Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







domingo, 15 de julho de 2012

A memória, o ronco do motor e o cheiro de combustível

     A memória da gente — que é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis no cérebro — é algo fantástico. Não sei se é a idade, mas, seguidamente, no meio da tarde não consigo me lembrar do que comi no café da manhã. Depois de um tempo, porém, lembro-me de que não comi nada no café da manhã, porque desde guri tenho o hábito de só tomar uma xícara de café com leite (salvo quando estou em hotéis ou pousadas que oferecem café da manhã).
     Grosso modo, a memória classifica-se em declarativa e de procedimentos. A primeira refere-se à capacidade de verbalizar um fato; a segunda, à retenção e processamento de informações que não podem ser verbalizadas, como tocar um instrumento ou andar de bicicleta. A memória declarativa, por sua vez, classifica-se em memória imediata (a que dura de frações a poucos segundos); de curto prazo (a que tem duração de alguns segundos ou minutos); e de longo prazo (com duração de dias, meses e anos).
     Considero preocupante isso de esquecer o que comi no café da manhã e, pior, de que nada comi — fato que faz parte da memória de curto prazo — porque é um sintoma da primeira fase do Mal de Alzheimer. Fico frio e vou empurrando com a barriga porque ainda há a segunda, a terceira e a quarta fases.
     Ainda sobre memória. As que incluem lembrança de odores têm tendência para serem mais intensas e emocionalmente mais fortes. Um odor que tenha sido encontrado só uma vez na vida pode ficar associado a uma única experiência e, então, a memória pode ser evocada automaticamente quando voltamos a reencontrar esse odor.
     Enfim, todo esse nariz de cera (em jornalismo, parágrafo introdutório que retarda a abordagem do assunto enfocado e tende à prolixidade) era pra me dar a chance de lembrar sobre o que eu queria falar. Eu sabia que era alguma coisa sobre memória, mas não me lembrava o quê (e isso que nem costumo fumar baseados — ou, quem sabe, nem me lembre disso).
     Pois bem, estava eu fazendo alguma coisa que não me lembro o que era quando ouvi o ronco grave do motor de um caminhão e, em seguida, senti o cheiro do combustível que ele queimou ao passar na minha rua. Não era o odor característico do diesel de hoje em dia, que invade nosso sistema respiratório acompanhado daquela fumaça escura que nos sufoca, mas sim um cheiro que me levou de volta a um período mais ou menos entre a metade da década de 50 e a metade da de 60, em Caxias do Sul.
     Minha mãe era daquela cidade. Desde que me lembro, íamos para lá nas minhas férias de inverno e de verão, onde moravam meu avô, três tios, duas tias e um monte de primos e primas. A casa de meu avô — que também era meu padrinho —, na qual também vivia minha madrinha, única irmã solteira da minha mãe, ficava na Rua Júlio de Castilhos, a principal da cidade. Era uma típica casa de imigrantes italianos da região serrana do Estado (pena eu não ter ficado com nenhuma fotografia dela). Era um sobrado de madeira, pintado de verde, ocupando a frente de um terreno enorme com declive para os fundos. A porta frontal abria diretamente pra calçada. Quem o olhava de frente via, na parte de baixo, da esquerda para a direita, uma janela e uma porta e uma porta e uma janela. O primeiro conjunto, apesar de ser integrado à casa, era alugado para, se não me falha a memória, um alfaiate; a outra porta era a entrada principal da casa, que compunha com a janela uma peça interna com mais ou menos 20 m². Acima havia quatro janelas, que pertenciam aos quartos da frente. Mais acima, bem no meio, uma janela menor, que era do misterioso sótão.

casa caxias

A casa, tal como está na minha memória

     Por dentro era enorme. A sala de entrada era o escritório do meu avô. Não sei exatamente qual o cargo dele, mas tinha algo a ver com a Sociedade Caxiense de Auxílio aos Necessitados. Ele era responsável pela distribuição aos beneficiários de uma espécie de cesta básica. Uma vez por mês formava-se uma grande fila na rua e meu avô, da janela do escritório, entregava os pacotes aos necessitados.
     Nessa sala ainda havia uma porta lacrada que dava para a peça alugada. Imagino que quando toda a família morava naquela casa, a peça não era alugada e tinha alguma serventia. Afinal, além do casal eram cinco meninos e cinco meninas.
     Na parte de baixo, após a sala da entrada havia outra maior ainda, com uma grande mesa ao centro, porque era a sala de jantar (principalmente almoçar) em ocasiões especiais ou quando havia muita gente na casa. Na parede da direita viam-se algumas fotografias de meus avós e da família reunida e um carrilhão que soava maravilhosamente. Ao fundo, duas grandes janelas com vista para parte do quintal da casa. Do lado oposto às janelas tinha uma despensa onde eram guardados gêneros alimentícios e utensílios domésticos, além da escada que subia para os quartos. À esquerda, três portas: uma era a do quarto de meu avô, que ficava ali devido à dificuldade de uma pessoa com a idade dele ficar subindo as escadas; outra, de uma peça, digamos, auxiliar da cozinha, onde minha tia preparava, por exemplo, massa; a terceira, levava ao banheiro, à copa e à cozinha. Muito estranho: uma casa daquele tamanho com um só banheiro e, ainda por cima, com a porta abrindo diretamente para a copa, onde comumente fazíamos as refeições! A cozinha era bem grande, com direito a fogão a lenha.
     Subindo a escada em “L” chegava-se aos quartos. Nem me lembro quantos, mas eram vários. Os da esquerda davam para a rua; os da direita, para os fundos da casa. Em um deles havia uma escada que levava ao misterioso sótão. A peça ocupava toda a extensão do sobrado: da frente aos fundos e de um lado a outro. Nele havia milhares de bugigangas de toda espécie guardadas em caixas, malas e baús; havia alguns móveis velhos, cabides com chapéus empoeirados, enfim, coisas e mais coisas sabe se lá pra quê!
    Eu gostava de ficar na janelinha do sótão que dava para a rua. As pessoas pareciam pequeninas lá embaixo. Com minha irmã aprendi uma arte: ela fazia dezenas de bolinhas de papel que deixava cair, uma a uma, na cabeça das pessoas que passavam na rua. Quando acertava a cabeça de alguém, tirava o corpo da janela e ficava rindo.
     Nos fundos da casa havia uma fábrica, uma construção de alvenaria. Não sei exatamente o que fabricavam e nem qual era a relação daquilo tudo com meu avô. Nunca me preocupei em saber. Havia coisas mais interessantes naquele quintal, como a oficina do meu avô, cheia de ferramentas, o poço com água limpíssima e geladinha, que eu gostava de recolher a pedido da minha tia e o porão úmido, que seriva de esconderijo nas brincadeiras com meus primos e primas.
     Então o leitor deve estar se perguntando: mas o que é que o ronco do motor e o cheiro do combustível do caminhão têm a ver com tudo isso?galiotto
     Então eu respondo. Viam-se muitos caminhões em Caxias, naquela época. Indústrias, lojas, escritórios e residências concentravam-se na cidade. As empresas de transporte ficavam próximas a tudo. Não havia restrições e os caminhões circulavam por todas as ruas. Eu tinha um tio, casado com uma irmã da minha mãe, que dirigia um GMC enorme, transportando vinho. Pois bem, eu dormia num dos quartos da frente. Como era uma rua muito movimentada, despertava cedo, com o barulho da cidade que também acordava. Hoje em dia, sabendo como funciona uma máquina fotográfica, posso dizer que me sentia no interior de uma delas. As frestas dos tampos das janelas funcionavam como uma lente, que projetava no teto do quarto a imagem de ônibus e caminhões que passavam na rua, iluminados pelo sol nascente. Eu ficava deitado olhando aquele movimento, ouvindo o ronco dos motores e sentindo o cheiro do combustível.
     Logo eu levantava, descia e ia encontrar minha madrinha na cozinha, que me servia café com leite.
     Muita coisa aconteceu naquela época que, hoje, só trago na lembrança e que revivi graças a um simples ronco de motor acompanhado do cheiro de seu combustível. Num momento muitas imagens passaram pela minha cabeça como um filme num DVD em “ff” a uma velocidade de 200X. Quando meu avô morreu e eu já não ia mais a Caxias do Sul a casa foi vendida e, no local, construído um edifício. Todos os meus tios e tias já faleceram. Imagino que alguns dos primos mais velhos também. Por onde andarão os que ainda vivem? Por que perde-se o contato com pessoas que foram tão importantes para nós no passado? E eu não fiquei com nenhuma foto daquela casa, daquele tempo, daquele barulho de motor, daquele cheiro de combustível.
     Hoje, não me lembro do que comi, mas lembrei-me de que há mais de 50 anos tomava café com leite de manhã.

6 comentários:

vidacuriosa disse...

Belíssimo texto, meu caro amigo. Não sei se é por sermos contemporâneos, mas tuas histórias batem sempre com as minhas. Primeiro quero dizer que sinto esses momentâneos e pequeninos lapsos de memória também e, quando posso, desfaço o problema rapidamente com o google porque se referem a alguns nomes ou fatos. E, como tu, também tenho lembranças de um sobrado da infância. Em meu blog, só falei nele en passant. Tuas descrições são tão boas que nos arrastam tela abaixo mesmo que o texto seja grande. Abrs.

Aldo Jung disse...

Obrigado, Plínio. Me envaidece ser elogiado por quem é do ofício e que considero dos bons. Abrç.

Clara disse...

E eu, faço parte das lembranças atuais... o que me deixa muito feliz!

Vera disse...

Parabéns Aldo, estás munido de uma aguçada sensibilidade, o que faz de tí uma pessoa ímpar. Logo notei que, nos teus 17 anos de idade, ao escreveres aquela longa carta de papel branco de seda, serias um excelente profissional.Parabéns de novo!

Anônimo disse...

.. quando a gente perde o contato com a família, perto ou longe, um pouquinho da gente morre. No seu caso foi falta de amor mesmo! que pena.. FAMÍLIA é algo para estar no lado esquerdo do peito..

leci ferreira terres galafassi disse...

muito bacana essa historia.Meu pai comecou sua carreira na GALIOTTO como motorista SERGIO GALAFASSI.