Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







sábado, 25 de setembro de 2010

Estelionato ou ignorância





     Tem um tipo de desonesto que eu admiro, desde que eu não seja a vítima da vez. Não! Não estou falando de certos políticos. Desses, todos somos vítimas. Falo daqueles que praticam o ato de obter, para si ou para outrem, vantagem patrimonial ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo em erro alguém mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento. Sim, falo dos estelionatários.
     Admiro-os por sua inteligência, sua lábia, sua capacidade de convencer as vítimas. Deixo de admirá-los, no entanto, quando são pegos, pois, então, por absoluta ganância, deixaram de ser inteligentes.
     Em compensação, tem um tipo de mentiroso que abomino: o ignorante.
     Vi na TV um caso ocorrido na Bahia. Um PM (ou ex-PM, não me lembro) tentou comprar um aparelho celular com uma identidade falsa. A vendedora desconfiou do documento porque dizia que o sujeito era “Técnico em engenharia e extrutura”. Realmente, o ignorante não se extruturou para praticar o golpe.
     Usei todo esse “nariz-de-cera” para falar de um email que anda invadindo nossas caixas de entrada e que, sem sombra de dúvida, é uma mentira deslavada e de perna muito curta.
     Trata-se de uma “notícia” segundo a qual a candidata à presidência, Dilma Rousseff, teria mantido um romance com uma doméstica antes de se instalar em Brasília. Vou reproduzir aqui o email para que vocês tirem suas conclusões sobre a veracidade da informação.
     Diz o texto:

“Dilma Rousseff é Lésbica (sic), mas nunca quis assumir nosso romance publicamente.

     A declaração é de Verônica Maldonado, uma doméstica que afirma ter tido um longo romance com a atual candidata à presidencia (sic) da república, Dilma Rousseff.
     ‘Nos relacionamos durante mais de quinze anos, mas quando surgiu essa oportunidade em Brasília, ela nunca mais quis saber de mim.’
     Verônica afirma possuir fotos, cartas e outros documentos que comprovam a relação duradoura e pretende pleitear na justiça o direito à (sic) uma pensão mensal.
     ‘Afinal nós tivemos um relacionamento durante mais de qinze (sic) anos, período em que deixei de trabalhar, estudar, apenas para ficar com ela. Acho que tenho direitos como qualquer outra mulher!’
     Segudo (sic) o advogado de Verônica, Dr Celso Langoni Filho, a possibilidade de ganho de causa é concreta, uma vez que sua cliente é capaz de comprovar a existência de uma relação estável e duradoura. Ele cita o caso da Justiça de Pernambuco, que tomou uma decisão inédita este mês ao reconhecer a união estável de duas lésbicas para fins de pagamento de pensão.
     ‘A decisão da juíza Paula Maria Malta, da 11ª vara da família e registro civil da capital pode abrir jurisprudência para que outros juízes sigam o parecer’ Afirma (sic) Celso Longoni.
     Em sua decisão, a juíza alegou que o artigo 226 da Constituição diz que a família é um bem da socedade (sic) e que tem proteção especial do estado. A lei se refere ao elacionamento (sic) entre homem e mulher, mas não fala em pessoas do mesmo sexo.”

     Vamos, então, desmascarar essa farsa.
     O email foi divulgado em inúmeros blogs de ilustres desconhecidos, principalmente nos de antipetistas, antilulistas e antidilmistas cheios de ódio no coração. Não sei quem nasceu primeiro: o email ou a “notícia” nos blogs. Nele tem uma foto da suposta doméstica, a tal de Verônica Maldonado. Trata-se de uma moça parda, com aparência de ter, no máximo, 30 anos. Ora, Dilma Rousseff foi para Brasília em 2002 para assumir o Ministério de Minas e Energia. Ao ser abandonada, a doméstica deveria ter, então, seus 22 anos. Se o relacionamento durou 15 anos, Verônica deveria ter sete anos quando o romance começou. Além do lesbianismo denunciado, o caso seria um crime de pedofilia, fato sobre o qual o mentiroso nem se deu conta.
     Outra coisa que denuncia a mentira é o nome do suposto advogado. Ora aparece como Longoni, ora como Langoni. De qualquer maneira, trata-se de um nome inventado, pois não consta advogado com esse nome em nenhuma seccional da OAB.
     Em terceiro lugar, indicaria como prova da falsidade os erros de digitação do autor, que não ocorreriam em uma publicação séria: Lésbica (com maiúscula); presidencia (sem acento); qinze; segudo; Afirma (com maiúscula, no meio da frase); socedade; elacionamento.
     Por fim: em alguns blogs, o título geral fala que a doméstica é mineira. Pois bem, onde teria mantido o suposto romance com Dilma? Em Minas? Ou seria no Rio Grande do Sul, onde a candidata viveu muitos anos antes de ir pra Brasília?
     A única coisa verdadeira é o caso da justiça de Pernambuco que o autor mentiroso usou para ilustrar a fala do inexistente advogado da inexistente doméstica.
     Pior do que o ignorante que inventou a “notícia” são os que a espalham, seja em blogs ou por email. E tem gente do meu catálogo de endereços que acreditou...
     Como disse antes, abomino ignorância e burrice. Se quiserem mentir, façam-no com categoria.
     Fico sem saber se classifico como estelionatário o autor da falsa notícia e como vítimas os que nela acreditaram ou se apenas classifico todos como ignorantes. Como se sabe, estelionato é o ato de obter, para si ou para outrem, vantagem patrimonial ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo em erro alguém mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento. Qual seria a vantagem em inventar uma história como essa da doméstica? Se não há nem vantagem é, então, ignorância.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A coruja já está pelada



     Andei pegando números aqui e ali, tal qual um catador de lixo reciclável. Não que números sejam lixo — apesar de alguns candidatos assim os considerarem —, mas que são recicláveis, ah!, isso são.
     Vamos a eles.
     Arredondando, a população brasileira é composta, hoje, de 192.305.000 habitantes. Destes, 135.804.000 são eleitores (70,6%). Uma projeção do censo do IBGE indica que em cada domicílio brasileiro residem, em média, 3,2 moradores. Pelo índice de eleitores (70,6% da população) dá pra dizer, então, que há 2,2 deles em cada casa. Pois bem, os números dizem, ainda, que 91,5% dos domicílios brasileiros têm aparelhos de TV. Tomando-se a população brasileira e dividindo-a pelo número médio de moradores tem-se que há 60.095.312 domicílios. Destes, pela lógica, 54.987.210 têm aparelho de TV, ou seja, 120.971.863 expectadores estão aptos a votar. Confuso? E pode ficar mais ainda.
     Pesquisas apontam que 41,6% da população maior de 16 anos costumam acessar a internet no País. Considerando que é a partir dos 16 que se está habilitado a votar, assevera-se que 56.494.464 dos eleitores têm acesso à internet, seja em casa, no trabalho ou em lan houses.
     Quanto a jornais, estima-se que circulam 8.193.000 exemplares diariamente. 84% desses leitores têm 16 anos ou mais. Então, 6.882.120 eleitores leem jornais.
     De rádio e seus ouvintes nem vou falar, porque todo mundo tem pelo menos um radinho de pilha.
     É muita coisa? Com certeza. Mas por que toda essa salada de números, porcentagens, deduções e suposições?
     Longe de mim querer ser um estatístico, um sociólogo, um antropólogo, um cientista político. Sou apenas um dos habitantes brasileiros, um dos eleitores brasileiros, um dos expectadores de TV, um dos leitores de jornal, um dos ouvintes de rádio e um dos internautas brasileiros. Sou apenas um observador do comportamento dos humanos, entre os quais incluo os candidatos e os eleitores.
     Todos têm acompanhado o crescimento da candidatura de Dilma Rousseff apontado pelas pesquisas de opinião. Na última delas, do IBOPE, a candidata da coligação “para o Brasil seguir mudando” teria 51% da preferência do eleitorado (63.372.936 eleitores); José Serra, da coligação “O Brasil pode mais“, teria 27% (33.550.378).
     Mas não foi sempre assim. Pouco antes do início oficial da campanha, até logo após, as pesquisas indicavam um empate técnico. A turma do Serra apostava num desempate a seu favor assim que começasse a propaganda eleitoral no rádio e na TV. Não foi o que se viu, apesar do esforço de marqueteiros cada vez mais bem pagos e especializados em campanhas políticas.
     É aí que eu queria chegar ao mostrar aquele monte de números e cálculos do início. Não acredito que a propaganda eleitoral destinada àqueles 120.971.863 expectadores de TV que votam vá definir uma eleição; que não é a campanha política disfarçada em informação que vai influenciar a cabeça dos 6.882.120 eleitores que leem jornais; muito menos daqueles 56.494.464 eleitores que acessam a internet. Mesmo porque acho que pouquíssimos assistem ou ouvem o horário de propaganda eleitoral gratuita. Ainda falando em números, pelo menos oito milhões pagam por uma assinatura de TV. Estes, com certeza, têm mais o que assistir naqueles horários.
     De acordo com Alberto Carlos Almeida, em seu livro A cabeça do eleitor (Rio de Janeiro: Record, 2008), a opinião pública é regida por padrões. Ela não se comporta de maneira aleatória, irregular ou ilógica. E demonstra o que diz com a prática:

  • Em 1994, o governo Itamar Franco estava muito bem avaliado. Foi eleito seu ex-ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.
  • Em 1998, o governo Fernando Henrique Cardoso estava muito bem avaliado. O próprio presidente foi reeleito.
  • Em 2002, o governo Fernando Henrique Cardoso estava mal avaliado. O seu principal opositor, Lula, foi eleito.
  • Em 2006, o governo Lula estava muito bem avaliado. Mais uma vez o presidente em exercício foi reeleito.

     Pelo padrão detectado nas quatro últimas eleições, pode-se projetar claramente 2010: o governo Lula está muitíssimo bem avaliado (77,5%). A candidata indicada por ele, Dilma Rousseff, será eleita.
     E quem avalia um governo? É o próprio eleitor. Ainda segundo Alberto Carlos Almeida, é o eleitor “quem responde aos estímulos dos candidatos conferindo-lhes — ou não — uma identidade clara. [...] A cabeça do eleitor é lógica e não pode ser ludibriada facilmente, nem mesmo pelas mais avançadas técnicas de comunicação e publicidade”.
     Falei no começo que números são recicláveis, ou seja, podem sofrer uma alteração da ciclagem, ou passar por uma repetição operacional objetivando melhorar propriedades ou aumentar o rendimento da operação global. Uma pesquisa pode ser “reciclada”, mas não acredito que recicle a cabeça do eleitor.
     Gostaria de deixar claro que já não ouço e nem assisto ao horário eleitoral gratuito e que também não adianta me mandarem emails falando mal do Lula e da Dilma. Nada mais vai me convencer: esta coruja já está pelada!

domingo, 22 de agosto de 2010

A que ponto chegaram



     O transeunte vem caminhando por uma rua central de Porto Alegre e é interpelado por uma jovem. Ela traz uma planilha na mão e pergunta se o sujeito quer responder a uma pesquisa eleitoral. Depois de algumas perguntas básicas, como nome, idade, escolaridade etc., vem uma estimulada sobre a preferência do eleitor quanto à Presidência da República. O cidadão responde, então, que tem intenção votar em Dilma. Com cara de lamento, a suposta entrevistadora — que se nega a dizer para qual instituto de pesquisa trabalha — pergunta se o cidadão não quer dar seu voto para o Serra.
     Ato contínuo, a jovem pergunta se o eleitor quer ganhar um brinde. Ele concorda e a entrevistadora leva-o a um prédio nas proximidades. Lá, o cidadão assiste a seis vídeos, respondendo algumas perguntas ao final de cada um. Alguns deles mostram aspectos negativos da vida da candidata Dilma Rousseff; outros, mostram pessoas comuns falando bem do candidato José Serra.
     Depois que o eleitor assiste aos vídeos, a jovem entrevistadora pergunta: “— O que achou? Te dá mais ou menos vontade de votar na Dilma? E no Serra?” Na saída, o sujeito ganha o brinde — uma caixa de bombons — e lhe dão a recomendação de que deveria refletir bem e considerar a hipótese de votar no candidato do PSDB.
     De acordo com a pessoa que fez a denúncia ao Ministério Público Eleitoral, a entrevistadora confessou, na saída, que muita gente “entra lá disposta a votar na Dilma e sai pensando que o Serra é um herói.”
     Não estou inventando esse fato. Está no jornal (Correio do Povo, 21/08/2010, p. 2). Tanto é verdade que o MPE e a Polícia Federal já realizaram a apreensão dos computadores onde estavam armazenados os vídeos mostrados aos eleitores, formulários da “pesquisa”, notas fiscais e caixas de bombons.
     O representante do MPE, promotor Ricardo Herbstrith diz que “essa é uma questão que, se comprovado o ato de induzir o voto, caracteriza crime eleitoral”.
     A que ponto chegaram!
     Custo a crer, entretanto, que uma atitude dessas seja do conhecimento do candidato beneficiado, muito menos que seja de responsabilidade do partido ao qual pertence. Não quero acreditar nisso. Prefiro pensar que se trata de comportamento de fanáticos — um grupo formado por pessoas mais realistas do que o rei — com ligação meramente ideológica ao que julgam representar a eleição da candidata adversária.
     Não creio nisso, assim como não acreditei no suposto dossiê contra José Serra, que teria “vazado” no início da campanha eleitoral deste ano.
     Pesquisa eleitoral do instituto Datafolha divulgada hoje dá conta de que Dilma estaria com 47% das intenções de voto, contra 30% de José Serra. A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
     A pesquisa reflete a intenção de voto dos eleitores brasileiros. Não foram divulgados dados por região ou Estado. Sabe-se, contudo, que, segundo pesquisas anteriores, os gaúchos preferem o candidato Serra. Portanto, a atitude de quem supostamente está tentando aliciar eleitores para o candidato tucano em Porto Alegre, além de criminosa, é ignorante.
     A que ponto chegaram!

Furnarius rufus



     Dia desses, na verdade há alguns meses, percebi que começava a construção de uma casa, bem na frente do prédio onde moro, na esquina. O espaço, ali, é minúsculo, mas habitar é preciso.
     Pensei em fotografar a construção todos os dias, na mesma hora, pra ver a evolução ao final. Mas não deu. Saio muito cedo pra trabalhar, faço tudo na correria. Se ainda tivesse que acrescentar mais essa tarefa ao cotidiano, teria que acordar antes das seis da manhã. De mais a mais, em alguns dias chovia e, além disso, àquela hora, o sol nasce bem atrás da construção, o que iria atrapalhar as fotos. Nem cogitei de fazer em outro horário.
     Não fotografei, mas observei a evolução da obra. Era um casal de operários. Imaginei que ele deveria ser um habilidoso pedreiro e tenha ensinado à parceira as artes do ofício.
     Na frente não havia qualquer placa dizendo que o projeto arquitetônico era de fulano de tal; que o engenheiro responsável era beltrano de tal; que a inscrição do INSS era número x ou que a obra estava sob fiscalização do CREA. Normal. Quase todas as novas moradias desse bairro esquecido pelo poder público não têm placa alguma. Os puxadinhos das velhas habitações também não. Placa na frente só se vê depois da obra concluída: VENDE-SE.
     Os meus novos vizinhos tocavam a obra sem mostrar preocupação com a aparência do bairro. Nem ligavam para aquela camada esburacada de asfalto que um dia foi derramado sobre o calçamento por algum prefeito que pretendia a reeleição. Não sei se foi reeleito. De qualquer maneira, permaneceram ali os buracos irregulares deixando à mostra os paralelepípedos irregulares. Aliás, candidatos por aqui só aparecem em época de eleição e, mesmo assim, não pessoalmente, mas sim com seus jingles sendo tocados a todo volume em carros de som, justamente na hora em que se quer sestear.
     Os novos vizinhos nem estavam aí para grande parte dos moradores do bairro que deixam lixo, caixas de eletrodomésticos, pedaços de isopor e restos de construções nas calçadas, na frente de suas casas; que esse lixo é levado pela chuva e cai nas bocas de lobo, entupindo-as; não queriam nem saber da vegetação que cresce impiedosamente nos meios-fios e que, de muito em muito tempo, é cortada pela prefeitura; não se importavam com a grande quantidade de cães vadios que passam pra cima e pra baixo, provocando latidos ensurdecedores dos que estão atrás dos portões das casas ou nas sacadas dos edifícios; nem com as árvores condenadas por podas mal feitas só para permitir que entre seus ramos passem os fios de energia elétrica e comunicação. Dia-a-dia tocavam o barco, ou melhor, a obra que lhes serviria de domicílio.
     Só ontem, meses depois de a casa estar pronta, procurei saber quem eram, afinal, terei que conviver com eles, pelo menos quando estiver na sacada da sala ou na área de serviço. Descobri que são da família Furnariidae, e que se chamam Furnarius rufus. Intimamente, contudo, preferem ser chamados de joão-de-barro e joaninha-de-barro. É isso mesmo: são aves Passeriformes. Descobri que se alimentam revirando as folhas, buscando insetos no solo. Alimentam-se também de outros invertebrados, como minhocas, e de restos alimentares humanos, como pedaços de pão.
     O Furnarius rufus, ou melhor, o joão-de-barro, constrói seu ninho de barro em forma de forno, misturando palha e esterco seco com barro úmido. Instala seu ninho sobre árvores, postes de eletricidade o peitoris de janelas. No caso desses meus vizinhos, construíram o ninho num poste. Soube que não utilizam o mesmo ninho por duas estações seguidas, fazendo um rodízio entre dois ou três ninhos, reparando ninhos velhos semidestruídos. Quando não há mais espaço para a construção de novos ninhos, o pássaro o constrói em cima ou ao lado do velho.
     Diariamente, a partir de seis ou sete da manhã, o casal solta a voz extremamente estridente e canta em dueto, ao lado da nova casa. O ninho é uma bola de barro, dividida em dois compartimentos. A porta, que permite ao pássaro entrar sem se abaixar, impede que o vento atinja o interior, pois é sempre voltada para o norte. No compartimento maior, forrado com musgo, cabelos e penas, a fêmea deposita de 3 a 4 ovos brancos, três vezes ao ano. Ao que me consta, a minha vizinha ainda não pôs ovos. Parece que fará isso no mês que vem. Estou ansioso.
     Existe um mito de que a Joaninha pula a cerca. Inconformado porque a esposa mudou de amor, João tampa a abertura da casa, fechando-a para sempre. Descobri que mesmo pessoas experientes afirmam isto com a maior convicção. É mentira! A Joaninha não trai o João e este não comete um assassinato passional.
     De acordo com o Portal São Francisco, este mito pode ter surgido do fato de que alguns ninhos abandonados do joão-de-barro são aproveitados por abelhas, que fecham a entrada do ninho com uma cera, dando a impressão de ter sido fechado pela ave.
     Outra possível explicação é de Guillermo Enrique Hudson (ornitólogo argentino), em uma obra de 1920, que cita um interessante episódio ocorrido em Buenos Aires. Uma das aves (não foi possível saber se o macho ou a fêmea, pelo fato de serem muito parecidos) foi acidentalmente pega em uma ratoeira que lhe quebrou ambos os pés. Após liberada com muita consternação por quem havia armado a ratoeira, voou para o ninho onde entrou e não foi mais vista, certamente morrendo. O outro membro do casal permaneceu por ali mais dois dias, chamando insistentemente pelo parceiro. Em seguida, desapareceu, retornando três dias após com um novo parceiro. Imediatamente começaram a carregar barro para o ninho, fechando a sua entrada. Depois, construíram outro ninho sobre o primeiro, e ali procriaram. Hudson viu este fato como mais uma “qualidade” do joão-de-barro, por ter tido o cuidado de sepultar sua parceira.
     Aliás, por falar em ornitólogo argentino, o joão-de-barro é a ave símbolo da Argentina, onde é conhecido como hornero. Não sei por que, já que o pássaro é tido como trabalhador e inteligente... (brincadeira).
     No livro Moça Lua e outras lendas, Walmir Ayala, relata o seguinte:

     Contam os índios que, há muito tempo, numa tribo do sul do Brasil, um jovem se apaixonou por uma moça de grande beleza. Melhor dizendo: apaixonaram-se. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou:
     — Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
     — As provas do meu amor! — respondeu o jovem.
     O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
     — O último pretendente de minha filha falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
     — Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
     Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova.
     Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
     — Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
     O velho respondeu:
     — Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
     E esperou até a última hora do novo dia. Então ordenou:
     — Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
     Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seu olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Todos se espantaram. E ficaram mais espantados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro!
     E exatamente naquele momento, os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceu para sempre
     Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro.
     A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque se lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Digressões


     Acho que perdi uma leitora. E já eram poucos antes dessa defecção. Note, leitor que se mantém fiel, ali onde diz “Seguidores” há oito inscritos. Isto, contudo, não quer dizer que esses oito sejam meus leitores. Talvez, cada um a seu tempo, tenha lido alguma vez e resolveu inscrever-se como seguidor. Depois, nunca mais. Mas também não quer dizer que só aqueles oito costumam ler minhas postagens. Prova disso é que recebo, muito de vez em quando, comentários de anônimos sobre postagens antigas. Claro, o cara coloca o assunto que quer pesquisar no Google e, como o Blogger é da mesma empresa, apresenta seus resultados na primeira página da busca. E lá estou eu, ou melhor, lá está o meu texto sobre o assunto que o cara pesquisou. Ainda bem que comentam, caso contrário nem ficaria sabendo que alguém leu.
     Voltemos a minha leitora que já não lê minhas coisas. Quando escrevi a última postagem de maio, sobre os impostos, desconfiei que ela não leu. Talvez ela seja (ou era) a minha mais importante e influente leitora. Por isso parei de escrever e só voltei agora, em agosto, pouco mais de dois meses depois. Aliás, um parêntese, ou melhor, dois, um para abrir e outro para fechar: naquela hora que escrevi a postagem de maio, a arrecadação de impostos no Brasil estava em R$ 482.427.109.491,56. Sabe em quanto está neste exato momento, às 10h06min34s de 16 de agosto?

R$ 766.917.080.328,40!

     Voltemos, então, a minha leitora que já não lê minhas coisas. Acho que ela não gosta muito do meu estilo. Comecei falando na leitora que já não lê minhas coisas e digressionei, falando sobre impostos. É que quando fiz o primeiro vestibular ainda não tinha redação. Era 1972 e eu tentei Odontologia. Não obtive êxito. Mas não desisti. No ano seguinte, fiz vestibular pra Arquitetura. Também não deu. Naquele tempo, o ensino médio era dividido em Clássico e Científico. Para o Clássico iam aqueles que pretendiam alguma carreira na área das ciências humanas; para o científico, os demais. Eu fui para os demais, ou seja, para o Científico, inclusive porque sabia que não sabia, entre outras coisas, escrever, não era chegado às coisas da gramática e da última flor do Lácio, inculta e bela. Então, pensei em seguir profissões que exigiam coisas das exatas: biologia, química, física, matemática. Não me dei por vencido. Contrariando o meu próprio princípio, em 1975, ingressei na Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUC pra tentar ser, pasme, jornalista! Nada a ver com Científico, Odontologia e Arquitetura. Eram outros tempos e nem precisei fazer redação pra ser jornalista. Enfim...
     Depois de mais essa digressão, voltemos a minha leitora que já não lê minhas coisas. Talvez não seja por causa do meu estilo, que ficou capenga porque não optei pelo Clássico no ensino médio. Acho que ela se ocupa muito em ler, responder e encaminhar os cerca de 327 emails que recebe diariamente; com os 89 scraps que deve responder no Orkut; em jogar o Mah Jongg, no qual tenta insistentemente entrar no Hall of Fame. A propósito, por falar em emails, como a gente recebe entulhos. Tem pessoas entre nossos contatos cujo senso não é muito bom, que acham lindas todas as bobagens que recebem e entendem que têm que encaminhá-las pra todos os destinatários que estão nos seus catálogos. Como geralmente são pessoas do mesmo grupo, chega-se a receber três vezes a mesma coisa durante uma semana. E quase nada é aproveitável, principalmente os esculachos contra o Lula e a Dilma. Estranho é que, no meu caso, não recebo esculachos contra o Serra, por exemplo... Será que nem isso ele merece? E aquelas mensagens de autoajuda, aquelas com exemplos de vida? Bah!
     Bem, deixemos de digressionar e voltemos a minha leitora que já não lê meus textos. Eu insisto em chamá-la de “minha leitora que já não lê meus textos”. Ora, se já não lê meus textos, não posso considerá-la minha leitora. Agora tenho certeza: ela já não tem paciência com meu jeito de escrever. Começo falando de uma coisa e pego outra rota. Ainda vão inventar um GPS literário que avisa, com uma voz feminina sensual, tipo voz de aeroporto, quando o redator perde o fio da meada: — Volte atrás uma frase e repense seu texto. Você mudou de assunto! Mantenha a coerência. Pra mim seria ótimo.
     Quanto à leitora, finalmente prometo confessar: como sei que já não lê meus textos? Simples: é que, antes do tempo que dedica aos emails, Orkut e Mah Jongg, cumpre tarefas importantes como cuidar da casa, dos animais de estimação, das compras, do almoço, da janta, das contas a pagar, de levar a mãe a médicos... E, é claro, o principal: cuida de mim, deita todas as noites comigo e acorda todas as manhãs ao meu lado. Ela tem meu perdão. Seria querer demais que, além de tudo que faz, ainda descolasse um tempinho pra ler minhas digressões. Ela não precisa ser minha leitora. Quero apenas que continue sendo minha mulher, sem desvio de rumo ou de assunto, pro resto da vida!
     Hoje ela está de aniversário.
     Mesmo que não leias esta postagem, te deixo aqui um beijo e um abraço. Parabéns, meu amor!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O velho do saco e a bomba nuclear



     Quando eu era pequeno, ou melhor, quando meus pais eram pequenos, melhor ainda, desde quando os pais dos meus pais eram pequenos, os pais, avós e tios dessas gerações tentavam domar crianças bagunceiras, desobedientes e rebeldes com uma lenda urbana: o velho do saco. Diziam que, se a criança não se comportasse, não fizesse os temas, dissesse palavrão, se negasse a tomar banho ou só quisesse saber de rua seria entregue ou apanhada pelo velho do saco. O sujeito em questão era um velho mal vestido e sujo, com um saco enorme às costas, onde colocava as crianças com as características já citadas. Ou a criança seria entregue ao velho quando passasse, ou o próprio se encarregaria de pegá-la, quando ela estivesse na rua em vez de estar comportada em casa fazendo o tema da escola.
     Mas o que o velho fazia com as crianças que carregava no saco? Diz a lenda que fazia sabão com elas, assim como se diz que é o que é feito com cachorros de rua, sem dono, que são apanhados pela carrocinha.
     Não se sabe quando exatamente começou essa história. Estima-se que começou a ser contada logo após a chegada dos primeiros ciganos no Brasil, no final do século XIX. Os ciganos, nômades originários do norte da Índia, espalharam-se pelo mundo e, em todos os lugares onde tentaram se estabelecer, eram considerados vadios, ladrões e raptores. Há, inclusive, uma versão alternativa em que, em vez do velho do saco, era um cigano que pegava as crianças (provavelmente pra transformar em tachos e utensílios de cobre).
     Eu nunca fui ameaçado com o velho do saco. Não que eu fosse um anjo, mas acho que meus pais sabiam que eu não era idiota e, em vez do velho do saco, me aplicavam castigos como não sair do quarto, não ganhar determinado presente, etc. Tinha colegas, no entanto, que se borravam de medo de o velho aparecer de repente na pracinha. Mas não deixavam de correr atrás da bola. Imagino que os pais dos Ronaldinhos e Robinhos nunca os assustaram com essa história...
     De outra parte, na sexta-feira (06 de agosto), fez 65 nos que os Estados Unidos lançaram sua primeira bomba nuclear sobre a cidade de Hiroshima, destruindo-a por inteiro. Três dias depois, repetiriam o horrendo feito sobre Nagasaki. Calcula-se que 70 mil pessoas morreram na hora ou poucas horas depois das explosões. Outras 130 mil morreram nos 5 anos subsequentes, em função de ferimentos e doenças causadas pela exposição à radiação. A verdade é que nunca se saberá ao certo quantas centenas de milhares de vidas foram tomadas ou afetadas para sempre com apenas duas explosões.
     Todo mundo sabe que essa história não é uma lenda. Ela começou em 2 de agosto de 1939. Albert Einstein (um dos cientistas mais respeitados na época), atendendo a pedidos de outros cientistas, escreveu uma carta ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt. Na carta, Einstein dizia que os EUA deveriam priorizar o desenvolvimento de uma bomba baseada em energia nuclear antes que os alemães o fizessem. Nascia, assim, o Manhattan Project, com o propósito de desenvolver a bomba atômica. Seis anos depois, em 16 de julho de 1945, no estado de New Mexico, a primeira bomba nuclear foi detonada como teste. Os próprios soldados americanos foram utilizados como cobaias para os efeitos da radiação. O então presidente Harry Truman, querendo forçar o Japão a sair da guerra, ordenou que fossem lançadas as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki. Obteve a rendição do governo japonês e o consequente fim da 2ª Guerra Mundial.

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     A bomba nuclear passou a ser, desde então, o velho do saco da humanidade. A 3ª Guerra Mundial propriamente dita nunca passou de uma Guerra Fria pelo medo de que um dos lados lançasse bombas nucleares sobre o outro e vice-versa. Os “pais” da humanidade passaram anos ameaçando-se sub-reptícia e mutuamente.
     A guerra fria, contudo, ainda não terminou. Os “pais”, agora, temem de que os “filhos” construam um velho do saco, digo, a bomba nuclear e “irresponsáveis, desobedientes, bagunceiros e rebeldes” como são, explodam-nas na cara dos “pais”

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      O velho do saco e a bomba nuclear. Uma lenda e uma verdade politicamente incorretas que trazem consequências psicológicas assustadoras.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Impostos impostos!




     Oba! Hoje, 28 de maio — 148º dia de 2010 —, é meu último dia de trabalho pra pagar impostos! A partir de agora, o que vier é lucro.
     Claro, não é bem assim. Os impostos estão diluídos durante o ano todo, de várias formas: no salário que recebemos, nos produtos que compramos, nos serviços que utilizamos. De minha parte, só do meu salário são descontados mensal e compulsoriamente R$ 1.240,13 por mês a título de Imposto de Renda Retido na Fonte. Esse desconto, somado aos impostos embutidos nos bens que adquiri e serviços que utilizei, corresponde a uma média de 148 dias de meu dignificante trabalho.     O caro leitor, eu e todos os brasileiros trabalhamos, então, até hoje pra pagar os impostos que devemos aos governos federal, estadual e municipal em 2010.
     Quem fez esta constatação foi o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), em estudo que mostra, ainda, que a classe média é a mais atingida pelos impostos. Os que têm renda entre R$ 3 mil e R$ 10 mil vão pagar 42,94% de impostos. Os que ganham menos do que R$ 3 mil terão comprometidos 38,48% dos rendimentos; os com renda acima de R$ 10 mil, 41,63%.
     A pesquisa do IBPT indica que 2010 é o ano em que a carga tributária mais afeta o bolso do contribuinte, desde que o estudo começou a ser feito. Há 10 anos precisávamos trabalhar 130 dias; hoje, 148.
     O Brasil é o terceiro país no mundo em que se paga mais impostos. Os suecos precisam trabalhar 185 dias; os franceses, por sua vez, trabalham 149 dias.
     Ah, bom! Os suecos e franceses pagam mais impostos do que nós! Vamos, contudo, combinar: a Suécia é um dos países com melhor índice de qualidade de vida do mundo. Existe contrapartida entre o que se paga e o que se recebe do Estado. Na França também. No Brasil, contudo, a qualidade dos serviços públicos — saúde, educação, segurança, etc. — fica muito a desejar.
     Os nossos vizinhos argentinos pagam 52% menos impostos do que nós. Os hermanos gastam 97 dias pra pagar as contas. No México são 92 dias, e no Chile, 91.
     Se levarmos em conta que de nossos salários ainda é descontada a contribuição previdenciária e, no caso dos celetistas, também o FGTS, deveríamos acrescentar mais alguns dias de trabalho gratuito aos 148. Claro, a contribuição previdenciária vai “recompensar” o trabalhador quando se aposentar. É?
     Não sei o leitor, mas eu não me importaria de trabalhar 148 dias pra pagar impostos se recebesse de volta o “investimento” em serviços públicos. Só que me sinto lesado, pois meus dois filhos estudaram em escolas e universidades privadas, tenho plano de saúde particular pra toda família e medo de ser assaltado. Até os dias de hoje, o      Estado não colaborou comigo na proporção que tenho contribuído com ele.
     Agora são 08h28min do dia 28 de maio de 2010. Só pra ter uma idéia do que se arrecada de impostos no Brasil: neste exato momento estão sendo arrecadados R$ 482.427.109.491,56 em impostos (quatrocentos e oitenta e dois BILHÕES, quatrocentos e vinte e sete MILHÕES, cento e nove MIL, quatrocentos e noventa e um reais e cinquenta e seis centavos). Confira aqui.

     Veja abaixo o que os consumidores pagam de impostos, direta e indiretamente.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A Voz do Brasil



     Deu nos jornais e na internet (deve ter dado nas rádios, eu é que não ouvi): STF diz que “A Voz do Brasil” tem de ser veiculada às 19 horas. Caramba!
     Os ouvintes de rádio se deram conta, há muito, que “A Voz do Brasil” já não era mais veiculada às sete da noite. Não sei quem deu início ao movimento de tirar o programa oficial do horário das 19h às 20h. Consta que a Rádio Eldorado, de São Paulo, começou a campanha em 1995. A partir daí, emissoras de todo o Brasil ganharam liminares para divulgar o programa no horário que quisessem em até 24 horas após a edição original. Em São Paulo, mais de 800 emissoras aproveitaram o ensejo. Aqui no Rio Grande do Sul, 320 emissoras afiliadas da Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert) foram beneficiadas por liminares.
     Com base em dados coletados pelo Ibope, a Agert calcula que essa tolerância ajudou a aumentar em 300 mil ouvintes por minuto a audiência radiofônica só na Região Metropolitana de Porto Alegre, no horário anteriormente ocupado pelas informações oficiais. De acordo com o presidente da entidade, Alexandre Gadret, a conquista desse número de ouvintes quer dizer que o serviço oferecido pelas emissoras naquele horário é melhor.
     Agora, o Supremo Tribunal Federal determinou que as emissoras devem transmitir “A Voz do Brasil” em seu horário original, ou seja, às 19h. Com a decisão, as emissoras que contavam com uma liminar para flexibilizar a veiculação terão de rever sua programação no horário.
     A pendenga ainda não terminou. A decisão do ministro do STF Celso de Mello não é final. Ainda cabem recursos e, espero, fiquemos livres de ter que desligar o rádio das sete às oito da noite.
     A Voz do Brasil é o programa mais antigo do rádio, está no ar desde 22 de julho de 1935. Foi criado por Armando Campos, amigo de infância de Getúlio Vargas, com a intenção de ajudar o presidente a divulgar suas idéias para a população e, assim, ser esta a favor de seu governo. Começou com o nome “Programa Nacional”. Em 1938, o nome foi trocado para “A Hora do Brasil” e passou a ser obrigatório para todas as emissoras, com a divulgação dos atos do Poder Executivo. Em 1962, a partir da entrada em vigor do Código Brasileiro de Telecomunicações, o Poder Legislativo passou a ocupar a segunda meia hora do noticiário. Em 1971, por determinação do presidente Médici, o nome “Hora do Brasil” mudou para “A Voz do Brasil”.
     Os primeiros 25 minutos são produzidos pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e são transmitidas notícias sobre o Poder Executivo. Os demais 35 minutos são divididos e de responsabilidade dos poderes Judiciário e Legislativo.
     Por muitos anos o programa começou com a famosa expressão “em Brasília, dezenove horas”. Hoje a frase de início é “sete horas em Brasília”. O Guarani, de Carlos Gomes, tema inicial do programa, recebeu novas versões, em ritmo de samba, choro, capoeira, entre outros.
     Pasme: A Voz do Brasil está até no Twitter!
     Pois é, agora, até decisão em contrário, não vou mais poder ouvir meu programa favorito das sete às oito da noite. Acho que, nesse horário, vou me conectar a alguma rádio estrangeira na internet.
     Na minha cabeça, ter o hábito de ouvir A Voz do Brasil é a mesma coisa do que rotineiramente ler o Diário Oficial.
     Traçando um paralelo, imagine o leitor que estiver lendo uma crônica falando de dores ou amores, de repente, a partir de determinado parágrafo, encontre um texto assim:




     Não seria lamentável?


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quem ama não mata?


     Osvaldo vivia com Irene, com quem tinha uma filha, Daniela. Rosaura e Ernesto também viviam juntos, tinham um casal de filhos, eram amigos de Osvaldo e Irene, que eram padrinhos de um deles. Quando Daniela tinha cerca de 16 anos, Osvaldo deixou Irene e foi viver com Rosaura, que, simultaneamente, abandonara Ernesto*.
     Desta união, que foi oficializada perante um Juiz de Paz, há cinco anos nasceram duas gêmeas e há quatro, um menino.
     Osvaldo sempre foi mecânico. Morava com a mulher, os filhos dela e os filhos de ambos no andar superior da oficina que herdara do pai.
     Apesar da família numerosa para os padrões de hoje, Osvaldo cumpria suas obrigações de pai e, na medida do possível, participava no sustento de Daniela, filha da união anterior, hoje com 22 anos. Irene, ex-mulher de Osvaldo e mãe de Daniela, não se uniu a ninguém depois de ser abandonada pelo companheiro. Trabalha no comércio e sobrevive razoavelmente com a filha.
     Duas semanas atrás, Osvaldo matou os três filhos que tinha com Rosaura, pôs fogo na oficina e suicidou-se com um tiro na cabeça. Osvaldo teria cometido os crimes para atingir Rosaura, que lhe havia abandonado 15 dias antes. A verdade do fato ficou consignada num vídeo que o mecânico deixou gravado num CD.

     Não. Isto não é sinopse de novela, nem de uma tragédia Shakesperiana adaptada ou de algum romance perdido de Nelson Rodrigues. É uma história da vida real e foi notícia em 26 de abril — data do fato — na internet, no rádio e na TV. No dia seguinte foi publicada nos jornais.
     Fui apresentado a Osvaldo no corredor de um supermercado, muito tempo depois de saber de sua história com Irene, a quem eu já conhecia. Antes desse dia, ficava imaginando como seria aquele homem que deixara a mulher e a filha pra viver com a amiga da própria mulher e, ainda por cima, sua comadre;por que não se casara legalmente com Irene mas o fizera com Rosaura;o que levara Rosaura a deixar o companheiro pra viver com Osvaldo e, seis anos depois, deixar o mecânico pra viver com outro? Imaginava-o um homem aparentemente sedutor, de presença física marcante: alto, moreno, etc. Enganei-me. Era um gordinho, careca, de fala mansa.
     Se imaginava Osvaldo um sedutor e mudei de opinião depois de conhecê-lo, agora só me resta pensar em Rosaura — a quem não conheço nem de vista — como uma mulher fatal, loira, escultural, etc., que enlouqueceu por um homem normal e o fez enlouquecer por ela.
     Tenho motivos pra pensar assim: se para se unirem os dois cometeram a loucura compartilhada de abandonar os respectivos companheiros enquanto eram todos amigos e compadres, e, no fim da história, Osvaldo cometeu a pior das loucuras porque foi abandonado, creio que Rosaura deve ser como imagino.
     Que seja. Não justifica o triplo filicídio e o sucessivo suicídio.
     Apesar dos inúmeros estudos e das pesquisas que vêm sendo elaboradas há muitos anos, a mente humana ainda é um grande mistério. Seria o mecânico da história real um psicótico ou um esquizofrênico? Teria sido esse o seu primeiro e fatal surto?
     Para os especialistas, o psicótico vive em outro mundo, convivendo com seres e objetos irreais, afastando-se cada vez mais da realidade. Assim, experimenta alucinações, delírios, modificações em suas atitudes e confusão mental sem se dar conta de que age de maneira estranha. Não consegue, dessa forma, relacionar-se com as outras pessoas nem realizar suas mínimas tarefas cotidianas.
     Todos que conheciam Osvaldo, no entanto, custaram a acreditar no que acontecera. Era trabalhador, benquisto na vizinhança, consideravam-no um pai amoroso, carinhoso e orgulhoso das lindas gêmeas e do menino.
     Dizem, ainda, os especialistas, que algumas pessoas podem passar por períodos de estado alterado da consciência, sem que isso seja uma psicose duradoura. Vivências neste sentido podem ocorrer durante um êxtase religioso ou uma inspiração artística mais intensa, percebida como um estado alterado da consciência. De acordo com o DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), manual de diagnósticos norte-americano, este transtorno não é considerado como uma doença. O documento classifica este distúrbio em duas categorias: a funcional, que abrange a esquizofrenia e doenças de natureza afetiva;e a orgânica, consequência de demências ou de intoxicações.
     A psicose, portanto, pode ser provocada por uma herança genética ou por eventos contextuais, psicossociais, com prejuízos no poder de comunicação e de interação com o outro, no campo afetivo, na razão, no pensamento, no uso da linguagem, entre outros. Nos casos mais radicais, o paciente perde o contato consigo mesmo.
     Dependendo da intensidade do problema, o psicótico pode causar perigo a si mesmo, pois percebe o real de uma forma distorcida e atua com base nesta ilusão.
     O termo psicose vem do grego psique, para mente, e ose, para condição anormal, significando literalmente condição anormal da mente. Psicose é um termo psiquiátrico genérico para um estado mental frequentemente descrito como envolvendo perda de contato com a realidade.
     O psiquiatra suíço Eugem Bleuler criou, em 1911, o termo esquizofrenia para designar um estado de mente dividida. Ao propor o termo, Bleuler quis ressaltar a dissociação que às vezes o paciente percebia entre si mesmo e a pessoa que ocupa seu corpo.
     Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do “louco”, um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o esquizofrênico menospreza a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.
     A traição ou fim do relacionamento leva algumas pessoas a tentar destruir seu objeto de desejo, isto está diretamente ligado com a personalidade de cada um e sua carga cultural. As personalidades psicopáticas, no entanto, podem se apresentar de diversas formas, mas não são essencialmente, personalidades doentes ou patológicas, pois seu traço mais marcante é a perturbação da afetividade e do caráter, enquanto que a inteligência se mantém normal ou acima do normal. Há, contudo, diferença entre doença psicológica e descontrole emocional. Segundo a psicóloga Maria Auxiliadora, “podem existir, entre milhares de pessoas diferentes, três tipos de assassinos passionais: o neurótico, o psicótico e o psicopata”.
     O neurótico é aquela pessoa “normal” que, em um momento extremo, comete o crime, mas depois se arrepende. O psicótico é um doente que age motivado por alucinações e vozes que acredita piamente serem reais. Geralmente, mata as pessoas que mais ama e mais próximas, uma vez que acredita que está sendo perseguido. Quando comete o crime alega que a vítima era a maior culpada, pois os provocava. O psicopata, por sua vez, é um assassino frio que comete o homicídio por prazer. Não age sob delírio, possui distúrbios comportamentais e problemas pessoais graves.
     Mas o que aconteceu com o Osvaldo, aquele mecânico do bairro, pacato, bonachão, pai amoroso, traidor em fá sustenido maior, de quem nem a traída ex-mulher falava mal? Você seria capaz de julgá-lo? Afinal, quem ama mata?
     Quanto à comadre Rosaura, nunca recuperará a perda que teve. Já foi indiciada, julgada e condenada pela própria vida.

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Nota do autor:
*Com exceção do nome Osvaldo, os dos outros envolvidos são fictícios.

Fontes:
Psicose - Sintomas e tratamento do psicótico
(http://www.copacabanarunners.net/psicose.html)
Esquizofrenia
(http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=328&sec=31)
Psicose
(http://www.infoescola.com/psicologia/psicose/)

sábado, 1 de maio de 2010

Nunca na história deste país




     Os desafetos, antipatizantes e todos que têm aversão ao “cara” levaram, nesta semana, um belo sopapo na ideologia: Lula foi escolhido, na última quinta-feira (29), um dos 25 líderes mais influentes do mundo pela revista americana Time. Um tapa desses machuca até os pensamentos mais reacionários e influi geneticamente até na terceira geração dos rivais.
     A revista faz, anualmente, uma indicação das 100 pessoas mais influentes do mundo nas categorias “líderes”, “heróis”, “artistas” e “pensadores”. A lista divulgada pela Time neste ano traz o nome do presidente brasileiro entre os líderes mundiais, ao lado do número 1.
     Na primeira matéria sobre o fato, O G1, portal de notícias da Globo, lascou o título “Time aponta Lula como o mais influente do mundo”, creditando a matéria à Agência Estado. Eram 12h20 de quinta-feira. Mais tarde, às 15 horas, em matéria própria, o título era: “Revista ‘Time’ escolhe Lula como um dos líderes mais influentes do mundo”. Não satisfeitos com o açodamento manifestado no primeiro título, e nem com o da segunda matéria, às cinco da tarde do mesmo dia já dizia que “‘Time’ esclarece que Lula é um dos 25 líderes mais influentes do mundo”, desta vez em notícia do Valor OnLine. Precisava “esclarecer”?
     Ah, bom! Ainda bem! Não é o “mais influente” como temiam, mas sim “um dos 25 mais influentes”. Ficou tudo bem explicado. O G1 diz que, de acordo com o setor de Relações Públicas da revista americana “não há um ranking entre os líderes citados” e que “a decisão de colocar Lula com o ‘número um’ se deu meramente por ‘razões editoriais’”. Acrescenta que “no release divulgado pela revista, a assessoria divulga a relação completa de líderes influentes e nesta lista o presidente Lula aparece numa posição diversa: a de número 13” (coincidência, né?).
     Isso, contudo, nem vem ao caso. O legal é que o documentarista norte-americano Michael Moore, que assinou o texto sobre Lula, qualificou o presidente brasileiro como “um filho legítimo da classe trabalhadora da América Latina”. Além de citar aspectos da trajetória de vida do presidente, Moore disse ainda que “O que Lula quer para o Brasil é o que nós costumávamos chamar de Sonho Americano”.
     Só pra lembrar, Michael Moore é o autor de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11 de setembro”, entre tantos outros títulos. Seu trabalho mais recente é “Capitalism: A Love Story”, um filme sobre a crise financeira global.
     Outro brasileiro citado entre os “pensadores” está o ex-governador do Paraná, Jaime Lerner. Bill Clinton aparece entre os “heróis”, com apresentação escrita por Bono Vox, líder do U2. Lady Gaga é uma das “artistas” mais influentes.
     A lista dos “líderes”, na ordem apresentada pela Time, é a seguinte:

1. Luiz Inácio Lula da Silva - Presidente do Brasil
2. J.T. Wang - Presidente da empresa de computadores Acer, de Taiwan
3. Admiral Mike Mullen - Chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos
4. Barack Obama - Presidente dos Estados Unidos
5. Ron Bloom - Assessor sênior do secretário do Tesouro dos Estados Unidos
6. Yukio Hatoyama - Primeiro-ministro do Japão
7. Dominique Strauss-Kahn - Diretor-gerente do FMI
8. Nancy Pelosi - Primeira mulher na história dos Estados Unidos a presidir a Câmara de Representantes
9. Sarah Palin - Ex-governadora do Alasca e candidata a vice na chapa de John McCain, adversário de Obama na última eleição presidencial americana
10. Salam Fayyad - Primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina
11. Jon Kyl - Senador americano
12 Glenn Beck - Apresentador de televisão, comentarista político, escritor e empresário dos Estados Unidos
13. Annise Parker - Prefeita de Houston, no Texas. Primeira prefeita abertamente homossexual a vencer uma eleição em uma das maiores cidades dos Estados Unidos
14. Tidjane Thiam - Chefe-executivo da empresa britânica de serviços financeiros
15. Jenny Beth Martin - Co-fundadora e coordenadora nacional do Tea Party Patriots, uma organização que diz ter 1800 afiliadas e 15 milhões de membros
16. Christine Lagarde - Ministra da Economia e das Finanças da França
17. Recep Tayyip Erdogan - Primeiro-ministro da Turquia
18. General Stanley McChrystal - Comandante das Forças americanas no Afeganistão
19. Manmohan Singh - Primeiro-ministro da Índia
20. Bo Xilai - Ministro do Comércio da China
21. Mark Carney - Presidente do Banco do Canadá
22. Sister Carol Keehan - Presidente da Associação Católica de Saúde, nos Estados Unidos
23. Sheik Khalifa bin Zayed al-Nahyan - Presidente dos Emirados Árabes
24. Robin Li - Executivo-chefe da operadora da maior ferramenta de buscas pela internet da China, o Baidu
25. Scott Brown - Senador por Massachusetts e membro do Partido Republicano

     São três presidentes; quatro primeiro-ministros; cinco parla-mentares; dois ministros; dois militares; três executivos de organismos da área financeira; um presidente de empresa privada; dois executivos de empresas privadas; um presidente de entidade religiosa; uma fundadora de ONG; e um apresentador de televisão (não necessa-riamente nessa ordem de importância, já que o G1, a Agência Estado e o Valor OnLine fazem questão de ressaltar).
     Imagine quantos presidentes de nações há na Terra. Pois apenas três foram citados entre os 25 líderes mundiais e um deles é o nosso Luiz Inácio Lula da Silva. E ainda existe a preocupação se é ou não o primeiro da lista.
     Comecei este texto falando em tapa e sopapo porque essas homenagens parecem rounds de uma luta entre Lula e a cambada que o critica, dizendo que bebe, que é semialfabetizado, que fala errado, que é incompetente, incorerente, corrupto... Enfim, uma infinidade de qualificativos preconceituosos e pejorativos de quem não quer se dar por vencido, ou seja, os arrogantes, os invejosos, os malamados.
     Lula já havia recebido outras homenagens de jornais e revistas importantes no cenário internacional. Em 2009, foi escolhido pelo jornal britânico “Financial Times” como uma das 50 personalidades que moldaram a última década. Também foi eleito o “homem do ano 2009” pelo jornal francês “Le Monde”, na primeira vez que o veículo decide conferir a honraria a uma personalidade. No mesmo ano, o jornal espanhol “El País” escolheu Lula o personagem do ano. Na ocasião, José Luis Rodríguez Zapatero, presidente do governo da Espanha (cargo equivalente ao de primeiro-ministro em outros países) redigiu o artigo de apresentação do brasileiro e disse que Lula “surpreende” o mundo.
     Enquanto isso, no Brasil, a popularidade do cara beira os 80% e tem muito sabido que não se conforma.
     Talvez a próxima peleja possa ser promovida pela revista brasileira (in)Veja, pra favorecer os adversários de Luiz Inácio e, assim, talvez eles ganharem um round.
     Parece que estou vendo: atualmente a ONU conta com 192 estados-membro; as indicações dos jornalistas da (in)Veja apontariam os 191 maiores líderes (entre presidentes, primeiros-ministros e reis). Adivinhe quem ficaria de fora? Lula, o cara, óbvio!