Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Telechatos

     Estou mesmo precisando de férias. Ainda bem que isso acontece a partir de amanhã. Bem cedinho, com mulher, cachorra e gata pego a BR 101 direto pra Bombinhas/SC.
     Nesta semana, cheguei à conclusão de que meu nível de estresse tá um pouco alto: pela primeira vez, desde que existe o telemarketing, destratei uma operadora do setor. Vou contar a história.

telechatos

     Tudo começou no último dia 31. Estava eu tentando pegar no sono na minha costumeira sesta, lá pelas duas e meia da tarde, quando toca o celular. A primeira coisa é o susto. A gente está em alfa e, de repente, aquele estardalhaço. Sim, estardalhaço, porque o toque do meu celular é o tema do Globo Repórter. Levantei meio estonteado, coloquei os óculos e, ao ver que a ligação era do código de área 11, deixei tocar até parar.
     Deitei de novo. Daqui a pouco, novamente o estardalhaço. Era do mesmo número. Já que minha sesta tinha ido pro brejo mesmo, atendi pra tentar dar um fim naquilo.

     — Alô!

     — Boa tarde. Aqui quem está falando é Robson. Falo em nome do Bradesco. Gostaria de falar com o seu Aldo Jung (pronuncia-se “iung”, mas eles sempre falam “jung”, com “j”).

     — Sou eu mesmo, Robson, mas não posso falar agora porque estou no trânsito.

     — Qual seria, senhor Aldo, uma melhor hora para estar falando com o senhor?

     — Hoje? Só lá pelas 10 da noite!

     — O Bradesco agradece e lhe deseja uma ótima tarde.

     Claro que eu sabia que ele não ligaria às 10 da noite. Ligou logo depois das sete. Não atendi e, naquele dia, ficou por isso.
     No dia 1º, pela manhã, estou no trabalho e aquele fatídico 11 liga novamente. Atendi. Ficou mudo e a ligação não se completou. Cerca de uma hora depois, toca de novo. Atendi. Ficou mudo e a ligação não se completou. À tarde, naquela horinha que é sagrada pra mim, o Globo Repórter grita de longe: to-óin, to-óin, to-óin,to-óóóóóiiiiin! Dessa vez não atendi e a coisa ficou por aí. Só que a minha sesta foi pro brejo pelo segundo dia consecutivo.
     O drama continuou no feriado do dia 2. Várias vezes, durante o dia, deixei o 11 pendurado, inclusive na hora da sesta. Apesar de ela ter ido pro brejo.
     Ontem, dia 3, pela manhã, resolvi atender. Na primeira vez a ligação não se completou. Na segunda, deu certo.

     — Alô!

     Do outro lado falou a voz metálica, fanhosa, de uma mulher.

     — Boa tarde. Aqui quem está falaaaando é Rose Silva. Falo em nome do Bradesco e gostaria de falar com o seu Aldo Jung.

     — Pois não. Sou eu mesmo, mas não posso falar porque estou dirigindo.

     Cheguei bem perto do condicionador de ar, que estava ligado, para fazer barulho.

     — Poderia repetir, senhor Aldo. Não lhe entendi.

     — Não posso falar porque estou dirigindo – gritei.

     — Qual seria, senhor Aldo, uma melhor hora para estar falaaaando com o senhor?

     — Hoje? Só depois das 19 horas!

     — O Bradesco agradece e lhe deseja um exceleeeente dia.

     Pensa que eles desistem? Que nada! Os coitados têm uma meta diária a cumprir.
     Na tarde daquele mesmo dia, na horinha sagrada da minha sesta: to-óin, to-óin, to-óin, to-óóóóóiiiiin! Lá veio o Globo Repórter me tirar de alfa. E o pior: a ligação não completou. Vi que era o Bradesco de novo. Levei o telefone pra deitar comigo. Não demorou muito, de novo: to-óin, to-óin, to-óin,to-óóóóóiiiiin! E o pior: a ligação não completou. Vi que era o Bradesco de novo. Larguei o telefone do meu lado. Não demorou muito: to-óin, to-óin, to-óin,to-óóóóóiiiiin! Deu certo!

     — Alô!

     Do outro lado falou a voz metálica, fanhosa, de uma mulher.

     — Boa tarde. Aqui quem está falaaaando é Gisleine. Falo em nome do Bradesco e gostaria de falar com o seu Aldo “Iung”.

     — Pois não.

     — Seu Aldo?

     — Sim. E daí?

     — Primeirameeeeente, gostaria de estar lhe informaaaando que essa ligação vai estar seeeendo gravada para sua segurança. Então: blá, blá, blá, blá, blá. Benefícios, blá, blá, blá, blá, blá. Crédito, blé, blé, blé, blé. Blé, blé, blé, blé. Juros baixos, bli, bli, bli, bli. Bli, bli, bli, bli. Bló, bló, bló...

     Antes que chegasse ao blu, interrompi a Gisleine.

     — O negócio é o seguinte, Gisleine: graças a Deus não preciso de crédito. Isso é o que eu mais tenho. Crédito. Tenho cinco cartões de crédito, tenho um ótimo emprego no governo federal, que me garante uma renda excepcional, não passo por dificuldades e não preciso de nada.

     — Quais seriam as bandeiras dos cartões de crédito que o senhor possui, senhor Aldo?

     — Visa, Mastercard, Dinners, American Express e um outro que nem me lembro mais, porque não uso nenhum, compro e pago tudo com dinheiro, na hora.

     — Mas, então, senhor Aldo, vou estar lhe ofereceeeeendo a oportunidade de estar adquiriiiindo mais um cartão de crédito...

     Interrompi a Gisleine de novo.

     — Gisleine...

     — ... blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá...

     — Gisleine! – gritei.

     — Pois não, senhor Aldo.

     — No momento não estou interessado em crédito. Mas o que eu tô querendo muito é fazer sexo.

     Um breve silêncio.

     — Poderia estar repetindo, senhor Aldo? Não lhe entendi.

     — Eu tô loco pra fazer sexo, Gisleine, dar uma boa transada. Poderias estar me ajudando com isto?

     — O Bradesco agradece e lhe deseja uma boa tarde.

     Tu, tu, tu, tu, tu...

.:: o ::.

     Fui grosseiro, sei. Fiquei com pena da Gisleine. Faria o mesmo se fosse a Rose ou o Robson, de quem também ficaria com pena. Sei que eles não são culpados, mas alguém tem que ouvir. Se eu pedisse pra chamar o supervisor ou supervisora, não seria atendido se não houvesse uma razão plausível para tanto, mas diria o mesmo pra ele/ela, de quem também teria compaixão. Na verdade, quem tem que ouvir o que eu disse e coisa ainda pior é o Diretor de Marketing do Bradesco e o cara que inventou esse serviço telechato. Esses são os verdadeiros culpados pelas seguidas e vespertinas interrupções da minha sesta.

.:: o ::.

     Posso estar imaginaaaando que o leitor tenha achado meio chato esse texto repetitivo. Imagine, então, como eu estava incomodado. É que tentei passar a impressão daquele papo de telemarketing, que é sempre o mesmo.

     Enfim, estarei de volta no fim do mês e, espero, sem estresse. Mas, como tenho que deixar o celular ligado, então não sei se vou ficar livre dos telechatos...

Um comentário:

Oscar Bessi disse...

Tchê, vou confessar que virei umas cambalhotas aqui, agora, dando risada. Muito bom, hahahaha!