Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







segunda-feira, 2 de novembro de 2009

De placebos e paranóias


     Dia desses discuti sobre medicamentos com um conhecido. Ressalte-se que não é a área de nenhum dos dois. Para situar o leitor, devo dizer que este conhecido foi diagnosticado com Distúrbio de Déficit de Atenção. Entre os sintomas de pessoas que sofrem de DDA estão a desatenção, a distração, a desorganização, problemas de controle de impulso, dificuldade de aprender com erros passados, falta de previsão e adiamento. As características marcantes desse tipo de distúrbio são a facilidade de distração com devaneios frequentes (imaginação "viajante"), desorganização, procrastinação, esquecimento e letargia/fadiga.
     O autor do livro Transforme seu cérebro, transforme sua vida, Daniel G. Amen – que tem dois filhos com DDA –, diz ter descoberto, através de pesquisas realizadas em sua clínica, que o distúrbio é basicamente uma disfunção geneticamente herdada do córtex pré-frontal, devido, em parte, a uma deficiência do neurotransmissor dopamina. Assim, grosso modo, o tratamento ideal integra, simultaneamente, o uso de medicamentos e terapia ou treinamentos comportamentais. Em relação a medicamentos, os estimulantes são a categoria mais usada. No Brasil, a Ritalina é o mais comum.
     De acordo com Instituto Paulista de Déficit de Atenção (ITDA), ainda há muito desconhecimento e preconceitos sobre o uso de medicação psiquiátrica, especialmente “tarjas pretas”. O Instituto afirma, no entanto, que a Ritalina é uma droga de perfil seguro. É uma alternativa de curto prazo, seus efeitos são rápidos e de curta duração (duram apenas de 4 e 6 horas). Quando o tratamento como um todo é baseado apenas em medicação, será necessário tomar a droga por toda a vida. A ritalina não leva a uma melhora definitiva nos sintomas, ela apenas traz alívio por algumas horas.
     Acredito que o leitor esteja, agora, um pouco familiarizado com o DDA e seu tratamento. Voltemos, então, à discussão com meu conhecido. Trata-se de um descrente. Um descrente tipo aquelas crianças que nunca comeram espinafre mas, mesmo assim, afirmam que não gostam. Sim, porque crença é atitude de quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali encontrou. Para encontrar uma verdade, contudo, é preciso experimentar algo. Diz ele que os medicamentos são placebos e que só curam as doenças ou minoram os sintomas porque quem os toma acredita que façam efeito. Placebo é uma forma farmacêutica sem atividade, cujo aspecto é idêntico ao de outra farmacologicamente ativa. Dessa forma, caso o placebo provoque algum resultado, este será, apenas, de natureza psicológica. Os dicionários dizem, também, que placebo é uma preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição de um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico. Ora, na própria acepção do dicionário já se encontra a dicotomia: placebo - medicamento. É o sim e o não. Se existe um é porque existe o outro. Meu conhecido não foge à regra: não acredita nos efeitos positivos de um medicamento, mas sim nos efeitos colaterais.
     Aprendi com o Dr. Daniel Amen que muitas pessoas com problemas no córtex pré-frontal tendem a procurar conflito para estimular seu cérebro. É de máxima importância que a gente não alimente a tormenta, mas, pelo contrário, deixe-a passar fome. Quanto mais alguém com esse padrão, inadvertidamente tenta deixá-lo aborrecido ou bravo, mais você precisa ficar quieto, calmo e firme. Deixe-o gritar. Mantenha a voz baixa e uma conduta calma. Quanto mais a pessoa com DDA tentar tumultuar a situação, menos intensa deve ser a reação do outro.
     Acredito, entretanto, que o problema do meu conhecido vá mais longe e comece a beirar a paranóia, psicopatia caracterizada pelo aparecimento de suspeitas que se acentuam, evoluindo para mania de perseguição e de grandeza estruturados sobre bases lógicas. Por quê? Porque ele acha que os medicamentos são invenção de laboratórios que só pensam em ganhar dinheiro em cima da credulidade das pessoas. Não leva em conta as quatro fases da pesquisa clínica que, além de animais, envolve cerca de 10 mil indivíduos que servem de cobaia antes de se colocar um medicamento no mercado. Seguindo esse raciocínio, pode-se dizer, também, que governos, médicos, psiquiatras, farmacêuticos e, enfim, profissionais da saúde em geral compactuam com os laboratórios. Inclusive as pesquisas das universidades do mundo inteiro.
     Resumindo: realmente, nenhum medicamento vai curar quem nasceu com disfunção no córtex pré-frontal, assim como não cura quem nasceu com um membro a menos. No primeiro caso, os sintomas podem ser minorados com medicamentos; no segundo, com próteses. Ou uma prótese também seria um placebo?

Um comentário:

Vera disse...
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