Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







domingo, 8 de maio de 2011

Saravá! Quando a fé fere o direito.

Diante dos direitos e deveres individuais e coletivos garantidos na Constituição Federal no art. 5º, especificamente no Inciso VI, ‘é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias’, ou do Código Penal sobre os crimes contra o sentimento religioso em seu art. 208: ‘Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso’, faz-se necessária a apresentação deste projeto de lei que define, em parágrafo único, a garantia constitucional que vem sendo violada por interpretações dúbias e inadequadas da Lei nº 11.915, de 21 de maio de 2003 que institui o Código Estadual de Proteção aos Animais. Face a essa dubiedade de interpretação, os Templos Religiosos de matriz africana vêm sendo interpelados e autuados sob influência e manifestação de setores da sociedade civil que usam indevidamente esta lei para denunciar ao poder público práticas que, no seu ponto de vista, maltratam os animais.

     O texto acima, de 06 de agosto de 2003, é a justificativa do então deputado Edson Portilho (PT), por ocasião da apresentação de seu Projeto de Lei Nº 282/2003, que acrescentava parágrafo único ao art. 2º da lei nº 11.915, de maio de 2003, que institui o Código Estadual de Proteção aos Animais, no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul.
     O projeto foi aprovado por 32 votos a dois pelo plenário da Assembléia Legislativa e, após, sancionado pelo governador Germano Rigotto, em julho de 2004. Depois da iniciativa do hoje em dia vereador em Sapucaia do Sul, Edson Portilho, a redação do artigo 2º do Código Estadual de Proteção aos Animais ficou assim:

Art. 2º - É vedado:

I. ofender ou agredir fisicamente os animais, sujeitando-os a qualquer tipo de experiência capaz de causar sofrimento ou dano, bem como as que criem condições inaceitáveis de existência;

.../...

Parágrafo único - Não se enquadra nessa vedação o livre exercício dos cultos e liturgias das religiões de matriz africana.

     A gritaria dos protetores dos animais foi geral. Até hoje recebo emails condenando o ex-deputado, seu Projeto de Lei e os demais deputados que votaram a favor, como se o assunto fosse novidade. Se procurarem no Google as palavras “lei edson portilho” vão receber mais de 100 mil resultados. O surpreendente é que mais de 80 mil são de 2010. Ô, gentinha que dorme no ponto! Depois de seis anos de o Código estar em vigor com o tal parágrafo, resolveram comentar o assunto.
     Sempre que recebo emails de protetores de animais ou de simpatizantes de animais e dos protetores desses, tratando do tema como se fosse novidade, ou seja, “informando-me” do acontecido, imediatamente informo-os sobre a chata e inoportuna defasagem temporal da indignação. Pô! O troço aconteceu em 2003-2004 e estão falando como se fosse hoje! Mas isso não vem ao caso. Enfim, o Código teve seu texto alterado e, desde então, ninguém pode reclamar dos sacrifícios de animais que certa religião promove a título de crença, de ritual, de liturgia e os cambau. Sifu os demais.
     Já escrevi aqui sobre isso (Galos de despachos) e, hoje, não quero falar sobre o direito de os animais — no caso galos — não serem mortos para realização dos rituais, mas sim do direito de quem mora perto das encruzilhadas preferidas por esses religiosos.
     Nunca achei que matar galos pra colocar em despachos fosse crueldade com animais. O sacrifício da morte existe seja qual for o destino dado ao cadáver: um despacho, um casaco ou uma mesa de almoço ou jantar. O galo, a chinchila e o boi vão morrer contra sua vontade. O que me causa indignação, no caso dos despachos, é o cadáver ficar ali exposto, sob o sol, sob o olhar de todos, inclusive das crianças. Por que isso não pode ser feito dentro dos terreiros, assim como são os rituais nas igrejas, nas mesquitas e sinagogas? Por que tem que ser nas esquinas das ruas onde a gente vive? Entendo que o direito de alguém professar sua fé através de ritos religiosos termina onde começa o meu direito à higiene, a saúde pública ou individual.
     Já falei várias vezes desse bairro deselegante em que moro. E moro numa esquina classificada como encruzilhada estratégica por religiosos de certa crença. Esses religiosos teimam em escolher essa esquina como altar para seus ritos. Seguidamente tem nela um despacho com o cadáver de um galo entre grãos de pipoca, sobre um arranjo de folhas de jornal e papel de seda vermelho. Hoje, domingo, Dia das Mães, a rua amanheceu com três cadáveres de galos — um preto, um marrom e um branco — espalhados sobre as calçadas. Algum cachorro grande e novo na zona resolveu, durante a madrugada, jantar os galos mortos. Não conseguindo devorá-los por inteiro, deixou-os mastigados entre as penas que se soltaram.
     Uma coisa que se tolera é ver os galos mortos sobre os despachos nas esquinas; outra, intolerável, é vê-los espalhados pelas calçadas. Repugnante!
     Lamento não ter condenado, na época, a iniciativa do então deputado Edson Portilho. Que os praticantes dessa religião que mata galos e os coloca em esquinas tenham em mente que a Constituição lhes garante “proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. Entendo, contudo, que essas liturgias devam ficar restritas aos locais de culto e que estes não sejam as esquinas das ruas, que são públicas e de todos, inclusive de quem professa outra fé.

sábado, 7 de maio de 2011

Não requer prática nem habilidade, pode-se fazer com a maior facilidade!

O título desta postagem é um antigo bordão que costumava ouvir dos camelôs do centro de Porto Alegre, na minha adolescência. Usei-o como título de uma reportagem que fiz em 1977, quando cursava o 6º semestre de jornalismo na PUC. O trabalho ganhou primeiro lugar em reportagem para estudantes, no I Prêmio Anual do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Porto Alegre. A matéria foi publicada no jornal Comunicação, informativo do Sindicato, em dezembro daquele ano. Achei um exemplar e reproduzo abaixo a reportagem.

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“É o gigante, o balão japonês, olhaí! Óia a lixa pra péis, pra senhora e cavalheiro! É a novidade, é o raibanspeiado! A moda do Rio e São Paulo, agora aqui. A mais prática carteira pra documento: dá pra enganá até ladrão porque tem malandrage. Olhaí o balão japonês, a lixa pra péis, é unissex o raibanspeiado, a novidade, porta-documentos, lixa, óculos, gigante, o balão japonês...”

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     Misturando-se às vozes de quem passa, ao estridente som das discotecas e aos berros dos fanáticos religiosos está o pitoresco pregão dos camelôs. Suas vozes metálicas anunciam, na linguagem do povo, os seus coloridos produtos ao som da novidade. E assim vivem e fazem viver a família.
     De vez em quando, a fiscalização da SMIC (Secretaria Municipal da Indústria e Comércio) faz com que esses vendedores não registrados levantem-se ligeiro, carregando a mercadoria. A pena para quem não tem o registro é ter o produto do seu sustento apreendido. E pra retirá-lo deve pagar uma taxa.
     O romantismo abrutalhado de seus pregões já se incorporou à vida da Rua da Praia, da Voluntários e da Otávio Rocha, onde há maior quantidade de camelôs. Um ao lado do outro, vão vendendo óculos escuros, lixas pra pés, naftalina, bijuterias, lenços, meias, brinquedos, carteiras, de tudo um pouco.

SÓ DÁ PRA FAZER ISTO

     A maioria dos camelôs escolheu essa profissão, muitas vezes perigosa, por não ter condições de fazer outra coisa, como Matias, que há 22 anos vende na rua. “Já vendi de tudo um pouco e nunca fui registrado. A papelada que eles pede é demais e, sendo doente como sô... Há quatro anos estou encostado no INPS e só disso não dá pra vivê.” Matias não usa o “pregão” pra vender o seu peixe na Rua da Praia. “Eu fico aqui parado, os fregueis chega, fala comigo e compra. Este ponto é bom porque passa bastante gente. As lojas não se importam. Tem umas que até fazem questã que a gente trabalhe defronte que é pra cuidá os mau elemento que entra pra sacaniá eles. Vendo a gente aqui eles respeita.”
     Batista está começando na profissão e o motivo da escolha é o mesmo: não pode fazer outra coisa. “Faz um ano que trabalho nisso porque me quebrei todo: perna, costela... Então não tenho oportunidade pra pegá noutro serviço mais pesado. De veiz em quando eu saio, umas duas veiz por semana, e, a pau-e-corda faço uns biscate”. Batista também não é registrado, mas não tem medo da fiscalização, nunca foi pego. “Quando eu vejo os fiscal me levanto e saio”. Batista tem mulher e quatro filhos. O sustento da família é o resultado de seu dia-a-dia vendendo lenços e brinquedos. “Quando tá bom eu tiro uns cem, cento e pouco por dia”.
     E a mercadoria vai saindo. Gente olha, gente para, gente pechincha, gente compra. Há aqueles que, constantemente, estão numa roda de pessoas. A sua propaganda é interessante e o pessoal quer ver como funciona o produto. Geralmente é novidade. Há poucos dias, um novo artigo apareceu. É uma carteira para documentos e dinheiro, com muitos truques. Põe-se o dinheiro solto na carteira, vira-se e o dinheiro está preso. De um lado se vê bastante dinheiro; do outro, pouco. E o camelô vai explicando o truque. Muita gente fica um pouco confusa e o vendedor repete a operação. Muitas vezes, as pessoas compram a novidade sem nem saber usar direito. “Eu não sei, olhei, achei legal. Agora, em casa, dou uma treinadinha e tudo bem”.

É UM BOM SERVIÇO

     Nem todos os camelôs o são por necessidade, por serem doentes ou encostados no INPS. Jurandir trabalha no ramo porque gosta. “Estou com 28 anos e trabalho desde os 18. Não tenho profissão e, graças a Deus, aqui me defendo mais melhó do que se fosse trabalhá de salário mínimo. Quase sempre tiro cento e poucos cruzeiros por dia e pago 35 por mês pro sindicato. Quem não é regularizado é porque não tão por dentro de onde deve ir. E depois tem plobrema com a fiscalização”.
     Célia acha que é um serviço bom. Estudou até a 7ª série, parou e, agora, é camelô. Além disso, Célia inaugura um novo emprego: trabalhar em banquinha de camelô. “Eu trabalhava fora antes. Agora tô aqui, ganhando 60 cruzeiros por dia na banca do seu Francisco. Acho que o seu Francisco veve bem do negócio. Eu mesma abro, eu mesma fecho e ele só vem aqui, recebe o dinheiro e pronto. Tem dias que dá mais de duzentos cruzeiros; noutros, quase não dá. O seu Francisco tem carteirinha e tudo, e nesta semana ele tá caminhando pra botá o meu nome na carteirinha. Cruiz credo! Se a fiscalização chega, nem sei...”

AGRESSÕES

     “Os camelôs também são gente e têm o direito de trabalhar como todo mundo”. Assim Carlos Eisenhut Filho, presidente do Sindicato dos Vendedores Ambulantes e Feirantes do Estado do Rio Grande do Sul, fala dos camelôs e das agressões e intimidações que a categoria vem sofrendo ultimamente. “A SMIC, a Prefeitura e a Brigada Militar — explica Eisenhut — não são responsáveis pelas agressões que vêm sofrendo os vendedores ambulantes e os camelôs”. E denuncia: “o responsável é o senhor Alécio Ughini, diretor da Associação Comercial de Porto Alegre. Ele quer a retirada dos camelôs dos seus pontos de trabalho”. Mas o Sindicato só pode agir em favor daqueles que estão devidamente legalizados, que tenham alvará da SMIC e sejam filiados ao órgão de classe. “Se for necessário — diz Eisenut —, iremos às últimas consequências”.
     A profissão de camelô está devidamente regulamentada pela Lei Nº 3.187. Ela estabelece as condições para que o trabalhador seja regularizado. O primeiro passo é que seja cadastrado na SMIC e, depois, se sindicalize. Assim, ele receberá um crachá e um ponto para trabalhar.
     “São trabalhadores honestos e assim devem ser reconhecidos”, diz Eisenhut.

HONESTIDADE DUVIDOSA

     Mas há uma certa malícia na “honestidade” de alguns. Comop no caso daqueles cachorrinhos de brinquedo que só latem na mão do camelô. Com um apito escondido sob a língua, o vendedor faz o som ao mesmo tempo em que aperta o sifão que move o cachorro. O desavisado que compra, leva pra casa um cachorrinho mudo.
     Outros têm um esquema tão bem bolado que chega a ser um caso de marketing. Enquanto apregoa o seu artigo, o pessoal olha desconfiado. De repente, alguém se deixa levar. Logo, mais outro também decide comprar. E o pessoal começa a adquirir a mercadoria, incentivado pelos primeiros compradores. Passando um tempo, quando não há mais nenguém por perto, voltam os dois primeiros, devolvem a mercadoria e recebem de volta o dinheiro. Assim que o pregão chama mais gente, a operação recomeça.

O PROBLEMA DO CEGUINHO

O Arthur ainda é daqueles que fazem propaganda da mercadoria, mas honestamente, sem contar com qualquer esquema. A falta de visão talvez lhe tenha deixado aquele ar de paciência. Na Rua da Praia, alheio à passarela de urgentes executivos, misses de verão e paqueradores inoportunos, vai anunciando a sua naftalina, com voz forte e pausada. E sópara pra fumar de vez em quando.
     “A gente vive porque não tem outro recurso de negócio. Não dá pra fazer boas vendas, pra trazer conforto pra dentro de casa como seria interessante. Tenho minha senhora e um gurizinho pra sustentar. Ganho também do INPS, mas não chega. Não me associo ao Sindicato porque, com o que ganho na rua, não dá pra pagar a mensalidade. Algum tempo atrás, quando o prefeito quis pôr as primeiras bancas pra cegos, eu fui um dos contemplados com um ponto. Aí fui trabalhar numa firma e perdi o ponto. Quando eu voltei, o prefeito tinha cancelado os pontos de banca. Quem tinha, tinha; quem não tinha teve que ir vender na rua. Se eu tivesse uma banquinha de bijuterias ou de frutas, conforme outros cegos têm aí, tranquilo, dava pra pagar o Sindicato e ainda levar um melhor conforto pra casa. No verão dá pra defendê uns 60 por dia, mas, no inverno, a gente tira 30 cruzeiros, quando muito”.
     Com a escuridão nos olhos, Arthur solta o berro metálico do seu pregão:

“É naftantzantdrop. É dois cruzeiro o pacote. É con-tra-tra-ç’e barata. É dois cruzeiro o pacote!”

     E os pregões que ainda restam, seguem anunciando de tudo um pouco. Os recursos ficam cada vez mais sofisticados. Os antigos e criativos camelôs, com seus textos rebuscados, deixam o ponto para a gurizada arisca. A burocracia dos alvarás toma conta do romantismo folclórico. A pressa atropela o pitoresco. Quem não lembra da antiga Praça Parobé, da cobra Catarina e do lagarto José?

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     Desde fevereiro de 2009, os camelôs do centro de Porto Alegre estão abrigados no que era pra ser inicialmente o Centro Popular de Compras, mas que acabou sendo conhecido como “Camelódromo” e chamado de “Shopping do Porto”, apesar de certo deputado querer acabar com os estrangeirismos.
     O projeto, de iniciativa público-privada, tirou das ruas cerca de 800 camelôs e lhes concedeu um lugar com toda a infra-estrutura necessária para a prática do comércio. Localizado na Rua Voluntários da Pátria, o camelódromo comporta 800 lojas, praça de alimentação, lotérica, caixas eletrônicos, restaurante temático e estacionamento. Além disso, tem duas passarelas com vista panorâmica sobre a movimentada Avenida Júlio de Castilhos.
     Em 2010, o Shopping do Porto venceu Prêmio Top de Marketing da ADVB/RS na categoria Pólos Comerciais.
     Os camelôs — como eram chamados antigamente os vendedores ambulantes — são, hoje, prósperos empresários, locatários de lojas em um shopping, e já não anunciam mais “raibanspeiados”.
     Ficou curioso pra saber o que seriam “raibanspeiados”? Trata-se de óculos de sombra, comumente chamados de Ray Ban — que é uma marca e não um tipo de óculos —, com as lentes espelhadas, surgidos na década de 70.

sábado, 30 de abril de 2011

Ponto de venda

      Da minha janela de observação vi que picharam o tronco de uma árvore em frente, no outro lado da rua. Uma injúria. Não à árvore, mas à Polícia Militar. Alguém escreveu ali, bem legível: PM PUTO. Percebi de cara que não era uma simples pichação, pois a letra não era de pichador. Era uma ação objetivando denegrir a imagem de um adversário. Vou explicar.
     Moro no Partenon, um bairro de Porto Alegre cuja história começou quando alguns literatos da cidade passaram a se encontrar com certa frequência e, desses encontros, nasceu a Sociedade Partenon Literário, oficialmente fundada em 1868. Com o aumento de prestígio da sociedade, foi proposta a construção de uma sede. Em um terreno doado por um de seus membros, localizado no topo de um morro, onde hoje é a Igreja de Santo Antônio, os integrantes da sociedade sonhavam construir uma réplica do Partenon grego. Em 1873 foi lançada a pedra fundamental da sede. A ideia, contudo, não prosperou. Ao mesmo tempo, um grande plano de urbanização e loteamento da área encontrava-se em curso. Num acordo com os membros da sociedade, o loteamento utilizaria o nome “Partenon” e a sociedade receberia parte da terra a ser loteada. Em 1899, porém, a sociedade se dissolveu e doou seus terrenos à Santa Casa de Misericórdia (a sociedade teve suas atividades reiniciadas muitos anos depois, em 1997).
     O bairro, no entanto, sobreviveu com o nome do templo grego e nele, hoje, entre outras coisas, há um dos mais afamados pontos de drogas da cidade, motivo daquela pichação no tronco da árvore.
     Só vim a conhecer o Partenon há pouco mais de cinco anos — antes disso era só de passagem —, quando me mudei para bem perto da famosa boca de fumo e já era tarde pra voltar atrás. Com o tempo descobri que era seguro morar por aqui, pois a presença do ponto e de seus controladores afasta da vizinhança outros tipos de delinquentes, como ladrões de automóveis e assaltantes, que operam livremente noutros bairros. Percebi que a convivência era pacífica e que, inclusive, até a polícia pouco se importava com o comércio ilegal ali instalado.
     Até um tempo atrás, os consumidores procuravam o “vendedor” a qualquer hora do dia. E eram atendidos prontamente. Havia um “plantonista” 24 horas a espera dos compradores. Sinal de que, apesar da grande procura, a mercadoria era bastante ofertada a granel. Nas sextas-feiras e sábados, o movimento aumentava um pouco e havia certa fila de espera, mas nada preocupante.
     De um tempo pra cá, ficaram mais assíduas grandes apreensões de drogas e prisões de traficantes no Estado. Ao mesmo tempo, a polícia começou a ficar mais constante no bairro, aparecendo a qualquer hora, até mais de uma vez por dia. Quando não vem de carro, vem de moto; quando não vem de moto, vem de bicicleta; e assim por diante. Acho que as apreensões de drogas e prisões de traficantes também causaram apreensão nos donos do mercado, que passaram a receber menos mercadoria e/ou a controlar mais sua saída. Uma das consequências foi o acúmulo de consumidores nas ruas próximas. A uma quadra do ponto fica reunido um grupo grande; um pouco mais acima, esparsos, outros grupos, de dois, três ou quatro, e alguns automóveis estacionados; na rua da boca, pouco abaixo do ponto, vários consumidores disfarçados de moradores do bairro ficam encostados nas paredes, batendo bola, etc.. De repente, aparece alguém, pode ser um garoto ou uma garota, uma mulher ou um homem e grita algo como “— Tá na mão!” e a turba parte dos diversos pontos de encontro e se dirige para uma espécie de guichê, onde adquire uma porção da variedade dos produtos ali vendidos.
     Dia desses fui buscar o carro que havia deixado para lavar a uns 30 metros do ponto. Quando me aproximava da lavagem, uma mulher gritou:— Fulano mandou dizer que tá na mão! Fui envolvido por uma massa de consumidores que praticamente me arrastava pela rua, em direção ao vendedor. Consegui escapar, atravessei a rua e acelerei o passo até a lavagem de carros.
     A árvore que foi pichada fica na esquina em frente a minha janela, onde sempre há um grupo reunido, esperando que o mercado abra. Seguidamente, a polícia para o carro ou as motos ou as bicicletas e dá um atraque nos “manos” ali parados. Mãos na parede, pernas abertas, uma revista, documentos verificados, um sermão e uma ordem pra circular. Os caras desaparecem. Quando voltam, o mercado já fechou e eles ficaram sem a mercadoria. Se ficarem ali parados esperando abrir de novo podem ser “reatracados” e a coisa vai ficar feia. Numa dessas, um dos manos, muito irritado, deixou sua raiva escrita no tronco da árvore “PM PUTO”. A inscrição vai ficar ali por um bom tempo, incrustada na casca da árvore, junto aos fungos que a habitam, mas, acredito, menos tempo do que os vendedores e do que os grupos de consumidores reunidos esperando abrir o mercado da droga. Esses vão durar mais. Talvez pra sempre.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Marketing {estratégia empresarial de otimização de lucros por meio da adequação da produção e oferta de mercadorias ou serviços às necessidades e ...

...preferências dos consumidores, recorrendo a pesquisas de mercado, design [a concepção de um produto (máquina, utensílio, mobiliário, embalagem, publicação etc.), especialmente no que se refere à sua forma física e funcionalidade], campanhas publicitárias, atendimentos pós-venda etc.}

marketing

     Tá difícil de entender o porquê desse título? Simples. Estou tentando me acostumar com a nova lei aprovada pela Assembleia gaúcha. Trata-se do Projeto 156/2009, do deputado Raul Carrion (PCdoB), que obriga a tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, sempre que houver no idioma uma palavra ou expressão equivalente. Se, no entanto, não houver palavra ou expressão equivalente em português, diz o texto aprovado, uma tradução deverá acompanhar com o mesmo tamanho e destaque o intruso linguístico. Foi, então, o que fiz: apesar de o estrangeirismo “marketing” já estar incluído nos dicionários de língua portuguesa, como não tem equivalente no nosso idioma, coloquei uma explicação sobre o significado do termo, com o mesmo destaque.
     Um detalhe interessante é que a explicação do termo marketing menciona outro estrangeirismo, design, que também tive que explicar, sob risco de o leitor não saber sobre o que estava falando, de acordo com o deputado Raul Carrion. Design até teria tradução: como substantivo, pode significar projeto, desenho, desígnio, modelo, plano, esquema, esboço, planta, risco, enredo; como verbo, pode ser projetar, desenhar, planejar, delinear, designar, esboçar, tencionar, destinar. Devido à complexidade, achei mais fácil explicar o termo do que traduzi-lo. Aliás, marketing, grosso modo, poderia ser traduzido como mercadologia, só que o próprio dicionário manda olhar o termo marketing quando se procura uma acepção de mercadologia. Vá entender!
     O princípio da lei é muito simples: traduz-se ou explica-se o estrangeirismo, como observado no título deste texto. Ou seja: várias linhas no lugar de uma palavra que, mesmo sendo estrangeira, em 99,99% dos casos já é conhecida por todos.
     Um dos argumentos do deputado é o caso de palavras que provocam confusão nos consumidores como “light” e “diet”. Diz o parlamentar que muitas vezes são entendidas como sinônimas, mas possuem significados distintos. Carrion entende que os diabéticos correm risco de morte ao fazerem essa confusão.
     Eu acho que traduzir a palavra light num rótulo soaria meio estranho. Num produto desse tipo a tradução seria “leve”, que, na verdade, não leva a nada. Talvez uma explicação fosse mais correto: produto cujo valor calórico é comparativamente mais baixo ou que é feito com outro(s) adoçante(s) que não o açúcar. Já o estrangeirismo diet pode ser traduzido por dietético. Pronto. É só fazer isso que os diabéticos não correrão riscos.
     Cá pra nós: nesse caso específico, depois de tantos anos que esses conceitos estão arraigados, só se o doente em questão for muito idiota ou não tiver um médico a lhe orientar sobre o que pode ou não comer e beber.
     Fico imaginando os cardápios de muitos restaurantes e lancherias. Hamburger, por exemplo, não tem equivalente em português, mas já está aportuguesado, virou hambúrguer, com acento agudo e u entre o g e o e. Se tiver que explicar, ficará assim: bife geralmente de forma redonda, aglomerado com carne moída e outros elementos, que costuma ser servido dentro de um pão também redondo. Cheeseburger, por sua vez, não tem equivalente em português nem está aportuguesado. Desde que se tenha em mente o que é hambúrguer, contudo, é fácil de explicar o que é um cheeseburger: hambúrguer ('sanduíche') com queijo fatiado. Viu como é simples!
     Bom, mas eu vim aqui pra falar de marketing {estratégia empresarial de otimização de lucros por meio da adequação da produção e oferta de mercadorias ou serviços às necessidades e preferências dos consumidores, recorrendo a pesquisas de mercado, design [a concepção de um produto (máquina, utensílio, mobiliário, embalagem, publicação etc.), especialmente no que se refere à sua forma física e funcionalidade], campanhas publicitárias, atendimentos pós-venda etc.}... Ih! Acabei me esquecendo. Fica pra próxima.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Vontade é uma coisa que dá e passa?

     Um dia, O Magro do Bonfa, personagem do humorista André Damasceno, disse em plena aula, em voz alta: — Bah! Tô cuma vontade de comer de novo a Luma de Oliveira! Imediatamente, o professor Damasceno questionou-o: — Qualé, Magro, e por acaso tu já comeu a Luma de Oliveira? E a resposta: — Não, mas to cum vontade de novo!
     Só sei isso da história. Não sei se o Magro matou sua vontade de novo ou não. Se já tinha matado uma vez, sabe-se lá como, seria fácil matá-la de novo; caso contrário, era só esperar, pois, segundo o dito popular, ela passaria.
     O bordão do título pode funcionar para algumas coisas, como a do Magro. Ele sente a vontade de transar com alguém específico, fora de seu alcance e de seu cacife. Como não pode, dá um jeito ou esquece. Por outro lado, a vontade seria satisfeita se o ato fosse realizado com alguém possível. Outro exemplo é o caso de vontade para necessidades fisiológicas, que também é fácil de resolver. Se der vontade, é só fazer e pronto, desde que haja certas condições. Experimente dizer que vontade é uma coisa que dá e passa pra alguém que antes de embarcar num ônibus intermunicipal, sem escala e sem WC, comeu um pastel na rodoviária do interior e a azeitona fez mal. Será que a vontade que deu dentro do ônibus, no meio da estrada, vai passar assim, sem mais nem menos? Duvido, nesses casos, a vontade só passa quando satisfeita.
     Afinal, o que é vontade? Entre outras coisas, é a “faculdade de representar mentalmente um ato que pode ou não ser praticado em obediência a um impulso ou a motivos ditados pela razão.” Olha só: um ato que pode ou não ser praticado! Dependendo do tipo de ato, a vontade não vai passar se ele não for praticado.
     Por que, afinal, esse papo de vontade e a referência ao bordão do título? Simples: porque estou com vontade de fumar, mas, como parei, não vou satisfazê-la. Mas quem disse que vai passar?

vontade de fumar
     Pra me ajudar a parar de fumar, participei do “Programa de Cessação do Tabagismo” da UFRGS, uma parceria entre Departamento de Atenção à Saúde e o Laboratório de Psicologia Experimental, Neurociências e Comportamento do Instituto de Psicologia. O programa utiliza técnicas de abordagem cognitivo comportamental que auxiliam a parar de fumar. Foram quatro encontros, um por semana, nos quais o grupo participante ouviu e falou sobre temas como dependência química, psicológica e comportamental, estratégias para deixar de fumar, síndrome de abstinência e exame de crenças e pensamentos disfuncionais sobre o uso do cigarro, entre outros. Como não poderia deixar de ser, uma frase recorrente em todos os encontros foi a famosa “vontade é uma coisa que dá e passa”, complementada por outra: “não nascemos fumando”.
     Depois do segundo encontro, resolvi diminuir o consumo pela metade: de 20 cigarros por dia, passei para 8 ou 10. Nas horas daqueles cigarros que não fumei nesses dias, contudo, me dava vontade que só passava quando eu acendia o próximo cigarro. Assim, eu tinha de 12 a 10 “vontades” de fumar por dia, ou seja: não esperava pra ver se a vontade passava, como me disseram tantas e tantas vezes durante o programa.
     Fiz um trato comigo mesmo: pararia totalmente de fumar assim que terminasse o maço de cigarros que estivesse em uso no último encontro. E ele terminou na manhã do dia seguinte (já falei sobre isso na postagem abaixo desta). Faz, portanto, mais de uma semana que parei de fumar, mas a vontade continua.
     Aos poucos vou aprendendo a conviver com a lenda que diz que “vontade é uma coisa que dá e passa”. É claro, quando ela é muito forte, tem-se que dar um jeito e disfarçar fazendo outra coisa. Conheço gente que deixou de fumar há mais de 20 anos, mas que ainda sente vontade de vez em quando.
     Portanto, se o ato é possível de ser executado, a vontade de efetivá-lo só passa se for satisfeita. Então: não é qualquer vontade que passa.

sábado, 9 de abril de 2011

Fissura

     Um dos significados da palavra fissura encontrados nos dicionários — que a trata como gíria ou regionalismo — diz que é “um apego extremo; forte inclinação; loucura, paixão, ânsia, sofreguidão”. A gente costuma dizer que “fulano é ‘fissurado’ em beltrana” ou vice-versa. Neste momento, estou fissurado. Sabem pelo quê? Vamos aos fatos.
 
Quinta-feira - 07 de abril (Dia do Jornalista — fato que não tem nada a ver com esta crônica)

     7h30 - Acendi o primeiro cigarro do dia, como se esse dia e esse cigarro fossem os mais normais e comuns da minha vida. Duas semanas atrás já seria o terceiro cigarro do dia. Recém havia tomado um cafezinho no Bar do Antônio. Já tinha assinado o ponto e ligado o computador. Agora, estava fumando no saguão do 8º andar, em frente aos elevadores, olhando pela janela o movimento dos ônibus e automóveis em direção ao Túnel da Conceição. Após cada tragada, olhava para o cigarro, ou o que ainda restava dele, e soltava a fumaça pelo nariz, como não fazia há muito tempo. Havia em mim um misto de “que bom que está terminando” com “que pena que está terminando”. Quando a brasa estava quase no filtro, levei-o ao sanitário e, gentilmente, afoguei-o no vaso. Ao trabalho.
 
     9h10 - Acabei o lanche: um sanduíche com pão de forma, queijo, peito de peru, requeijão, tomate e alface, que trago de casa. Voltei ao saguão, onde, agora, algumas pessoas estão sentadas em volta das mesas que têm ali. Meio sem jeito, acendo o segundo cigarro do dia. Numa época recente já seria o quinto ou sexto. Fico na janela, de costas pras pessoas no saguão. Meio desconfiado, olho pra trás de vez em quando pra ver se não estão fazendo cara feia por causa do cheiro do cigarro. Não estão nem aí. E até poderiam fazer valer seus direitos, impressos no pequeno cartaz afixado na parede: “Conforme Lei Federal nº 9.294, de 15 de julho de 1996, art. 2º, parágrafo 1º, é proibido fumar em todos os recintos desta Universidade”. Acabou. Mais um que afogo no vaso sanitário. Ao trabalho de novo.
 
     11h - Minha colega me convida pra descer até o estacionamento pra esticar as pernas. Precisa passar do carro dela para o meu dois laptops da minha nora, que o marido dela consertara. Concordei e acrescentei que seria bom fumar meu último cigarro ao ar livre, sem precisar me constranger com os não fumadores. Ela ficou feliz de poder ser testemunha desse momento, ou seja, de me ver fumar meu último cigarro, não só do dia, mas da vida. Peguei o cigarro do maço, amassei-o (o maço, não o cigarro) e, antes de jogá-lo no lixo, fotografei-o para a posteridade e para ilustrar essa crônica. Descemos e, depois de trasladar os computadores, acendi o cigarro. Estava na rua, sob as árvores do estacionamento, o dia maravilhoso e eu sentindo, ao mesmo tempo, o prazer e o desgosto de fumar pela última vez. O cigarro acabou. Larguei-o no chão e, num gesto carregado de simbolismo, tentei esmagá-lo com o pé. Não é que o desgraçado rolou e ficou numa depressão entre dois paralelepípedos do estacionamento! Azar, só vai fumegar por mais um ou dois segundos mesmo. Ao trabalho, porque a vida continua.

Sexta-feira - 08 de abril
 
     11h - Estou há 24 horas sem fumar. Fora isso, nada mudou na minha rotina: tomei cafezinho e chimarrão, fiz lanche, etc.
     Um dia inteirinho sem fumar. Tá me dando “fissura“!
     Cheguei onde queria com o título deste texto. O termo “fissura“ é usado para descrever o mal-estar e a vontade intensa de fumar. Neste momento, estou fissurado por um cigarro. É natural, a síndrome da abstinência está pegando. Sei, contudo, que essa vontade dá e passa. A nicotina é uma substância psicoativa que causa a chamada dependência física. Os primeiros dias sem cigarro são difíceis, mas, depois desse período, ficar sem fumar será mais fácil. Serão dias sem fissura.
     Depois da fissura pela ausência da nicotina, terei que lidar com fissura da dependência psicológica do cigarro, que se refere ao sentido ou à função que o cigarro tem na vida dos usuários. Muitos fumantes, por exemplo, costumam fumar em situações de estresse, quando estão tensos, pois sentem que o cigarro os relaxa. Está, então, criada uma associação psicológica. Outros fumam como uma forma de lidar com a solidão. O cigarro faz as vezes de um amigo próximo, que nos acompanha. Assim, um fumante se entristece ao pensar em parar de fumar, em perder um companheiro. Alguns acreditam que o cigarro os estimula a serem criativos, por isso fumam quando estão trabalhando; ou fumam quando se divertem, pois o cigarro lhes dá prazer. Tudo isso torna o fumante psicologicamente dependente do cigarro.
     Além dessas duas formas de dependência, há, ainda, a comportamental. O ato de fumar envolve várias associações de comportamento ligadas a hábitos individuais e sociais. Um exemplo disso é vincular o ato de fumar ao de tomar um cafezinho. O sujeito começou acendendo um cigarro depois do café, porque lhe parecia um momento adequado. Com algumas repetições, essas associações se tornaram constantes e, agora, sempre que tomar um café vai sentir vontade de fumar. Outras associações comuns são: fumar e ingerir bebidas alcoólicas, fumar e falar ao telefone, fumar ao dirigir, ao escrever um relatório, ao ver televisão, depois de comer e após as relações sexuais.
 
Sábado – 09 de abril
 
     11h – 48 horas sem fumar. Não consigo traduzir em palavras o que a síndrome de abstinência faz comigo. Fico agitado, inquieto, querendo que as horas passem ligeiro, pois quanto mais distante ficar das 11 horas de quinta-feira, quando fumei o último cigarro, menor será meu mal-estar e menores as chances de eu ter uma recaída. Não! Isso não vai haver. Afinal, não é porque passei fumando 72% da minha vida até hoje que vá sucumbir a qualquer vontadezinha, né? Vamos em frente, com ou sem fissura. Tudo passa.

sábado, 2 de abril de 2011

Não fume a vida!


     Quando eu tinha 14 ou 15 anos, em 1964, era bonito fumar e grande o apelo para que se caísse nessa tentação. Na minha cabeça e na de meus amigos seríamos mais importantes, mais charmosos e mais machos se fumássemos, como os exemplos que víamos no cinema, na TV e na vida real. Foi assim que comecei, mesmo sem ter o modelo em casa, pois meu pai e minha mãe nunca colocaram um cigarro na boca.
nao fume
     Naquele tempo, eu e os guris da turma dividíamos os maços de cigarro que comprávamos em “súcia” com alguns trocados de cada um. Por serem escassos os recursos, os cigarros eram sempre os mais baratos, chamados de “matarratos”. Havia uma marca, Sissi longo, que era a preferida, porque seus cigarros eram maiores do que os normais. A gente cortava os cigarros ao meio e divida entre dois, três ou quatro. Depois, longe dos olhos familiares, íamos fumar escondidos em algum terreno baldio, construção ou casa abandonada.
     Tenho algumas passagens interessantes dessa época, envolvendo o cigarro. Meu pai soube que eu estava fumando por causa da escola. Eu estudava no Colégio Rosário. Os meninos do ginásio não podiam fumar nem nos arredores do colégio, só os do científico ou do clássico, que transformavam a praça Dom Sebastião num fumódromo durante o recreio e ao término das aulas. Eu, no entanto, ignorava essa proibição. Quando terminava a aula, eu e um colega íamos para o centro da praça, que era rodeada por um muro de arbusto, e dividíamos um cigarro. Uma pegadinha pra cada um. Certo dia, porém, fomos surpreendidos pelo irmão prefeito do ginásio, que resolveu dar uma “incerta”. Meu colega estava de frente pra ele e saiu correndo. Eu fui pego com a boca na botija, ou melhor, com a boca no cigarro. Imediatamente, o irmão prefeito pediu minha caderneta escolar e ordenou que meu pai fosse buscá-la. Ferrou (pra não dizer outra coisa)!
     A caderneta era o espelho do aluno e um instrumento de controle, supervisão e comunicação entre família e escola. Sempre que alguma coisa desse errado, a caderneta era recolhida e o pai ou a mãe deveriam ir buscá-la, porque sem ela não se podia entrar na escola.
     Muito inocente, disse pro meu pai que havia esquecido o livro de determinada disciplina, que era obrigatório, e que, por isso, minha caderneta fora sequestrada e ele deveria buscá-la para que eu pudesse entrar na escola. Na manhã seguinte, o prefeito recebeu meu pai no seu gabinete, enquanto eu fiquei sentado na frente da sala. Alguns minutinhos depois, o prefeito abre a porta e me chama. Entrei. Meu pai de pé, em frente à mesa do prefeito; o irmão segurando o trinco da porta para que eu entrasse; e eu com cara de cagado. Sem fechar a porta e sem soltar o trinco, o irmão prefeito me perguntou por que mesmo ele havia ficado com minha caderneta. Não tive escolha e disse a verdade. Com a caderneta na mão, fui para a aula, meu pai para o trabalho e o irmão prefeito ficou na sua sala, imagino que esfregando as mãos com um sorriso irônico.
     Meu pai não me xingou, apenas pediu que aquilo não se repetisse. Referia-se, é claro, ao ato de eu fumar, não ao fato de ter que buscar a caderneta. Prometi que não aconteceria novamente. Menti.
     Numa noite de algumas semanas depois, fui no cinema Presidente com os guris da rua. Na saída, na porta do cinema, imediatamente peguei um cigarro no bolso da camisa, coloquei-o entre os lábios e o acendi. Quando olhei pra frente, dei de cara com meu pai, que me esperava a uns cinco metros. Apressadamente, tirei o cigarro da boca, amassei-o e joguei-o no meio fio. Fiz de conta que não vi meu pai, entrei por uma das portas do restaurante ao lado do cinema e saí pela outra. Segui em frente rapidamente, com minha meia dúzia de amigos.
     Não fui direto pra casa. Ficamos um tempo na esquina, jogando conversa fora, comentando sobre o filme, etc. Eu sempre entrava em casa pela porta dos fundos, que não ficava chaveada até que eu chegasse. Naquela noite, entretanto, estava fechada. Bati e meu pai abriu-a. Antes que eu entrasse, estendeu em minha direção a mão onde estava o cigarro amassado que eu jogara fora pouco antes e me perguntou o que era aquilo. Claro que foi uma pergunta retórica. Fiquei com a maior cara de bunda, esperando a maior bronca, que não veio. Acho que aquele silêncio por trás dos olhos tristes do meu pai doeu mais do que se tivesse levado uma surra.
     Apesar do remorso, continuei fumando. Inclusive no colégio. As dependências do ginásio do Rosário eram separadas das do científico e clássico por portas de grades de ferro chaveadas. Aquelas fechaduras, no entanto, tinham a idade do colégio. Cediam a qualquer chave que se enfiasse nelas. Lá íamos nós, durante o recreio, bancando os bons na praça Dom Sebastião. A volta se dava por dentro do colégio, num caminho tortuoso que descobrimos por acaso. Essa rota envolvia a passagem pelo interior da capela. Um dia, eu e mais dois colegas fomos surpreendidos pelo irmão prefeito. Ao darmos de cara com ele dentro da capela, nos ajoelhamos e fingimos estar rezando. Saímos um de cada vez, achando que o prefeito não desconfiaria. Não adiantou. Ele vira que de onde viemos só poderíamos ter entrado por onde teoricamente não havia entrada. Fui o terceiro a sair. Quando me interpelou e perguntou onde fora e o que estava fazendo confessei que tinha ido à praça comer um cachorro quente. Mandou-me de volta à sala de aula, como fez com os que me antecederam.
     Findo o recreio, já estávamos nos acomodando nas carteiras, quando o irmão prefeito entrou na sala. Todos em silêncio, pediu licença para o professor, também irmão, e recomendou a ele que anotasse na caderneta dos meus dois colegas de aventura uma nota baixa por mal comportamento e aplicação porque tinham mentido que estavam rezando. “— Quanto ao senhor Aldo Jung – continuou –, pode dar um 10 pra ele, irmão, porque confessou estar ‘fumando’ um cachorro quente na praça”.
     Ainda há outras situações dramáticas — hoje cômicas — em que me envolvi por causa do cigarro, como a vez em que deixei cair o cigarro dentro do vestido da minha namorada. Ela estava com um vestido soltinho, preso por alças aos ombros, decotado, e não usava sutiã. Estávamos caminhando, eu com o braço sobre os ombros dela e com um cigarro entre os dedos da mão desse braço. De repente, deixei cair o cigarro, que se enfiou dentro do vestido, rolou para entre os seios dela, escorregou para mais abaixo e, depois de estacionar perto do umbigo, caiu no chão. Resultou em pequenas e esparsas queimaduras no corpinho da coitada.
 
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     Em 1984, vinte anos depois de começar a fumar, além de trabalhar na UFRGS e dar aulas na UNISINOS, comecei atividades na Rádio Guaíba. Peguei o horário das 18h às 23h. Era uma correria. Um dia, em pleno trabalho, tive uma tontura braba. Atribuí o fato ao cigarro. Imediatamente peguei o maço e o isqueiro e dei para o porteiro da noite. Parei de fumar.
     Dois anos depois, comecei de frescura, pedindo um cigarro aqui, outro ali e não deu outra: voltei a fumar, regular e covardemente, até hoje. Sem contar os dois anos em que fiquei afastado, são 46 anos desse vício maldito.
 
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     Hoje, fumantes são estigmatizados. Cada vez mais, o cerco se fecha sobre nós; cada vez restringem-se mais os locais em que se pode fumar. Precisando dar um jeito nisso, entrei num Programa de Cessação do Tabagismo. Tenho, então, três formas de dependência das quais devo me livrar: a química (nicotina); a psicológica; e a comportamental. Já consegui diminuir pela metade meu consumo. Nos próximos dias abandono totalmente esse velho companheiro das horas solitárias, que me ajuda a pensar, faz o tempo passar e me dá prazer.
     Já dói e vai doer ainda mais, mas não dá mais pra viver com o cigarro, vício considerado o pior de abandonar. Devo parar de fumar a vida!

sexta-feira, 11 de março de 2011

E você, tá reclamando de quê?

Pare e pense nas suas atitudes e naquilo que você julga um problema na sua vida.

terça-feira, 8 de março de 2011

     Já escrevi duas postagens envolvendo ônibus: “A deusa do ônibus”, em 18 de janeiro, e, uma semana depois “Vai levanu!”. Novamente vou escrever algo que tem ônibus no meio. Meus destinatários hão de pensar que tenho vocação pra isso e que, talvez, devesse trabalhar na assessoria de imprensa de alguma empresa de transportes coletivos. O ônibus, desta vez, não é o principal da história. Mas está nela, assim como está na minha paisagem.
     Pra desenvolver meu texto, tomei emprestado um da minha amiga Camila Doval, que, além de traduzir muito bem em palavras seus pensamentos, sentimentos, alegrias e angústias, coloca-os à disposição no seu blog, chamado Mulher de Sardas.
     Eis o texto da Camila.

Faz tempo que você está esperando?

Minha janela é em frente da parada de ônibus. Passo o tempo neste computador e o dia fica fora. Os ônibus passam. São as mesmas árvores, as mesmas pedras na calçada. As mesmas vitrines. As roupas mudam. A chuva vem. E passa. Meus vidros estão fechados. O ventilador ocupa o som. O que as pessoas conversam na parada. O que pensa o rapaz de mochila enquanto distribui os panfletos. O que pensam de mim. O ônibus os leva. Eu não vi para onde vão.
Eu vou para a rua em algum momento. Sou mundo também. Não o culpo por passar. Eu não culpo ninguém pelo que somos. Não é fácil ser humano e ter uma vida nas mãos. É fácil pegar um ônibus e chegar. É fácil voltar, caso se tome o ônibus errado. Mas viver, fazer da vida algo que valha, ao fim! Aproveitá-la e cumpri-la, não somar horas perdidas em computadores, em preguiças, em brigas. Em paradas de ônibus que não vêm.
Quanto tempo ficar com alguém? Quando o tempo sobra? Quando falta? Quando é para sempre numa vida de ontens? Quanto tempo é justo fazer alguém perder? Ou não é justo nunca, e o mundo é para se viver só, a sua chance, a única, uma vez.

Hoje, o primeiro ônibus que passar é o meu.

     Agora, o meu.


Da minha janela

      Também vejo ônibus das minhas janelas, que são várias, assim como vários são os ônibus cheios de janelas. Moro numa esquina em que eles dobram, descendo uma rua pra continuar descendo em outra. Não tem parada em frente. Meus postos de observação ficam entre duas delas.
     Da vista para o leste, eles passam mais perto. O motorista aciona o freio do motor para fazer a curva. A velocidade diminui e o motor ronca mais alto. Posso ver claramente os passageiros. Assim como Camila, não sei para onde vão, tampouco de onde vêm. Só sei de onde vêm os torcedores do Grêmio em dias de jogo no Olímpico Monumental. E estão sempre felizes. Pena que daqui a algum tempo não verei mais esses gremistas. Eles viajarão em outros ônibus que passam em outras janelas no caminho da futura Arena.
     Vez que outra, alguém sentado no lado esquerdo olha pra cima e me vê na sacada. Fico me indagando de onde vem e pra onde vai. Esse alguém aleatório deve me invejar, pois já — ou ainda, dependendo da hora — estou em casa. Quando é noite, os coletivos são praticamente individuais, passam quase vazios. O motorista sempre para o carro na esquina entre as duas paradas pra que desça algum passageiro que, de tão costumeiro, já virou permanente. Despedem-se como amigos. Um faz parte da vida do outro.
     A esquina é inclinada à esquerda, do lado norte vejo-os mais de cima. O motorista solta o freio do motor e acelera rumo à próxima parada. Às vezes, alguém o acompanha correndo pela calçada, na tentativa de chegar junto e poder embarcar rumo a um destino que desconheço. É na sala dessa janela que passo mais tempo. Fico no computador olhando pra sua janela de 17 polegadas que me mostra o mundo.
     Também tem outro mundo que vejo dessa janela onde os ônibus aceleram rua abaixo. A qualquer hora do dia, indiferentes a mim, aos passageiros dos coletivos ou a qualquer outro que passe, jovens de ambos os sexos, dos 16 aos 50 anos, sobem a rua enrolando um baseado ou já o queimando, viajando sei lá pra onde. Nas quintas, sextas e sábados, indivíduos de algumas tribos urbanas como manos, pichadores, grungers, mauricinhos, emos, rastafaris, metaleiros, baladeiros e outros sem eira nem beira se aglomeram em pequenos grupos. Alguns chegam de carro — Chevettes tunados, Golfs rebaixados, Mareas chapeados —, estacionam um pouco acima. Um ou dois deles desembarcam e sentam-se no cordão da calçada, mais abaixo. Todos têm uma coisa em comum: esperam abrir o varejo da maconha, do crack e do pó. É uma pequena parte do abominável mundo do tráfico desse nosso admirável mundo velho.
     De vez em quando aparece um carro da polícia. Acho que os PMs são mágicos, pois os fazem desaparecer. Não resta um. Assim que a viatura para de dar voltas na quadra, todos reaparecem. Abre-se, então, a pequena loja de horrores, sem portas nem vitrines, situada no fim da rua. Acho que seus vários vendedores também são mágicos, pois logo, logo as tribos também desaparecem.
     Sou como Camila e vou para a rua em algum momento. Sou mundo também. Mas não desse que vejo da janela: não uso drogas nem ando de ônibus, portanto não corro o risco de pegar um errado ou perder tempo numa parada esperando por um que não vem. Também aproveito a vida e a cumpro a meu modo. Não perco horas no computador, pois com ele ganho a vida e o mundo. Não sou preguiçoso nem briguento.
     Que passem os ônibus, que se queimem baseados. Eu os olho pela janela e viajo sem embarcar nem num nem noutro.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Lixo extraordiário

lixo extraordinário

     Estou de volta das merecidas férias, desde domingo. Cheguei a tempo de ver o Grêmio ganhar do Cruzeirinho e ir pra final do primeiro turno do Gauchão contra o Caxias. Ainda bem que, de tão cansado da viagem, dormi antes da transmissão da cerimônia de entrega dos Oscars. É um programa muito chato. A gente passa o tempo todo ouvindo duas pessoas falando em inglês, ao mesmo tempo em que outras duas falam em português. Acaba-se não entendendo o que dizem uns e o que falam outros. Mesmo que entendesse, aquelas piadas dos americanos só têm graça pra eles. Além disso, ainda tem o José Wilker de Almeida, aquele antigo locutor de rádio, nascido há 66 anos, no Ceará, fazendo comentários sobre o que ele acha dos filmes, dos atores, dos diretores, etc.
     Uma curiosidade sobre o Oscar: há duas versões para que a estatueta tenha esse nome. A primeira dá conta de que o nome fora inventado por Margareth Herrick, secretária-executiva da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que, ao ver a pequena estátua, comentou que se parecia muito com seu tio Oscar. Um jornalista (sempre tem um metido metido na história) presente no momento teria publicado o fato, dando origem ao nome do prêmio. Outra versão diz que a atriz Bette Davis o teria apelidado assim, devido à semelhança da estatueta com seu primeiro marido. De qualquer modo o apelido pegou de tal maneira que até hoje é o nome pelo qual o Academy Award ou Prêmio da Academia é conhecido mundialmente.
     Não sei se são verdadeiras as versões, mas estão publicadas no Wikipedia, no verbete Oscar.
     Sempre tem um filme ou curta ou documentário brasileiro concorrendo ao Oscar. Espero sinceramente que seja por mérito e não por política. Neste ano foi a vez do documentário “Lixo Extraordinário”, dirigido pela cineasta Lucy Walker. O documentário mostra a arte de Vik Muniz, um artista cujas obras são reproduções de criações de outros artistas, mas em material inusitado, neste caso, o lixo. O trabalho de Vik Muniz pôde ser visto na abertura da novela Passione, da Globo.
     O sinopse do site oficial de Lixo Extraordinário diz que o documentário foi filmado ao longo de dois anos (agosto de 2007 a maio de 2009), acompanhando o trabalho do artista plástico Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo: o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Lá, ele fotografa um grupo de catadores de materiais recicláveis, com o objetivo inicial de retratá-los. No entanto, o trabalho com esses personagens revela a dignidade e o desespero que enfrentam quando sugeridos a reimaginar suas vidas fora daquele ambiente. A equipe tem acesso a todo o processo e, no final, revela o poder transformador da arte e da alquimia do espírito humano.
     Enfim, mais uma vez um trabalho cinematográfico brasileiro fica só na indicação.
     Pois bem, nessas minhas férias eu também poderia ter feito um documentário sobre lixo, sem a pretensão, é claro, de ser indicado ao Oscar.
     Há um ano, publiquei neste espaço um relato sobre as férias de 2010, em Bombinhas, Santa Catarina. No meio de um parágrafo fiz referência ao lixo que fica na orla, deixado por veranistas de estados e países vizinhos: [...] areia cheia de latinhas de cerveja, sacos plásticos, cocos verdes e saídas de esgoto contendo o que argentinos, gaúchos e paranaenses não aproveitam no organismo.
     Passado um ano, depois de muito se falar em lixo na mídia, depois de muita campanha de conscientização sobre o lixo, lá estava ele em maior intensidade, não só na beira da praia, mas nas ruas de Bombinhas: latinhas de cerveja e refrigerantes, garrafas long neck, garrafas pet, sacos plásticos, embalagens diversas, restos de construção, absorventes femininos e pulgas, muitas pulgas.
     Sim: pulgas! Além de lixo, proliferam pulgas em Bombinhas, que está repleta de cães abandonados. Por todos os cantos da cidade vêem-se aqueles animaizinhos assustados, com o rabo entre as pernas, olhando-nos de soslaio, pedindo uma ajuda ou esperando serem corridos. Ao lado do prédio em que ficamos, duas cadelas de rua deram cria: uma delas a seis filhotes; a outra, a três. Eu e minha mulher passávamos por ali com nossa mascote, a Lila. Bastaram dois dias para que as pulgas invadissem o corpo de Lila. Em casa ficava a outra, nossa gata chamada Wanda, que também foi infectada pelas pulgas que a Lila inadvertidamente trouxe da rua.
     A poucos metros havia uma clínica veterinária onde encontramos a solução para o resto do veraneio. Todos os dias, contudo, fazíamos uma varredura no corpo das duas e catávamos pulgas mortas ou estonteadas pela ação do FrontLine. Quanto a nós, tivemos sorte. Apenas os mosquitos gostaram do nosso sangue.
     A cidade também está cheia de terrenos baldios mal cuidados, com muita vegetação crescida, excelente palco para lixo, pulgas, carrapatos, ratos e outras pragas.
     Não tirei nenhuma foto dos atores do documentário que acabei não fazendo. Acho que foi de vergonha. Todo mundo diria que sou um idiota em veranear num paraíso transformado em lixo extraordinário.

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     Fica um pedido às autoridades de Bombinhas: que pelo menos de dezembro a março contratem um serviço de varrição de ruas; que instalem um centro de zoonoses; que multem os proprietários que não mantêm seus terrenos e calçadas em condições; que dêem um uso social ao IPTU que arrecadam anualmente. Para se ter uma ideia, um apartamento de 140 m², com dois dormitórios, paga um IPTU de R$ 600,00. E lá têm muitos apartamentos assim.