Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







sábado, 23 de outubro de 2010

O caso da “bolinha de papel”



      Quarta-feira, dia 20, noticiou-se que o candidato José Serra havia sido atingido numa confusão entre militantes petistas e tucanos, durante caminhada em Campo Grande, no Rio de Janeiro. A notícia dizia que Serra fora atingido por um objeto que, segundo o Jornal Nacional, seria uma bobina de fita adesiva. O candidato teria ficado estonteado e, por isso, procurado um hospital onde passou por um exame de tomografia cerebral.
     Com certeza, a maioria dos telespectadores, inclusive os que não gostam do Serra, ficaram revoltados com a confusão beligerante e com a agressão ao candidato tucano.
     Na quinta-feira, no seu telejornal matinal, no entanto, o SBT exibiu a sequência dos fatos e mostrou que Serra fora atingido por uma bolinha de papel na parte posterior da cabeça, e não por algo que o levasse a ficar estonteado e a fazer uma tomografia. A reportagem foi para a internet e a comoção daqueles telespectadores da noite anterior mudou de lado.
     Nessa mesma manhã, em Rio Grande, o presidente Lula, que não consegue ficar quieto, abriu a bocarra pra condenar a atitude do candidato, classificando-o, inclusive, como mentiroso.
     À noite, contudo, a coisa mudou de novo. O Jornal Nacional exibiu imagens — de péssima qualidade — obtidas pelo celular de um repórter do “imparcial” e “isento” jornal Folha de São Paulo, que mostram Serra sendo atingido por um objeto circular e transparente.
     A casa caiu! Perdeu! Perdeu!
     Serra, que era vítima, passou a ser mentiroso e voltou a ser vítima. Lula, que se sentira enganado, passou a ser caluniador.
     É claro que o assunto não iria parar aí. A Globo contratou os serviços do perito Ricardo Molina, da Unicamp, para analisar os vídeos. Em entrevista, disse que o objeto — que parecia ser um rolo de fita adesiva — bateu na região superior da cabeça, frontal superior. Ocorre que o médico Jacob Kligerman — ex-secretário de Saúde da administração Cesar Maia (DEM) e nomeado por Serra a cargo de confiança quando foi ministro da Saúde —, que atendeu o paciente, disse que o objeto que teria estonteado o candidato teria lhe atingido na parte posterior da cabeça.
     A casa caiu de novo! Perdeu! Perdeu!
     Os dois, perito e médico, divergem quanto ao local onde a bolinha de papel e o outro objeto teriam atingido a cabeça de Serra. Resumindo: conforme as imagens, a bolinha de papel atinge Serra por trás; o tal rolo, no alto da cabeça (tanto que é ali que ele passa mão logo em seguida); o perito garante que o que causou o ferimento superficial atingiu a região superior da cabeça, frontal superior; o médico, por sua vez, diz que o objeto que causou o ferimento atingiu a região occipito-parietal (isso fica atrás...).
     Mas o tro-lo-ló ainda não terminou! Novos fatos surgiram. O vídeo feito com o celular do repórter Ítalo Nogueira, da Folha de São Paulo, foi impiedosamente manipulado e editado pela Globo. Não sou eu que estou dizendo. Isto está documentado num vídeo postado no Youtube, ao qual o leitor eleitor deve assistir, clicando aqui, para tirar suas conclusões..
     E então, a casa caiu de vez?
     E agora, José (Serra)? Onde dói? No coco ou no occipito-parietal? Como fica o câmbio flutuante no teu programa de governo? Afinal, o que pode mais: o Brasil, uma bolinha de papel, uma bobina de fita adesiva ou a Rede Globo?
     Como é que o famigerado perito Ricardo Molina não viu que o vídeo da Globo fora manipulado? Será que é porque foi contratado pela empresa para “peritar” as imagens?
     Como é que fica a cabeça do eleitor de acordo com o desenrolar dos fatos ou das “montagens”, sendo ele serrista ou não? Serra foi vítima de militantes petistas? Serra é um farsante mentiroso e Lula um caluniador? A Globo é uma farsante mentirosa, Serra concorda com isso e Lula não é caluniador?
     Você decide.

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     Vamos, entretanto, dar uma pausa e relaxar um pouco.
     A todas essas, a criatividade, a oportunidade e a agilidade dos caras que fazem animações e joguinhos pra computador andam a mil por hora, mais rápido do que o avanço tecnológico de hoje em dia. Diria até que, se derem mole, a gurizada é mais ágil do que a divulgação dos fatos na internet.
     Mal se começou a comentar nas esquinas, nos bares, bolichos e baladas, nas paradas de ônibus, nas filas do SUS e do INSS, nas igrejas fundamentalistas e nas progressistas, nos consultórios médicos, nas camas das alcovas e nos sofás das salas de estar sobre o episódio da bolinha de papel, ou melhor, do rolo de fita adesiva, já apareceu um joguinho em que jogador tem que acertar bolinhas de papel na cabeça do Serra. Seja você ou não um daqueles indignados com o que aconteceu ao candidato, que depois se indignou com o que teria feito o candidato, que voltou a se indignar com o que aconteceu ao candidato, e que tornou a se indignar com o que fez a Globo, atire umas bolinhas virtuais de papel na cabeça dele clicando aqui.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uns e outros


     Todos concordam que a campanha eleitoral deste ano está uma baixaria. Ao mesmo tempo em que “um” denuncia que a “outra” é a favor da descriminalização do aborto, aparece uma voz na multidão dizendo que a mulher do “um” praticou aborto; enquanto “um” fala das supostas trampolinagens do filho de Erenice, amiga e substituta da “outra”, esta fala da suposta sacanagem de Paulo Preto, correligionário e amigo do “um”, que desviou uma grana preta do partido. E por aí afora. “Uma” defendendo-se do que insinua o “outro” e vice-versa.
     Até a CNBB envolveu-se na baixaria. Uma tal de Comissão em Defesa da Vida distribuiu, ainda antes do primeiro turno, um “Apelo a todos os brasileiros e brasileiras”, assinado por alguns bispos da Regional Sul 1 da CNBB (São Paulo). O texto relaciona o PT e a presidenciável Dilma Rousseff à defesa da legalização do aborto e recomenda “encarecidamente a todos os cidadãos brasileiros e brasileiras” que, “nas próximas eleições, deem seu voto somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto”. Agora, dois meses depois, o presidente dessa mesma Regional da CNBB condenou a nota. Segundo o texto, o grupo “desaprova a instrumentalização de suas declarações e notas e enfatiza que não patrocina a impressão e a difusão de folhetos a favor ou contra candidatos”. Não é o que pensa, entretanto, o vice-presidente da entidade, que diz que a nota (e o manifesto pensamento nela contido) é legítima.
     Em todas essas, por ordem do Tribunal Superior Eleitoral, a Polícia Federal apreendeu um milhão de panfletos com o conteúdo produzido pela Comissão em Defesa da Vida, em uma gráfica no bairro Cambuci, em São Paulo.
     Vejam até que ponto a igreja está envolvida: terminou em tumulto uma missa na tarde de sábado, dia 16, na Basílica de São Francisco das Chagas, em Canindé, no Ceará, em que estava presente o candidato José Serra. No final de celebração, o padre condenou a distribuição dos panfletos sobre o aborto. Afirmou que as mensagens estavam sendo atribuídas a igreja, mas que ela não havia autorizava este tipo de publicação em seu nome. O senador Tasso Jereissati, que acompanhou a missa ao lado de José Serra, se exaltou e afirmou que era um “padre petista” como aquele que estava “causando problemas à igreja”. Outros partidários do tucano também se exaltaram. O padre saiu escoltado por seguranças.
     Na saída houve um princípio de tumulto entre militantes do PT e do PSDB.
     Do que menos se ouve falar, porém, são de propostas, a não ser nos debates, em dois ou três minutos de resposta e mais um de tréplica, entremeado por uma réplica, entre uma acusação e outra, de parte a parte. E tudo muito bem alimentado pela imprensa.
     Baixaria em campanha eleitoral, contudo, não é novidade. Pra citar uma da era atual: no último debate da primeira eleição livre pós-ditadura, Collor “denunciou” que Lula tinha uma filha fora do casamento e um aparelho 3 em 1. O eleitor, ingênuo, deu crédito a Collor, provocando, no mínimo, 12 anos de atraso político, econômico e social ao Brasil e aos brasileiros. Atraso esse que se reflete na atual eleição.
     Desta vez, quem acabou sendo a estrela do primeiro turno foi a terceira colocada, Marina Silva, que se manteve alheia a ataques denuncistas. No segundo turno, uns e outros passaram a disputar os votos dados a Marina no primeiro. Mas ela ficou em cima do muro, alegando que a posição do PV não é de “neutralidade, mas de independência”. Para Marina, os dois candidatos deveriam privilegiar a discussão sobre propostas.


     De qualquer maneira, esse excesso de acusações e denúncias e a excessiva ausência de propostas pouco mudaram o quadro eleitoral. Agora que a disputa está entre dois, a última pesquisa divulgada (Datafolha, 15/10) dá conta de que, computados apenas os votos válidos, Dilma teria 54% dos votos e Serra, 46%. No primeiro turno, quando nove candidatos disputavam, Dilma obteve 46,91% dos votos válidos, Serra, 32,61%, Marina, 19,33% e os demais candidatos, 1,15%. Tomando-se por base os números da pesquisa, concluo, então, que cerca de 7% dos votos de Marina foram pra Dilma, enquanto 13% deles foram pro Serra. A diferença entre Dilma e Serra, que foi de 14,3% no primeiro turno, estaria, hoje, ainda segundo a pesquisa, em 8%.
     Tenho a impressão de que, tanto pra um como pra outro (ou tanto pra uma como pra outro) correr atrás dos votos da Marina é perda de tempo.

domingo, 10 de outubro de 2010

Liberdade de expressão



     Hoje é um dia especial, faz um ano que comecei este blog. Como diz no cabeçalho, escrevo aqui “coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que tenho vontade de deixar registradas, nem que seja num blog”. Sempre me deu “coisas na telha”, mas apenas as comentava com alguém próximo ou, no máximo, mandava uma que outra para alguma seção “cartas do leitor”. Na maioria das vezes, contudo, não eram publicadas. Quando eram, o editor da seção “moderava” o texto. Resolvi, então, fazer o blog.
     Nunca tive — e ainda não tenho — grandes pretensões com ele. Não o assumi como uma profissão de “blogueiro profissional”. Repito: coisas que me dão na telha, “de vez em quando”... Já me cobraram mais assiduidade, mas não estou muito ligado. Mesmo assim, além do Brasil, já tive acessos de internautas de Estados Unidos, Portugal, Rússia, Argentina, Canadá, França, Alemanha, Ucrânia e Japão. Viva o Google!
     A coisa que me deu na telha pela primeira vez neste blog foi escrever sobre o casamento do meu filho (Um dia especial). Em duas postagens seguidas falei no evento: a primeiro, no dia do casamento; a segundo, um dia depois. A partir daí, de vez em quando, posto alguma coisa que me incomoda ou que me entusiasma.
     Atualmente, o que me incomoda é a campanha anti Dilma que corre solta desde os grandes veículos de comunicação até os mais desconhecidos blogs, passando pelas nossas caixas de entrada, diariamente. Alguém até se deu o trabalho de compilar todas as falsidades que rolam pelos emails e desmenti-las, desmascarando seus criadores. Procure a Central de Boatos e confira você mesmo.
     Isso me fez pensar na liberdade de expressão. As pessoas que criam esses emails — não sei a troco de quê — alegam que estão usando sua liberdade de expressão. Ledo engano. O que fazem não é o uso da liberdade de expressão. Assim o seria se dissessem que não votariam em A ou B porque não concordam com suas atitudes, ou seus programas de governo, etc. Ou o contrário disso, sempre respeitando o que outros pensem a respeito. Agora, inventar histórias com o intuito de prejudicar um ou outro costuma-se chamar de mentira, de mau caratismo!
     Enfim, liberdade de expressão é um tema que, pela complexidade, não se esgota apenas numa postagem. Vou contar uma história do porquê me desiludi com o hipócrita jornalismo tradicional.

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Liberdade de expressão

     Em 1984, durante uma grande greve dos funcionários públicos federais, especialmente das universidades — entre os quais me incluo até hoje —, resolvi fazer valer explicitamente meu diploma de jornalista. Só tinha precisado dele para entrar no serviço público federal, em cargo e função exercida por jornalistas, e para dar aulas de radiojornalismo numa outra universidade, só que privada.
     Falei em fazer valer explicitamente meu diploma porque fui convidado para trabalhar na emissora de rádio de uma das duas maiores empresas de comunicação do Estado. Imagino que não tenha sido minha competência o principal motivo do convite. A empresa — então com 89 anos — passava por uma séria dificuldade financeira, muitos funcionários abandonavam o barco, os salários estavam atrasados, fornecedores ficavam na mão e corriam dezenas de ações contra ela nas diversas instâncias judiciais.
     Como estava em greve, e as aulas que ministrava na universidade privada não me consumiam muito tempo, resolvi aceitar o desafio. Comecei como redator de notícias num horário em que ninguém queria trabalhar: das 18 às 23 horas. Havia a promessa de que logo poderia trabalhar num horário melhor.
     Não demorou muito estava redigindo notícias para os radiojornais vespertinos e, especialmente, para as edições das 18h50 e 20h30 do então importante e famoso Correspondente Renner. O leitor mais “experiente” já deve saber de que empresa estou falando. Para os mais novos eu digo: a empresa era a Caldas Júnior; a rádio, a Guaíba.
     Também não levou muito tempo para que — desta vez por terem sido reconhecidas minha competência (e minha modéstia) — eu fosse alçado ao cargo de editor. Os salários estavam em dia, o quadro de funcionários se estabilizara, o serviço fluía normalmente e a liberdade de expressão não era muito controlada. A imprensa, em geral, recém havia saído de um longo período de censura imposto pelos sucessivos governos militares. Falava-se muita coisa, mas bem menos do que hoje. O presidente era o Sarney, em quem nenhum de nós, eleitores comuns, tínhamos votado e que assumira devido à morte de Tancredo Neves, em quem também não tínhamos votado. Pelo menos ambos eram civis.
     Eis que a empresa foi vendida pelos antigos proprietários e comprada por um economista e empresário de soja. Gente que tinha dinheiro, mas nada a ver com jornalismo. Seus parentes todos ganharam cargos nos veículos do grupo. Conta uma lenda que a mulher do novo patrão, indicada ao cargo de diretora da TV, queria acarpetar o piso dos estúdios, porque achava muito feio aquele cimento por onde rodam suavemente os tripés das câmeras. Não sei até que ponto é verdade.
     A direção da rádio ficou com o irmão do empresário, um arquiteto por formação. Numa bela tarde, ao chegar para trabalhar, fui chamado à sala do arquiteto, digo, do diretor. Em lá chegando, do alto de seus cerca de 1,55m, o arquiteto, digo, o diretor, sem nem me convidar a sentar, jogou na minha frente, sobre sua mesa, uma das notícias que haviam sido veiculadas na última edição do Correspondente Renner do dia anterior. Era uma notícia daquelas pra completar os 10 minutos do radiojornal, que eu mesmo havia redigido, e que cujo fato até já tinha sido noticiado na Veja. Ela falava de um então ministro da Justiça que voltava ao Sul todos os fins de semana em jatos da FAB.
     Nem preciso dizer que, a partir desse dia daquele abril, deixei de fazer parte dos quadros de funcionários da Rádio Guaíba, sob a alegação de que o ministro pedira a cabeça do responsável (no caso, a minha).
     Indignado (mas não inconformado), no dia seguinte, falei com um conhecido, assessor direto do ministro em questão. Ele disse que o ministro não sabia nem da notícia, quanto mais que teria pedido a demissão.
     Acreditei. Esse seria mais um caso daqueles em que o súdito é mais realista do que o rei.
     Era 1988, ano de eleição para prefeitos e vereadores. A outra grande empresa de comunicação do Estado deslocava muitos de seus jornalistas para uma central de eleições. Precisava, então, de gente que segurasse o piano do cotidiano. Fui chamado para ser um desses carregadores, das seis da manhã até uma da tarde, temporariamente, até as eleições.
     Nessa empresa, na qual também assumia como editor, já foram me avisando: só se fala em greve quando ela realmente começar; procura-se não falar no PT, a não ser que seja fato muito relevante, etc. Acontece que um dos candidatos à prefeitura era Olívio Dutra, do PT; Acontece, também, que, naquela época, diariamente servidores públicos, petroleiros metalúrgicos e trabalhadores de outros setores viviam ameaçando entrar em greve. Impossível viver-se sem falar no PT e em greves, naquela ebulição toda.
     Várias vezes fui chamado à sala de uma das tantas pequenas autoridades daquela empresa pra ser repreendido por ter violado as regras e, consequentemente, a liberdade de expressão do senso comum, casualmente contrária à liberdade de expressão do grupo.
     Finalmente, numa misteriosa virada das pesquisas, Olívio Dutra foi eleito prefeito. Acabou-se meu período de jornalista temporário. Passados alguns dias, recebo o telefonema de uma daquelas pequenas autoridades me convidando para trabalhar permanentemente na função que exerci temporariamente. Agradeci a lembrança e recusei amavelmente. Não disse a ele, mas esse tipo de jornalismo não me seduzia.
     Muito se tem falado na tal liberdade de expressão. Grandes veículos e importantes (se é que dá pra se classificar assim) jornalistas têm gritado aos quatro cantos que o presidente Lula quer acabar com a liberdade de expressão no Brasil. Comparam-no com Hugo Chavez, que costuma fechar emissoras que não têm o mesmo pensamento dele. Então eu pergunto: como é que fica a liberdade de “expressão” do presidente Lula? Essas empresas e esses jornalistas se julgam representantes da opinião pública, que dá ao presidente Lula 80% de popularidade. A quem representam, então, esses veículos e seus servis jornalistas? Por óbvio, a si mesmos.
     Na semana que passou, aconteceu um fato interessante. O assunto não é novo, foi reproduzido e repercutido em vários blogues e sites de notícias, mas remete ao título desta minha crônica.
     O jornal “O Estado de São Paulo” declarou apoio a José Serra desde o primeiro turno.Tudo bem. Eles têm essa liberdade de se expressar. A campanha de Serra diz que Dilma e o PT são contra a liberdade de expressão e que querem controlar a imprensa. A psicanalista Maria Rita Kehl, colunista do Estadão, publicou, no dia anterior ao primeiro turno, um artigo chamado “Dois pesos...” sobre a desqualificação do voto popular. No texto, a colunista considerou digna a atitude do jornal de declarar explicitamente seu apoio a um dos candidatos. De resto, implicitamente, Maria Rita aplaude a popularidade de Lula, os programas sociais do governo e critica aqueles que menosprezam o voto dos pobres.
     A coluna finaliza assim:


Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

     A colunista Maria Rita Kehl foi hipocritamente demitida do Estadão. Que bom pra ela não mais fazer parte daquele grupo que pretende ser da camarilha de Serra.
     Assim são muitas das empresas de comunicação no Brasil: faça o que eu digo mas não faça o que eu faço. Noutras palavras: use a liberdade de expressão mas critique os que a usam.

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     Leia a coluna “Dois pesos...”, de Maria Rita Kehl, no Estado de São Paulo
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101002/not_imp618576,0.php
     Leia a entrevista da colunista após sua demissão
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4722228-EI6578,00-Maria+Rita+Kehl+Fui+demitida+por+um+delito+de+opiniao.html

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Carpe diem!


         Vive-se numa época em que não se precisa mais de dinheiro (em papel moeda) e cheques. Os cartões de débito e de crédito os substituíram com vantagem para usuários e instituições. Eu, por exemplo, sempre tive problemas no preenchimento de cheques: ou errava o valor por extenso ou a data ou, até, a assinatura. Um saco!
     Fazia muito tempo que eu não preenchia um cheque. Hoje, precisei. Com todo cuidado, não errei valor nem data nem assinatura. Uma coisa, no entanto, me chamou a atenção: ao escrever a data me dei conta de que já é outubro. Daqui a três meses estaremos em 2011. Putz!
     Perceba, então, que este texto nada tem a ver com dinheiro, cartões ou cheques, mas sim com o tempo, a quem chamam de implacável ou inexorável, aquele que não perdoa.

     Os dicionários têm muitas acepções para o verbete “tempo”. O Houaiss, por exemplo, define-o de 17 formas diferentes, em diversas rubricas. O Aurélio, por sua vez, tem 15 definições diferentes e mais 66 expressões em que se usa a palavra tempo (por exemplo: tempo compartilhado, a um só tempo, de tempo em tempo, nesse meio tempo, fechar o tempo, etc.). Em cada um desses dicionários, a primeira acepção é aquela que nos assusta. O Houaiss diz que o substantivo masculino tempo é “duração relativa das coisas que cria no ser humano a ideia de presente, passado e futuro; período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem”. O Aurélio diz a mesma coisa: “tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas, etc., que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro”. E explica: “o tempo é um meio contínuo e indefinido no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis”.
     Desde a antiguidade, os filósofos perdem muito tempo pensando e falando no tempo. Se colocarmos no Google as palavras-chave “o tempo filosofia”, surgirão cerca de 7.130.000 de resultados em 0,23 segundos! Se o Google perdesse um segundo, acharia 31 milhões de resultados. Mas ele – e quem dele faz uso – quer tudo pra já. Ninguém quer perder tempo.
     Horácio, um dos maiores poetas da Roma antiga lançou esta sentença: “carpe diem, quam minimum credula postero” (aproveita o dia presente e não queiras confiar no de amanhã). Ele achava muito importante aproveitar o presente sem demonstrar muita preocupação com o futuro, idéia que se assemelhava muito com a do filósofo grego Epicuro, que viveu dois séculos antes de Horácio.
     Poetas e compositores modernos também esbaldam-se com o tempo. Afinal, eles só fazem isso porque têm tempo de sobra. Nosso poeta Mário Quintana, além de várias frases sobre o tempo, deixou-nos uma poesia com esse nome, que transcrevo aqui.

O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

     Simples e fantástico, sem muita filosofia.
     Cazuza também nos deixou uma música maravilhosa falando do tempo: O tempo não para. Dela destaco a estrofe,

Eu vejo o futuro repetir o passado,
Eu vejo um museu de grandes novidades.
O tempo não pára, Não pára, não, não pára.

     Sérgio Britto compôs e os Titãs gravaram “Epitáfio”, que é um texto que o sujeito gostaria de deixar escrito no seu túmulo. Começa assim:

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer...

     Essas belas formas poéticas de ver o tempo me fazem pensar que de nada adiantou Einstein ter revolucionado o pensamento vigente com sua teoria da relatividade. Pra mim, perdeu tempo. Mas isso relativo. O tempo é relativo. Numa partida de futebol, para o time que está perdendo, parece que o tempo passa rápido; para o que está ganhando, parece que demora; para os dois, contudo, passa de segundo em segundo ao mesmo tempo.
     Einstein preocupou-se muito com o tempo e, além da teoria da relatividade, numa de suas tantas frases diz: “Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais”.
     Muitos deixaram para a posteridade frases sobre o tempo. Marquês de Maricá, por exemplo, disse que “desperdiçamos o tempo queixando-nos sempre de que a vida é breve”. É do grande George Bernard Shaw a seguinte: “temos tempo bastante para pensar no futuro quando já não temos futuro em que pensar”. Uma das mais filosóficas veio de Antoine de Saint-Exupéry: “foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”. Tem algumas engraçadas, como uma de Marcel Achard, um ator e comediógrafo francês nascido em 1899: “se uma mulher se vestisse só para um homem, com certeza não demoraria tanto tempo”.
     Eu nunca digo minha idade quando me perguntam quantos anos tenho, mas sim que espero ainda ter muitos.
     Veja só: enquanto pensava no tempo, não agi, e o tempo passou... Parafraseando outra de Mário Quintana, poderia dizer que o tempo é coisa que acaba de deixar o leitor um pouco mais velho ao chegar ao fim desta linha.
     Portanto, caro leitor e cara leitora: carpe diem!

sábado, 25 de setembro de 2010

Estelionato ou ignorância





     Tem um tipo de desonesto que eu admiro, desde que eu não seja a vítima da vez. Não! Não estou falando de certos políticos. Desses, todos somos vítimas. Falo daqueles que praticam o ato de obter, para si ou para outrem, vantagem patrimonial ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo em erro alguém mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento. Sim, falo dos estelionatários.
     Admiro-os por sua inteligência, sua lábia, sua capacidade de convencer as vítimas. Deixo de admirá-los, no entanto, quando são pegos, pois, então, por absoluta ganância, deixaram de ser inteligentes.
     Em compensação, tem um tipo de mentiroso que abomino: o ignorante.
     Vi na TV um caso ocorrido na Bahia. Um PM (ou ex-PM, não me lembro) tentou comprar um aparelho celular com uma identidade falsa. A vendedora desconfiou do documento porque dizia que o sujeito era “Técnico em engenharia e extrutura”. Realmente, o ignorante não se extruturou para praticar o golpe.
     Usei todo esse “nariz-de-cera” para falar de um email que anda invadindo nossas caixas de entrada e que, sem sombra de dúvida, é uma mentira deslavada e de perna muito curta.
     Trata-se de uma “notícia” segundo a qual a candidata à presidência, Dilma Rousseff, teria mantido um romance com uma doméstica antes de se instalar em Brasília. Vou reproduzir aqui o email para que vocês tirem suas conclusões sobre a veracidade da informação.
     Diz o texto:

Dilma Rousseff é Lésbica (sic), mas nunca quis assumir nosso romance publicamente.

     A declaração é de Verônica Maldonado, uma doméstica que afirma ter tido um longo romance com a atual candidata à presidencia (sic) da república, Dilma Rousseff.
     ‘Nos relacionamos durante mais de quinze anos, mas quando surgiu essa oportunidade em Brasília, ela nunca mais quis saber de mim.’
     Verônica afirma possuir fotos, cartas e outros documentos que comprovam a relação duradoura e pretende pleitear na justiça o direito à (sic) uma pensão mensal.
     ‘Afinal nós tivemos um relacionamento durante mais de qinze (sic) anos, período em que deixei de trabalhar, estudar, apenas para ficar com ela. Acho que tenho direitos como qualquer outra mulher!’
     Segudo (sic) o advogado de Verônica, Dr Celso Langoni Filho, a possibilidade de ganho de causa é concreta, uma vez que sua cliente é capaz de comprovar a existência de uma relação estável e duradoura. Ele cita o caso da Justiça de Pernambuco, que tomou uma decisão inédita este mês ao reconhecer a união estável de duas lésbicas para fins de pagamento de pensão.
     ‘A decisão da juíza Paula Maria Malta, da 11ª vara da família e registro civil da capital pode abrir jurisprudência para que outros juízes sigam o parecer’ Afirma (sic) Celso Longoni.
     Em sua decisão, a juíza alegou que o artigo 226 da Constituição diz que a família é um bem da socedade (sic) e que tem proteção especial do estado. A lei se refere ao elacionamento (sic) entre homem e mulher, mas não fala em pessoas do mesmo sexo.”

     Vamos, então, desmascarar essa farsa.
     O email foi divulgado em inúmeros blogs de ilustres desconhecidos, principalmente nos de antipetistas, antilulistas e antidilmistas cheios de ódio no coração. Não sei quem nasceu primeiro: o email ou a “notícia” nos blogs. Nele tem uma foto da suposta doméstica, a tal de Verônica Maldonado. Trata-se de uma moça parda, com aparência de ter, no máximo, 30 anos. Ora, Dilma Rousseff foi para Brasília em 2002 para assumir o Ministério de Minas e Energia. Ao ser abandonada, a doméstica deveria ter, então, seus 22 anos. Se o relacionamento durou 15 anos, Verônica deveria ter sete anos quando o romance começou. Além do lesbianismo denunciado, o caso seria um crime de pedofilia, fato sobre o qual o mentiroso nem se deu conta.
     Outra coisa que denuncia a mentira é o nome do suposto advogado. Ora aparece como Longoni, ora como Langoni. De qualquer maneira, trata-se de um nome inventado, pois não consta advogado com esse nome em nenhuma seccional da OAB.
     Em terceiro lugar, indicaria como prova da falsidade os erros de digitação do autor, que não ocorreriam em uma publicação séria: Lésbica (com maiúscula); presidencia (sem acento); qinze; segudo; Afirma (com maiúscula, no meio da frase); socedade; elacionamento.
     Por fim: em alguns blogs, o título geral fala que a doméstica é mineira. Pois bem, onde teria mantido o suposto romance com Dilma? Em Minas? Ou seria no Rio Grande do Sul, onde a candidata viveu muitos anos antes de ir pra Brasília?
     A única coisa verdadeira é o caso da justiça de Pernambuco que o autor mentiroso usou para ilustrar a fala do inexistente advogado da inexistente doméstica.
     Pior do que o ignorante que inventou a “notícia” são os que a espalham, seja em blogs ou por email. E tem gente do meu catálogo de endereços que acreditou...
     Como disse antes, abomino ignorância e burrice. Se quiserem mentir, façam-no com categoria.
     Fico sem saber se classifico como estelionatário o autor da falsa notícia e como vítimas os que nela acreditaram ou se apenas classifico todos como ignorantes. Como se sabe, estelionato é o ato de obter, para si ou para outrem, vantagem patrimonial ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo em erro alguém mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento. Qual seria a vantagem em inventar uma história como essa da doméstica? Se não há nem vantagem é, então, ignorância.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A coruja já está pelada



     Andei pegando números aqui e ali, tal qual um catador de lixo reciclável. Não que números sejam lixo — apesar de alguns candidatos assim os considerarem —, mas que são recicláveis, ah!, isso são.
     Vamos a eles.
     Arredondando, a população brasileira é composta, hoje, de 192.305.000 habitantes. Destes, 135.804.000 são eleitores (70,6%). Uma projeção do censo do IBGE indica que em cada domicílio brasileiro residem, em média, 3,2 moradores. Pelo índice de eleitores (70,6% da população) dá pra dizer, então, que há 2,2 deles em cada casa. Pois bem, os números dizem, ainda, que 91,5% dos domicílios brasileiros têm aparelhos de TV. Tomando-se a população brasileira e dividindo-a pelo número médio de moradores tem-se que há 60.095.312 domicílios. Destes, pela lógica, 54.987.210 têm aparelho de TV, ou seja, 120.971.863 expectadores estão aptos a votar. Confuso? E pode ficar mais ainda.
     Pesquisas apontam que 41,6% da população maior de 16 anos costumam acessar a internet no País. Considerando que é a partir dos 16 que se está habilitado a votar, assevera-se que 56.494.464 dos eleitores têm acesso à internet, seja em casa, no trabalho ou em lan houses.
     Quanto a jornais, estima-se que circulam 8.193.000 exemplares diariamente. 84% desses leitores têm 16 anos ou mais. Então, 6.882.120 eleitores leem jornais.
     De rádio e seus ouvintes nem vou falar, porque todo mundo tem pelo menos um radinho de pilha.
     É muita coisa? Com certeza. Mas por que toda essa salada de números, porcentagens, deduções e suposições?
     Longe de mim querer ser um estatístico, um sociólogo, um antropólogo, um cientista político. Sou apenas um dos habitantes brasileiros, um dos eleitores brasileiros, um dos expectadores de TV, um dos leitores de jornal, um dos ouvintes de rádio e um dos internautas brasileiros. Sou apenas um observador do comportamento dos humanos, entre os quais incluo os candidatos e os eleitores.
     Todos têm acompanhado o crescimento da candidatura de Dilma Rousseff apontado pelas pesquisas de opinião. Na última delas, do IBOPE, a candidata da coligação “para o Brasil seguir mudando” teria 51% da preferência do eleitorado (63.372.936 eleitores); José Serra, da coligação “O Brasil pode mais“, teria 27% (33.550.378).
     Mas não foi sempre assim. Pouco antes do início oficial da campanha, até logo após, as pesquisas indicavam um empate técnico. A turma do Serra apostava num desempate a seu favor assim que começasse a propaganda eleitoral no rádio e na TV. Não foi o que se viu, apesar do esforço de marqueteiros cada vez mais bem pagos e especializados em campanhas políticas.
     É aí que eu queria chegar ao mostrar aquele monte de números e cálculos do início. Não acredito que a propaganda eleitoral destinada àqueles 120.971.863 expectadores de TV que votam vá definir uma eleição; que não é a campanha política disfarçada em informação que vai influenciar a cabeça dos 6.882.120 eleitores que leem jornais; muito menos daqueles 56.494.464 eleitores que acessam a internet. Mesmo porque acho que pouquíssimos assistem ou ouvem o horário de propaganda eleitoral gratuita. Ainda falando em números, pelo menos oito milhões pagam por uma assinatura de TV. Estes, com certeza, têm mais o que assistir naqueles horários.
     De acordo com Alberto Carlos Almeida, em seu livro A cabeça do eleitor (Rio de Janeiro: Record, 2008), a opinião pública é regida por padrões. Ela não se comporta de maneira aleatória, irregular ou ilógica. E demonstra o que diz com a prática:

  • Em 1994, o governo Itamar Franco estava muito bem avaliado. Foi eleito seu ex-ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.
  • Em 1998, o governo Fernando Henrique Cardoso estava muito bem avaliado. O próprio presidente foi reeleito.
  • Em 2002, o governo Fernando Henrique Cardoso estava mal avaliado. O seu principal opositor, Lula, foi eleito.
  • Em 2006, o governo Lula estava muito bem avaliado. Mais uma vez o presidente em exercício foi reeleito.

     Pelo padrão detectado nas quatro últimas eleições, pode-se projetar claramente 2010: o governo Lula está muitíssimo bem avaliado (77,5%). A candidata indicada por ele, Dilma Rousseff, será eleita.
     E quem avalia um governo? É o próprio eleitor. Ainda segundo Alberto Carlos Almeida, é o eleitor “quem responde aos estímulos dos candidatos conferindo-lhes — ou não — uma identidade clara. [...] A cabeça do eleitor é lógica e não pode ser ludibriada facilmente, nem mesmo pelas mais avançadas técnicas de comunicação e publicidade”.
     Falei no começo que números são recicláveis, ou seja, podem sofrer uma alteração da ciclagem, ou passar por uma repetição operacional objetivando melhorar propriedades ou aumentar o rendimento da operação global. Uma pesquisa pode ser “reciclada”, mas não acredito que recicle a cabeça do eleitor.
     Gostaria de deixar claro que já não ouço e nem assisto ao horário eleitoral gratuito e que também não adianta me mandarem emails falando mal do Lula e da Dilma. Nada mais vai me convencer: esta coruja já está pelada!

domingo, 22 de agosto de 2010

A que ponto chegaram



     O transeunte vem caminhando por uma rua central de Porto Alegre e é interpelado por uma jovem. Ela traz uma planilha na mão e pergunta se o sujeito quer responder a uma pesquisa eleitoral. Depois de algumas perguntas básicas, como nome, idade, escolaridade etc., vem uma estimulada sobre a preferência do eleitor quanto à Presidência da República. O cidadão responde, então, que tem intenção votar em Dilma. Com cara de lamento, a suposta entrevistadora — que se nega a dizer para qual instituto de pesquisa trabalha — pergunta se o cidadão não quer dar seu voto para o Serra.
     Ato contínuo, a jovem pergunta se o eleitor quer ganhar um brinde. Ele concorda e a entrevistadora leva-o a um prédio nas proximidades. Lá, o cidadão assiste a seis vídeos, respondendo algumas perguntas ao final de cada um. Alguns deles mostram aspectos negativos da vida da candidata Dilma Rousseff; outros, mostram pessoas comuns falando bem do candidato José Serra.
     Depois que o eleitor assiste aos vídeos, a jovem entrevistadora pergunta: “— O que achou? Te dá mais ou menos vontade de votar na Dilma? E no Serra?” Na saída, o sujeito ganha o brinde — uma caixa de bombons — e lhe dão a recomendação de que deveria refletir bem e considerar a hipótese de votar no candidato do PSDB.
     De acordo com a pessoa que fez a denúncia ao Ministério Público Eleitoral, a entrevistadora confessou, na saída, que muita gente “entra lá disposta a votar na Dilma e sai pensando que o Serra é um herói.”
     Não estou inventando esse fato. Está no jornal (Correio do Povo, 21/08/2010, p. 2). Tanto é verdade que o MPE e a Polícia Federal já realizaram a apreensão dos computadores onde estavam armazenados os vídeos mostrados aos eleitores, formulários da “pesquisa”, notas fiscais e caixas de bombons.
     O representante do MPE, promotor Ricardo Herbstrith diz que “essa é uma questão que, se comprovado o ato de induzir o voto, caracteriza crime eleitoral”.
     A que ponto chegaram!
     Custo a crer, entretanto, que uma atitude dessas seja do conhecimento do candidato beneficiado, muito menos que seja de responsabilidade do partido ao qual pertence. Não quero acreditar nisso. Prefiro pensar que se trata de comportamento de fanáticos — um grupo formado por pessoas mais realistas do que o rei — com ligação meramente ideológica ao que julgam representar a eleição da candidata adversária.
     Não creio nisso, assim como não acreditei no suposto dossiê contra José Serra, que teria “vazado” no início da campanha eleitoral deste ano.
     Pesquisa eleitoral do instituto Datafolha divulgada hoje dá conta de que Dilma estaria com 47% das intenções de voto, contra 30% de José Serra. A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
     A pesquisa reflete a intenção de voto dos eleitores brasileiros. Não foram divulgados dados por região ou Estado. Sabe-se, contudo, que, segundo pesquisas anteriores, os gaúchos preferem o candidato Serra. Portanto, a atitude de quem supostamente está tentando aliciar eleitores para o candidato tucano em Porto Alegre, além de criminosa, é ignorante.
     A que ponto chegaram!

Furnarius rufus



     Dia desses, na verdade há alguns meses, percebi que começava a construção de uma casa, bem na frente do prédio onde moro, na esquina. O espaço, ali, é minúsculo, mas habitar é preciso.
     Pensei em fotografar a construção todos os dias, na mesma hora, pra ver a evolução ao final. Mas não deu. Saio muito cedo pra trabalhar, faço tudo na correria. Se ainda tivesse que acrescentar mais essa tarefa ao cotidiano, teria que acordar antes das seis da manhã. De mais a mais, em alguns dias chovia e, além disso, àquela hora, o sol nasce bem atrás da construção, o que iria atrapalhar as fotos. Nem cogitei de fazer em outro horário.
     Não fotografei, mas observei a evolução da obra. Era um casal de operários. Imaginei que ele deveria ser um habilidoso pedreiro e tenha ensinado à parceira as artes do ofício.
     Na frente não havia qualquer placa dizendo que o projeto arquitetônico era de fulano de tal; que o engenheiro responsável era beltrano de tal; que a inscrição do INSS era número x ou que a obra estava sob fiscalização do CREA. Normal. Quase todas as novas moradias desse bairro esquecido pelo poder público não têm placa alguma. Os puxadinhos das velhas habitações também não. Placa na frente só se vê depois da obra concluída: VENDE-SE.
     Os meus novos vizinhos tocavam a obra sem mostrar preocupação com a aparência do bairro. Nem ligavam para aquela camada esburacada de asfalto que um dia foi derramado sobre o calçamento por algum prefeito que pretendia a reeleição. Não sei se foi reeleito. De qualquer maneira, permaneceram ali os buracos irregulares deixando à mostra os paralelepípedos irregulares. Aliás, candidatos por aqui só aparecem em época de eleição e, mesmo assim, não pessoalmente, mas sim com seus jingles sendo tocados a todo volume em carros de som, justamente na hora em que se quer sestear.
     Os novos vizinhos nem estavam aí para grande parte dos moradores do bairro que deixam lixo, caixas de eletrodomésticos, pedaços de isopor e restos de construções nas calçadas, na frente de suas casas; que esse lixo é levado pela chuva e cai nas bocas de lobo, entupindo-as; não queriam nem saber da vegetação que cresce impiedosamente nos meios-fios e que, de muito em muito tempo, é cortada pela prefeitura; não se importavam com a grande quantidade de cães vadios que passam pra cima e pra baixo, provocando latidos ensurdecedores dos que estão atrás dos portões das casas ou nas sacadas dos edifícios; nem com as árvores condenadas por podas mal feitas só para permitir que entre seus ramos passem os fios de energia elétrica e comunicação. Dia-a-dia tocavam o barco, ou melhor, a obra que lhes serviria de domicílio.
     Só ontem, meses depois de a casa estar pronta, procurei saber quem eram, afinal, terei que conviver com eles, pelo menos quando estiver na sacada da sala ou na área de serviço. Descobri que são da família Furnariidae, e que se chamam Furnarius rufus. Intimamente, contudo, preferem ser chamados de joão-de-barro e joaninha-de-barro. É isso mesmo: são aves Passeriformes. Descobri que se alimentam revirando as folhas, buscando insetos no solo. Alimentam-se também de outros invertebrados, como minhocas, e de restos alimentares humanos, como pedaços de pão.
     O Furnarius rufus, ou melhor, o joão-de-barro, constrói seu ninho de barro em forma de forno, misturando palha e esterco seco com barro úmido. Instala seu ninho sobre árvores, postes de eletricidade o peitoris de janelas. No caso desses meus vizinhos, construíram o ninho num poste. Soube que não utilizam o mesmo ninho por duas estações seguidas, fazendo um rodízio entre dois ou três ninhos, reparando ninhos velhos semidestruídos. Quando não há mais espaço para a construção de novos ninhos, o pássaro o constrói em cima ou ao lado do velho.
     Diariamente, a partir de seis ou sete da manhã, o casal solta a voz extremamente estridente e canta em dueto, ao lado da nova casa. O ninho é uma bola de barro, dividida em dois compartimentos. A porta, que permite ao pássaro entrar sem se abaixar, impede que o vento atinja o interior, pois é sempre voltada para o norte. No compartimento maior, forrado com musgo, cabelos e penas, a fêmea deposita de 3 a 4 ovos brancos, três vezes ao ano. Ao que me consta, a minha vizinha ainda não pôs ovos. Parece que fará isso no mês que vem. Estou ansioso.
     Existe um mito de que a Joaninha pula a cerca. Inconformado porque a esposa mudou de amor, João tampa a abertura da casa, fechando-a para sempre. Descobri que mesmo pessoas experientes afirmam isto com a maior convicção. É mentira! A Joaninha não trai o João e este não comete um assassinato passional.
     De acordo com o Portal São Francisco, este mito pode ter surgido do fato de que alguns ninhos abandonados do joão-de-barro são aproveitados por abelhas, que fecham a entrada do ninho com uma cera, dando a impressão de ter sido fechado pela ave.
     Outra possível explicação é de Guillermo Enrique Hudson (ornitólogo argentino), em uma obra de 1920, que cita um interessante episódio ocorrido em Buenos Aires. Uma das aves (não foi possível saber se o macho ou a fêmea, pelo fato de serem muito parecidos) foi acidentalmente pega em uma ratoeira que lhe quebrou ambos os pés. Após liberada com muita consternação por quem havia armado a ratoeira, voou para o ninho onde entrou e não foi mais vista, certamente morrendo. O outro membro do casal permaneceu por ali mais dois dias, chamando insistentemente pelo parceiro. Em seguida, desapareceu, retornando três dias após com um novo parceiro. Imediatamente começaram a carregar barro para o ninho, fechando a sua entrada. Depois, construíram outro ninho sobre o primeiro, e ali procriaram. Hudson viu este fato como mais uma “qualidade” do joão-de-barro, por ter tido o cuidado de sepultar sua parceira.
     Aliás, por falar em ornitólogo argentino, o joão-de-barro é a ave símbolo da Argentina, onde é conhecido como hornero. Não sei por que, já que o pássaro é tido como trabalhador e inteligente... (brincadeira).
     No livro Moça Lua e outras lendas, Walmir Ayala, relata o seguinte:

     Contam os índios que, há muito tempo, numa tribo do sul do Brasil, um jovem se apaixonou por uma moça de grande beleza. Melhor dizendo: apaixonaram-se. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou:
     — Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
     — As provas do meu amor! — respondeu o jovem.
     O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
     — O último pretendente de minha filha falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
     — Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
     Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova.
     Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
     — Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
     O velho respondeu:
     — Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
     E esperou até a última hora do novo dia. Então ordenou:
     — Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
     Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seu olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Todos se espantaram. E ficaram mais espantados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro!
     E exatamente naquele momento, os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceu para sempre
     Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro.
     A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque se lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Digressões


     Acho que perdi uma leitora. E já eram poucos antes dessa defecção. Note, leitor que se mantém fiel, ali onde diz “Seguidores” há oito inscritos. Isto, contudo, não quer dizer que esses oito sejam meus leitores. Talvez, cada um a seu tempo, tenha lido alguma vez e resolveu inscrever-se como seguidor. Depois, nunca mais. Mas também não quer dizer que só aqueles oito costumam ler minhas postagens. Prova disso é que recebo, muito de vez em quando, comentários de anônimos sobre postagens antigas. Claro, o cara coloca o assunto que quer pesquisar no Google e, como o Blogger é da mesma empresa, apresenta seus resultados na primeira página da busca. E lá estou eu, ou melhor, lá está o meu texto sobre o assunto que o cara pesquisou. Ainda bem que comentam, caso contrário nem ficaria sabendo que alguém leu.
     Voltemos a minha leitora que já não lê minhas coisas. Quando escrevi a última postagem de maio, sobre os impostos, desconfiei que ela não leu. Talvez ela seja (ou era) a minha mais importante e influente leitora. Por isso parei de escrever e só voltei agora, em agosto, pouco mais de dois meses depois. Aliás, um parêntese, ou melhor, dois, um para abrir e outro para fechar: naquela hora que escrevi a postagem de maio, a arrecadação de impostos no Brasil estava em R$ 482.427.109.491,56. Sabe em quanto está neste exato momento, às 10h06min34s de 16 de agosto?

R$ 766.917.080.328,40!

     Voltemos, então, a minha leitora que já não lê minhas coisas. Acho que ela não gosta muito do meu estilo. Comecei falando na leitora que já não lê minhas coisas e digressionei, falando sobre impostos. É que quando fiz o primeiro vestibular ainda não tinha redação. Era 1972 e eu tentei Odontologia. Não obtive êxito. Mas não desisti. No ano seguinte, fiz vestibular pra Arquitetura. Também não deu. Naquele tempo, o ensino médio era dividido em Clássico e Científico. Para o Clássico iam aqueles que pretendiam alguma carreira na área das ciências humanas; para o científico, os demais. Eu fui para os demais, ou seja, para o Científico, inclusive porque sabia que não sabia, entre outras coisas, escrever, não era chegado às coisas da gramática e da última flor do Lácio, inculta e bela. Então, pensei em seguir profissões que exigiam coisas das exatas: biologia, química, física, matemática. Não me dei por vencido. Contrariando o meu próprio princípio, em 1975, ingressei na Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUC pra tentar ser, pasme, jornalista! Nada a ver com Científico, Odontologia e Arquitetura. Eram outros tempos e nem precisei fazer redação pra ser jornalista. Enfim...
     Depois de mais essa digressão, voltemos a minha leitora que já não lê minhas coisas. Talvez não seja por causa do meu estilo, que ficou capenga porque não optei pelo Clássico no ensino médio. Acho que ela se ocupa muito em ler, responder e encaminhar os cerca de 327 emails que recebe diariamente; com os 89 scraps que deve responder no Orkut; em jogar o Mah Jongg, no qual tenta insistentemente entrar no Hall of Fame. A propósito, por falar em emails, como a gente recebe entulhos. Tem pessoas entre nossos contatos cujo senso não é muito bom, que acham lindas todas as bobagens que recebem e entendem que têm que encaminhá-las pra todos os destinatários que estão nos seus catálogos. Como geralmente são pessoas do mesmo grupo, chega-se a receber três vezes a mesma coisa durante uma semana. E quase nada é aproveitável, principalmente os esculachos contra o Lula e a Dilma. Estranho é que, no meu caso, não recebo esculachos contra o Serra, por exemplo... Será que nem isso ele merece? E aquelas mensagens de autoajuda, aquelas com exemplos de vida? Bah!
     Bem, deixemos de digressionar e voltemos a minha leitora que já não lê meus textos. Eu insisto em chamá-la de “minha leitora que já não lê meus textos”. Ora, se já não lê meus textos, não posso considerá-la minha leitora. Agora tenho certeza: ela já não tem paciência com meu jeito de escrever. Começo falando de uma coisa e pego outra rota. Ainda vão inventar um GPS literário que avisa, com uma voz feminina sensual, tipo voz de aeroporto, quando o redator perde o fio da meada: — Volte atrás uma frase e repense seu texto. Você mudou de assunto! Mantenha a coerência. Pra mim seria ótimo.
     Quanto à leitora, finalmente prometo confessar: como sei que já não lê meus textos? Simples: é que, antes do tempo que dedica aos emails, Orkut e Mah Jongg, cumpre tarefas importantes como cuidar da casa, dos animais de estimação, das compras, do almoço, da janta, das contas a pagar, de levar a mãe a médicos... E, é claro, o principal: cuida de mim, deita todas as noites comigo e acorda todas as manhãs ao meu lado. Ela tem meu perdão. Seria querer demais que, além de tudo que faz, ainda descolasse um tempinho pra ler minhas digressões. Ela não precisa ser minha leitora. Quero apenas que continue sendo minha mulher, sem desvio de rumo ou de assunto, pro resto da vida!
     Hoje ela está de aniversário.
     Mesmo que não leias esta postagem, te deixo aqui um beijo e um abraço. Parabéns, meu amor!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O velho do saco e a bomba nuclear



     Quando eu era pequeno, ou melhor, quando meus pais eram pequenos, melhor ainda, desde quando os pais dos meus pais eram pequenos, os pais, avós e tios dessas gerações tentavam domar crianças bagunceiras, desobedientes e rebeldes com uma lenda urbana: o velho do saco. Diziam que, se a criança não se comportasse, não fizesse os temas, dissesse palavrão, se negasse a tomar banho ou só quisesse saber de rua seria entregue ou apanhada pelo velho do saco. O sujeito em questão era um velho mal vestido e sujo, com um saco enorme às costas, onde colocava as crianças com as características já citadas. Ou a criança seria entregue ao velho quando passasse, ou o próprio se encarregaria de pegá-la, quando ela estivesse na rua em vez de estar comportada em casa fazendo o tema da escola.
     Mas o que o velho fazia com as crianças que carregava no saco? Diz a lenda que fazia sabão com elas, assim como se diz que é o que é feito com cachorros de rua, sem dono, que são apanhados pela carrocinha.
     Não se sabe quando exatamente começou essa história. Estima-se que começou a ser contada logo após a chegada dos primeiros ciganos no Brasil, no final do século XIX. Os ciganos, nômades originários do norte da Índia, espalharam-se pelo mundo e, em todos os lugares onde tentaram se estabelecer, eram considerados vadios, ladrões e raptores. Há, inclusive, uma versão alternativa em que, em vez do velho do saco, era um cigano que pegava as crianças (provavelmente pra transformar em tachos e utensílios de cobre).
     Eu nunca fui ameaçado com o velho do saco. Não que eu fosse um anjo, mas acho que meus pais sabiam que eu não era idiota e, em vez do velho do saco, me aplicavam castigos como não sair do quarto, não ganhar determinado presente, etc. Tinha colegas, no entanto, que se borravam de medo de o velho aparecer de repente na pracinha. Mas não deixavam de correr atrás da bola. Imagino que os pais dos Ronaldinhos e Robinhos nunca os assustaram com essa história...
     De outra parte, na sexta-feira (06 de agosto), fez 65 nos que os Estados Unidos lançaram sua primeira bomba nuclear sobre a cidade de Hiroshima, destruindo-a por inteiro. Três dias depois, repetiriam o horrendo feito sobre Nagasaki. Calcula-se que 70 mil pessoas morreram na hora ou poucas horas depois das explosões. Outras 130 mil morreram nos 5 anos subsequentes, em função de ferimentos e doenças causadas pela exposição à radiação. A verdade é que nunca se saberá ao certo quantas centenas de milhares de vidas foram tomadas ou afetadas para sempre com apenas duas explosões.
     Todo mundo sabe que essa história não é uma lenda. Ela começou em 2 de agosto de 1939. Albert Einstein (um dos cientistas mais respeitados na época), atendendo a pedidos de outros cientistas, escreveu uma carta ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt. Na carta, Einstein dizia que os EUA deveriam priorizar o desenvolvimento de uma bomba baseada em energia nuclear antes que os alemães o fizessem. Nascia, assim, o Manhattan Project, com o propósito de desenvolver a bomba atômica. Seis anos depois, em 16 de julho de 1945, no estado de New Mexico, a primeira bomba nuclear foi detonada como teste. Os próprios soldados americanos foram utilizados como cobaias para os efeitos da radiação. O então presidente Harry Truman, querendo forçar o Japão a sair da guerra, ordenou que fossem lançadas as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki. Obteve a rendição do governo japonês e o consequente fim da 2ª Guerra Mundial.

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     A bomba nuclear passou a ser, desde então, o velho do saco da humanidade. A 3ª Guerra Mundial propriamente dita nunca passou de uma Guerra Fria pelo medo de que um dos lados lançasse bombas nucleares sobre o outro e vice-versa. Os “pais” da humanidade passaram anos ameaçando-se sub-reptícia e mutuamente.
     A guerra fria, contudo, ainda não terminou. Os “pais”, agora, temem de que os “filhos” construam um velho do saco, digo, a bomba nuclear e “irresponsáveis, desobedientes, bagunceiros e rebeldes” como são, explodam-nas na cara dos “pais”

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      O velho do saco e a bomba nuclear. Uma lenda e uma verdade politicamente incorretas que trazem consequências psicológicas assustadoras.