
     Que passem os ônibus, que se queimem baseados. Eu os olho pela janela e viajo sem embarcar nem num nem noutro.