Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







sábado, 27 de novembro de 2010

Culpa, remorso e arrependimento



     Aconteceu no dia 17 passado. Douglas perdeu a bola no meio do campo. Ela sobrou para Messi, que correu em direção a gol sem ser parado por ninguém da seleção brasileira. Resultado: Argentina 1 x 0 Brasil, aos 46 do segundo tempo.
     Imediatamente, especialistas, comentaristas e entendidos em geral decretaram que a culpa da derrota era de Douglas.
     Não se assuste. Este texto não é sobre futebol. É sobre culpa, aquilo que os dicionários definem como “conduta negligente ou imprudente, sem propósito de lesar, mas da qual proveio dano ou ofensa a outrem; falta voluntária a uma obrigação, ou a um princípio ético; atitude ou ausência de atitude de que resulta, por ignorância ou descuido, dano, problema ou desastre para outrem”, entre outras acepções em rubricas específicas.
     No caso da seleção brasileira em seu amistoso com a Argentina, é muito fácil criticar Douglas e culpá-lo pelo fracasso. Ocorre que qualquer um poderia ter perdido a bola e deixá-la sobrar para Messi carimbar a rede brasileira. Eu me arrisco a dizer que a culpa foi de quem deveria estar dando cobertura na eventualidade de a bola ser roubada no meio de campo; poderia dizer que a culpa foi do treinador, por não ter alertado sobre esse perigo ou, noutra hipótese, ter colocado em campo um jogador que não estivesse à altura da seleção. Dizem que a melhor defesa é o ataque. Pois então a culpa é do ataque, que não foi eficiente.


     A culpa atribuída à Douglas pelos entendidos se dá no plano objetivo ou intersubjetivo, que é quando um grupo, ao avaliar atos que resultaram em prejuízo a outros, atribui a responsabilidade a um indivíduo. No sentido subjetivo, a culpa é um sentimento que assume a consciência de um sujeito quando este avalia negativamente seus atos e sente-se responsável por falhas, erros e imperfeições. Não foi este o caso em tela, uma vez que Douglas não se sentiu culpado.
     A culpa também é tratada pela psicologia, pela religião e pelo direito.
     No direito penal, culpa refere-se a ato voluntário, proveniente de imperícia, imprudência ou negligência, de efeito lesivo ao direito de outrem; fato, acontecimento de que resulta um outro fato ruim, nefasto; consequência, efeito. É, portanto, um erro não proposital. Diferencia-se do dolo porque, neste, o agente tem a intenção de praticar o fato e produzir determinado resultado: existe a má-fé. Na culpa, o agente não possui a intenção de prejudicar o outro, ou produzir o resultado. Não há má-fé. Para o direito civil, culpa é falta contra o dever jurídico, cometida por ação ou omissão e proveniente de inadvertência ou descaso.
     No sentido religioso, a culpa advém de um ato da pessoa que recebe avaliação negativa da divindade, por se constituir na transgressão de um tabu ou de uma norma religiosa. A sanção religiosa é um ato social, e pode corresponder a repreensão e pena objetivas. De outra parte, a culpa religiosa compreende também um estado psicológico, existencial e subjetivo, que propõe a busca de expiação de faltas ante o sagrado como parte da própria experiência religiosa. Neste sentido, o termo pecado está geralmente ligado à culpa.
     A psicologia, por sua vez, examina a culpa como sentimento de culpa ou remorso. O sentimento de culpa é o sofrimento pelo qual passa o indivíduo depois de reavaliar um comportamento tido como reprovável por si mesmo. Para esta ciência, a culpa é um sentimento como qualquer outro, que pode ser tratado terapeuticamente.
     Na mesma trilha da culpa andam o remorso e o arrependimento (que não são a mesma coisa).
     Remorso é um sentimento praticado por alguém que acredita ter cometido um ato que infringe um código moral ao qual obedece. Dessa forma, torna-se (ou acredita ter se tornado), por isso, passível de alguma condenação e punição. Como não quer sofrer tal punição, pune-se, então, de alguma maneira mais suportável. Quem sente remorso, no entanto, não está verdadeiramente arrependido do mal que causou a terceiros. Está apenas motivado pelo medo da punição do meio social em que vive ou de uma entidade superior, punindo a si mesmo de alguma maneira. Uma forma de autopunição é, por exemplo, forçar-se a se entristecer, que é a manifestação mais comum do remorso. Alguém com remorso entende que ao se autopunir terá seu erro redimido, fugindo de uma punição que seria ainda mais severa.
     Arrependimento, por sua vez, quer dizer mudança de atitude, ou seja, atitude contrária àquela tomada anteriormente. O arrependido verdadeiramente percebe e se sensibiliza das consequências ruins que seus atos causaram para outras pessoas. Essa sensibilização à dor alheia leva o arrependido a uma tristeza verdadeira pelo dano sofrido pelos que prejudicou. E, como consequência, o arrependido toma a firme decisão de não mais cometer o mesmo erro, para não mais causar mal a outros. O arrependimento pode também ser considerado como a dor sentida por causa da dor causada.
     Ao falar em culpa, remorso e arrependimento, lembrei que num dos textos judaicos encontra-se a citação: “a própria consciência é o mais feroz acusador do culpado”. Ao falar em citação, lembrei de outras:

“A maior punição do homem é o remorso." (Miguel Couto)

“Existe, sem dúvida, um remédio para cada culpa: reconhecê-la”. (Franz Grillparzer)

“Da primeira vez que me enganares, a culpa será tua; já da segunda vez a culpa será minha”. (Provérbio Árabe)

“O culpado que se arrepende não está perdido”. (Demócrito)

“A vigília é a penitência maior; por isso foi escolhida a insônia para companheira do remorso”. (Coelho Neto)

“Quando se culpa os outros, renuncia-se à capacidade de mudar”. (Douglas Adams)

“O remorso é a única dor da alma que o tempo e a ponderação não conseguem nunca acalmar”. (Delphine)

“Errar é humano. Botar a culpa nos outros, também”. (Millor Fernandes)

“É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”. (Raul Seixas)

“Todos são culpados mas ninguém tem culpa”. (Bob Hoffman)

“Todo o homem é culpado do bem que não fez”. (Voltaire)

“O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros”. (Confúcio)

“Quando ficam uns a atirar a culpa para os outros, a culpa, podem crer, é de todos”. (Mário Negreiros)

     Como se vê, muitos já trataram do tema. Mas essas citações e pensamentos foram proferidos, na maioria dos casos, por pessoas ilustres. O que eu gostaria de saber é como age a consciência de quem pratica um crime bárbaro, um homicídio por motivo fútil, como uma briga no trânsito, uma rusga familiar, etc. A culpa, salvo raras exceções, é provada. O improvável é se o criminoso arrependeu-se ou se sente remorso.

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