Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







sábado, 9 de abril de 2011

Fissura

     Um dos significados da palavra fissura encontrados nos dicionários — que a trata como gíria ou regionalismo — diz que é “um apego extremo; forte inclinação; loucura, paixão, ânsia, sofreguidão”. A gente costuma dizer que “fulano é ‘fissurado’ em beltrana” ou vice-versa. Neste momento, estou fissurado. Sabem pelo quê? Vamos aos fatos.
 
Quinta-feira - 07 de abril (Dia do Jornalista — fato que não tem nada a ver com esta crônica)

     7h30 - Acendi o primeiro cigarro do dia, como se esse dia e esse cigarro fossem os mais normais e comuns da minha vida. Duas semanas atrás já seria o terceiro cigarro do dia. Recém havia tomado um cafezinho no Bar do Antônio. Já tinha assinado o ponto e ligado o computador. Agora, estava fumando no saguão do 8º andar, em frente aos elevadores, olhando pela janela o movimento dos ônibus e automóveis em direção ao Túnel da Conceição. Após cada tragada, olhava para o cigarro, ou o que ainda restava dele, e soltava a fumaça pelo nariz, como não fazia há muito tempo. Havia em mim um misto de “que bom que está terminando” com “que pena que está terminando”. Quando a brasa estava quase no filtro, levei-o ao sanitário e, gentilmente, afoguei-o no vaso. Ao trabalho.
 
     9h10 - Acabei o lanche: um sanduíche com pão de forma, queijo, peito de peru, requeijão, tomate e alface, que trago de casa. Voltei ao saguão, onde, agora, algumas pessoas estão sentadas em volta das mesas que têm ali. Meio sem jeito, acendo o segundo cigarro do dia. Numa época recente já seria o quinto ou sexto. Fico na janela, de costas pras pessoas no saguão. Meio desconfiado, olho pra trás de vez em quando pra ver se não estão fazendo cara feia por causa do cheiro do cigarro. Não estão nem aí. E até poderiam fazer valer seus direitos, impressos no pequeno cartaz afixado na parede: “Conforme Lei Federal nº 9.294, de 15 de julho de 1996, art. 2º, parágrafo 1º, é proibido fumar em todos os recintos desta Universidade”. Acabou. Mais um que afogo no vaso sanitário. Ao trabalho de novo.
 
     11h - Minha colega me convida pra descer até o estacionamento pra esticar as pernas. Precisa passar do carro dela para o meu dois laptops da minha nora, que o marido dela consertara. Concordei e acrescentei que seria bom fumar meu último cigarro ao ar livre, sem precisar me constranger com os não fumadores. Ela ficou feliz de poder ser testemunha desse momento, ou seja, de me ver fumar meu último cigarro, não só do dia, mas da vida. Peguei o cigarro do maço, amassei-o (o maço, não o cigarro) e, antes de jogá-lo no lixo, fotografei-o para a posteridade e para ilustrar essa crônica. Descemos e, depois de trasladar os computadores, acendi o cigarro. Estava na rua, sob as árvores do estacionamento, o dia maravilhoso e eu sentindo, ao mesmo tempo, o prazer e o desgosto de fumar pela última vez. O cigarro acabou. Larguei-o no chão e, num gesto carregado de simbolismo, tentei esmagá-lo com o pé. Não é que o desgraçado rolou e ficou numa depressão entre dois paralelepípedos do estacionamento! Azar, só vai fumegar por mais um ou dois segundos mesmo. Ao trabalho, porque a vida continua.

Sexta-feira - 08 de abril
 
     11h - Estou há 24 horas sem fumar. Fora isso, nada mudou na minha rotina: tomei cafezinho e chimarrão, fiz lanche, etc.
     Um dia inteirinho sem fumar. Tá me dando “fissura“!
     Cheguei onde queria com o título deste texto. O termo “fissura“ é usado para descrever o mal-estar e a vontade intensa de fumar. Neste momento, estou fissurado por um cigarro. É natural, a síndrome da abstinência está pegando. Sei, contudo, que essa vontade dá e passa. A nicotina é uma substância psicoativa que causa a chamada dependência física. Os primeiros dias sem cigarro são difíceis, mas, depois desse período, ficar sem fumar será mais fácil. Serão dias sem fissura.
     Depois da fissura pela ausência da nicotina, terei que lidar com fissura da dependência psicológica do cigarro, que se refere ao sentido ou à função que o cigarro tem na vida dos usuários. Muitos fumantes, por exemplo, costumam fumar em situações de estresse, quando estão tensos, pois sentem que o cigarro os relaxa. Está, então, criada uma associação psicológica. Outros fumam como uma forma de lidar com a solidão. O cigarro faz as vezes de um amigo próximo, que nos acompanha. Assim, um fumante se entristece ao pensar em parar de fumar, em perder um companheiro. Alguns acreditam que o cigarro os estimula a serem criativos, por isso fumam quando estão trabalhando; ou fumam quando se divertem, pois o cigarro lhes dá prazer. Tudo isso torna o fumante psicologicamente dependente do cigarro.
     Além dessas duas formas de dependência, há, ainda, a comportamental. O ato de fumar envolve várias associações de comportamento ligadas a hábitos individuais e sociais. Um exemplo disso é vincular o ato de fumar ao de tomar um cafezinho. O sujeito começou acendendo um cigarro depois do café, porque lhe parecia um momento adequado. Com algumas repetições, essas associações se tornaram constantes e, agora, sempre que tomar um café vai sentir vontade de fumar. Outras associações comuns são: fumar e ingerir bebidas alcoólicas, fumar e falar ao telefone, fumar ao dirigir, ao escrever um relatório, ao ver televisão, depois de comer e após as relações sexuais.
 
Sábado – 09 de abril
 
     11h – 48 horas sem fumar. Não consigo traduzir em palavras o que a síndrome de abstinência faz comigo. Fico agitado, inquieto, querendo que as horas passem ligeiro, pois quanto mais distante ficar das 11 horas de quinta-feira, quando fumei o último cigarro, menor será meu mal-estar e menores as chances de eu ter uma recaída. Não! Isso não vai haver. Afinal, não é porque passei fumando 72% da minha vida até hoje que vá sucumbir a qualquer vontadezinha, né? Vamos em frente, com ou sem fissura. Tudo passa.

5 comentários:

mulher de sardas disse...

ai, Aldo, estou entre adorar tudo isso e morrer de pena de ti. Coitadinho. Um vício que a gente começa por nada e é um inferno para terminar. Muita força, boa sorte, estou te acompanhando!!!
Beijo,
Camila.

Clara disse...

Tadinho do meu amor. Estou acompanhando o sofrimento e o sucesso dele e sei que não está sendo nada fácil.
As vezes parece estar em depressão de tão desanimado que fica. Além disso, pecebo mau-humor, coisa raríssima e dispersão de atenção, também tenho notado no meu aspirante à ex-fumante.
Amor,continue forte e conte comigo, me ajude a te ajudar.

6 Dicas para acabar com as fissuras de fumar
1.Beba muita água, vários copos por dia. Quando sentir fissura de fumar, opte por água gelada, beba pausadamente e respire profundamente entre os goles. É excelente para as fissuras!
2.Tenha sempre consigo algo para mastigar. Uma bala, uma goma de mascar (sem açucar, claro), frutas secas, gengibre seco em flocos, maçã, algo de baixa caloria de sua preferência.
3.Quebre hábitos ligados ao tabagismo, evite beber café e bebidas alcoólicas, pelo menos nos primeiros dias.
4.Ocupe suas mãos com algo que prefira, um rosário, um elástico de cabelos, um jogo, uma caneta, qualquer coisa que distraia.
5.Faça uma atividade física qualquer, caminhada, vôlei, futebol, natação, bicicleta, etc.
6.Respire profundamente e lentamente, de 5 a 10 vezes quando sentir vontade de fumar.

Posso fazer tudo isso, junto contigo. Te amo!

Macfuca disse...

Pensa no velho Milton largou de uma hora pra outra sem pensar muito alias quase só pensando nas duas esquemias que lhe pegaram de surpresa. Bem melhor sem. Parabéns pela iniciativa.
Abração

M.F. disse...

Adorei seu blog, gostei quando falou da liberdade de expressão, muito massa mesmo, não sei como encontrei, mas de toda forma adorei, me segue tbm, desde já agradeço!

Buffalo disse...

Velho Aldo de guerra. Fiquei muito feliz quando nos encontramos no lugar de sempre, Bourbon Shopping, e soube que tinhas parado de fumar. Eu, que sou um "parante" de 25 anos, posso te dizer com toda a certeza que vale a pena. E uma dica infalível para quando vier a vontade de fumar: NÃO FUME. É só seguir essa dica que nunca mais vais fumar.

Um abração do amigo Buffalo