Coisas que me dão na telha, de vez em quando, e que quero deixar registradas, nem que seja num blog.







sexta-feira, 11 de março de 2011

E você, tá reclamando de quê?

Pare e pense nas suas atitudes e naquilo que você julga um problema na sua vida.

terça-feira, 8 de março de 2011

     Já escrevi duas postagens envolvendo ônibus: “A deusa do ônibus”, em 18 de janeiro, e, uma semana depois “Vai levanu!”. Novamente vou escrever algo que tem ônibus no meio. Meus destinatários hão de pensar que tenho vocação pra isso e que, talvez, devesse trabalhar na assessoria de imprensa de alguma empresa de transportes coletivos. O ônibus, desta vez, não é o principal da história. Mas está nela, assim como está na minha paisagem.
     Pra desenvolver meu texto, tomei emprestado um da minha amiga Camila Doval, que, além de traduzir muito bem em palavras seus pensamentos, sentimentos, alegrias e angústias, coloca-os à disposição no seu blog, chamado Mulher de Sardas.
     Eis o texto da Camila.

Faz tempo que você está esperando?

Minha janela é em frente da parada de ônibus. Passo o tempo neste computador e o dia fica fora. Os ônibus passam. São as mesmas árvores, as mesmas pedras na calçada. As mesmas vitrines. As roupas mudam. A chuva vem. E passa. Meus vidros estão fechados. O ventilador ocupa o som. O que as pessoas conversam na parada. O que pensa o rapaz de mochila enquanto distribui os panfletos. O que pensam de mim. O ônibus os leva. Eu não vi para onde vão.
Eu vou para a rua em algum momento. Sou mundo também. Não o culpo por passar. Eu não culpo ninguém pelo que somos. Não é fácil ser humano e ter uma vida nas mãos. É fácil pegar um ônibus e chegar. É fácil voltar, caso se tome o ônibus errado. Mas viver, fazer da vida algo que valha, ao fim! Aproveitá-la e cumpri-la, não somar horas perdidas em computadores, em preguiças, em brigas. Em paradas de ônibus que não vêm.
Quanto tempo ficar com alguém? Quando o tempo sobra? Quando falta? Quando é para sempre numa vida de ontens? Quanto tempo é justo fazer alguém perder? Ou não é justo nunca, e o mundo é para se viver só, a sua chance, a única, uma vez.

Hoje, o primeiro ônibus que passar é o meu.

     Agora, o meu.


Da minha janela

      Também vejo ônibus das minhas janelas, que são várias, assim como vários são os ônibus cheios de janelas. Moro numa esquina em que eles dobram, descendo uma rua pra continuar descendo em outra. Não tem parada em frente. Meus postos de observação ficam entre duas delas.
     Da vista para o leste, eles passam mais perto. O motorista aciona o freio do motor para fazer a curva. A velocidade diminui e o motor ronca mais alto. Posso ver claramente os passageiros. Assim como Camila, não sei para onde vão, tampouco de onde vêm. Só sei de onde vêm os torcedores do Grêmio em dias de jogo no Olímpico Monumental. E estão sempre felizes. Pena que daqui a algum tempo não verei mais esses gremistas. Eles viajarão em outros ônibus que passam em outras janelas no caminho da futura Arena.
     Vez que outra, alguém sentado no lado esquerdo olha pra cima e me vê na sacada. Fico me indagando de onde vem e pra onde vai. Esse alguém aleatório deve me invejar, pois já — ou ainda, dependendo da hora — estou em casa. Quando é noite, os coletivos são praticamente individuais, passam quase vazios. O motorista sempre para o carro na esquina entre as duas paradas pra que desça algum passageiro que, de tão costumeiro, já virou permanente. Despedem-se como amigos. Um faz parte da vida do outro.
     A esquina é inclinada à esquerda, do lado norte vejo-os mais de cima. O motorista solta o freio do motor e acelera rumo à próxima parada. Às vezes, alguém o acompanha correndo pela calçada, na tentativa de chegar junto e poder embarcar rumo a um destino que desconheço. É na sala dessa janela que passo mais tempo. Fico no computador olhando pra sua janela de 17 polegadas que me mostra o mundo.
     Também tem outro mundo que vejo dessa janela onde os ônibus aceleram rua abaixo. A qualquer hora do dia, indiferentes a mim, aos passageiros dos coletivos ou a qualquer outro que passe, jovens de ambos os sexos, dos 16 aos 50 anos, sobem a rua enrolando um baseado ou já o queimando, viajando sei lá pra onde. Nas quintas, sextas e sábados, indivíduos de algumas tribos urbanas como manos, pichadores, grungers, mauricinhos, emos, rastafaris, metaleiros, baladeiros e outros sem eira nem beira se aglomeram em pequenos grupos. Alguns chegam de carro — Chevettes tunados, Golfs rebaixados, Mareas chapeados —, estacionam um pouco acima. Um ou dois deles desembarcam e sentam-se no cordão da calçada, mais abaixo. Todos têm uma coisa em comum: esperam abrir o varejo da maconha, do crack e do pó. É uma pequena parte do abominável mundo do tráfico desse nosso admirável mundo velho.
     De vez em quando aparece um carro da polícia. Acho que os PMs são mágicos, pois os fazem desaparecer. Não resta um. Assim que a viatura para de dar voltas na quadra, todos reaparecem. Abre-se, então, a pequena loja de horrores, sem portas nem vitrines, situada no fim da rua. Acho que seus vários vendedores também são mágicos, pois logo, logo as tribos também desaparecem.
     Sou como Camila e vou para a rua em algum momento. Sou mundo também. Mas não desse que vejo da janela: não uso drogas nem ando de ônibus, portanto não corro o risco de pegar um errado ou perder tempo numa parada esperando por um que não vem. Também aproveito a vida e a cumpro a meu modo. Não perco horas no computador, pois com ele ganho a vida e o mundo. Não sou preguiçoso nem briguento.
     Que passem os ônibus, que se queimem baseados. Eu os olho pela janela e viajo sem embarcar nem num nem noutro.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Lixo extraordiário

lixo extraordinário

     Estou de volta das merecidas férias, desde domingo. Cheguei a tempo de ver o Grêmio ganhar do Cruzeirinho e ir pra final do primeiro turno do Gauchão contra o Caxias. Ainda bem que, de tão cansado da viagem, dormi antes da transmissão da cerimônia de entrega dos Oscars. É um programa muito chato. A gente passa o tempo todo ouvindo duas pessoas falando em inglês, ao mesmo tempo em que outras duas falam em português. Acaba-se não entendendo o que dizem uns e o que falam outros. Mesmo que entendesse, aquelas piadas dos americanos só têm graça pra eles. Além disso, ainda tem o José Wilker de Almeida, aquele antigo locutor de rádio, nascido há 66 anos, no Ceará, fazendo comentários sobre o que ele acha dos filmes, dos atores, dos diretores, etc.
     Uma curiosidade sobre o Oscar: há duas versões para que a estatueta tenha esse nome. A primeira dá conta de que o nome fora inventado por Margareth Herrick, secretária-executiva da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que, ao ver a pequena estátua, comentou que se parecia muito com seu tio Oscar. Um jornalista (sempre tem um metido metido na história) presente no momento teria publicado o fato, dando origem ao nome do prêmio. Outra versão diz que a atriz Bette Davis o teria apelidado assim, devido à semelhança da estatueta com seu primeiro marido. De qualquer modo o apelido pegou de tal maneira que até hoje é o nome pelo qual o Academy Award ou Prêmio da Academia é conhecido mundialmente.
     Não sei se são verdadeiras as versões, mas estão publicadas no Wikipedia, no verbete Oscar.
     Sempre tem um filme ou curta ou documentário brasileiro concorrendo ao Oscar. Espero sinceramente que seja por mérito e não por política. Neste ano foi a vez do documentário “Lixo Extraordinário”, dirigido pela cineasta Lucy Walker. O documentário mostra a arte de Vik Muniz, um artista cujas obras são reproduções de criações de outros artistas, mas em material inusitado, neste caso, o lixo. O trabalho de Vik Muniz pôde ser visto na abertura da novela Passione, da Globo.
     O sinopse do site oficial de Lixo Extraordinário diz que o documentário foi filmado ao longo de dois anos (agosto de 2007 a maio de 2009), acompanhando o trabalho do artista plástico Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo: o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Lá, ele fotografa um grupo de catadores de materiais recicláveis, com o objetivo inicial de retratá-los. No entanto, o trabalho com esses personagens revela a dignidade e o desespero que enfrentam quando sugeridos a reimaginar suas vidas fora daquele ambiente. A equipe tem acesso a todo o processo e, no final, revela o poder transformador da arte e da alquimia do espírito humano.
     Enfim, mais uma vez um trabalho cinematográfico brasileiro fica só na indicação.
     Pois bem, nessas minhas férias eu também poderia ter feito um documentário sobre lixo, sem a pretensão, é claro, de ser indicado ao Oscar.
     Há um ano, publiquei neste espaço um relato sobre as férias de 2010, em Bombinhas, Santa Catarina. No meio de um parágrafo fiz referência ao lixo que fica na orla, deixado por veranistas de estados e países vizinhos: [...] areia cheia de latinhas de cerveja, sacos plásticos, cocos verdes e saídas de esgoto contendo o que argentinos, gaúchos e paranaenses não aproveitam no organismo.
     Passado um ano, depois de muito se falar em lixo na mídia, depois de muita campanha de conscientização sobre o lixo, lá estava ele em maior intensidade, não só na beira da praia, mas nas ruas de Bombinhas: latinhas de cerveja e refrigerantes, garrafas long neck, garrafas pet, sacos plásticos, embalagens diversas, restos de construção, absorventes femininos e pulgas, muitas pulgas.
     Sim: pulgas! Além de lixo, proliferam pulgas em Bombinhas, que está repleta de cães abandonados. Por todos os cantos da cidade vêem-se aqueles animaizinhos assustados, com o rabo entre as pernas, olhando-nos de soslaio, pedindo uma ajuda ou esperando serem corridos. Ao lado do prédio em que ficamos, duas cadelas de rua deram cria: uma delas a seis filhotes; a outra, a três. Eu e minha mulher passávamos por ali com nossa mascote, a Lila. Bastaram dois dias para que as pulgas invadissem o corpo de Lila. Em casa ficava a outra, nossa gata chamada Wanda, que também foi infectada pelas pulgas que a Lila inadvertidamente trouxe da rua.
     A poucos metros havia uma clínica veterinária onde encontramos a solução para o resto do veraneio. Todos os dias, contudo, fazíamos uma varredura no corpo das duas e catávamos pulgas mortas ou estonteadas pela ação do FrontLine. Quanto a nós, tivemos sorte. Apenas os mosquitos gostaram do nosso sangue.
     A cidade também está cheia de terrenos baldios mal cuidados, com muita vegetação crescida, excelente palco para lixo, pulgas, carrapatos, ratos e outras pragas.
     Não tirei nenhuma foto dos atores do documentário que acabei não fazendo. Acho que foi de vergonha. Todo mundo diria que sou um idiota em veranear num paraíso transformado em lixo extraordinário.

.:: o ::.

     Fica um pedido às autoridades de Bombinhas: que pelo menos de dezembro a março contratem um serviço de varrição de ruas; que instalem um centro de zoonoses; que multem os proprietários que não mantêm seus terrenos e calçadas em condições; que dêem um uso social ao IPTU que arrecadam anualmente. Para se ter uma ideia, um apartamento de 140 m², com dois dormitórios, paga um IPTU de R$ 600,00. E lá têm muitos apartamentos assim.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Homenagem à mãe dos meus filhos

o dia da morte

O Dia da Morte - William-Adolphe Bouguereau

     Ela é esperada, mas sem a ansiosa expectativa de uma criança antes do Natal. Ela é esperada, mas nunca se quer que ela chegue. Ela é esperada, mas, quando chega, nada preenche, só deixa um vazio.

     Ela é esperada até pelos que não a esperam. Chega de repente, sem aviso, toma conta do espaço que era da vida até momentos atrás. Os que a esperam, no entanto, lutam, muitas vezes por anos a fio, para que ela não chegue no dia que não marcou pra chegar.

     Ela é esperada, mas, quando chega, pega de surpresa aos que ainda vão continuar a esperá-la.

     Ela é o fenômeno natural que desde o início da humanidade ainda provoca discussões nos campos da religião e da ciência, suscitando opiniões diversas. Desde o princípio dos tempos, os homens a tem classificado como misticismo, magia, mistério, segredo. Os céticos, contudo, atribuem a ela apenas o cessar da consciência, quando o cérebro deixa de executar suas funções.

     Sim. É dela que estou falando: da morte, óbito ou falecimento; desencarne ou passamento; decesso, defunção, exício, fim ou finamento; libitina, parca, trânsito ou perecimento. Ela vem, seja qual for sua crença ou descrença; seja qual for seu sotaque ou parecença. Ela vem e, num repente, deixa órfãos, dependentes, entristece aos parentes.

     Ela chega e muda tudo sem nada mudar. Eu, por exemplo, não mudei, ainda sou dos que a esperam sem querer encontrá-la. Mas ela chegou e mudou meu estado civil.

     Vou tentar enganá-la pra sempre.

.:: o ::.

     Meu jeito de escrever era uma das coisas que Marta, a mãe dos meus filhos, gostava em mim. Essa foi a forma que encontrei de homenageá-la, agora, quando ela recebeu a visita mal-vinda daquela que todos esperam, depois de muita luta e esperança em adiar sua chegada.

     Descansa em paz, Martinha, zelarei por teu maior legado: nossos filhos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Telechatos

     Estou mesmo precisando de férias. Ainda bem que isso acontece a partir de amanhã. Bem cedinho, com mulher, cachorra e gata pego a BR 101 direto pra Bombinhas/SC.
     Nesta semana, cheguei à conclusão de que meu nível de estresse tá um pouco alto: pela primeira vez, desde que existe o telemarketing, destratei uma operadora do setor. Vou contar a história.

telechatos

     Tudo começou no último dia 31. Estava eu tentando pegar no sono na minha costumeira sesta, lá pelas duas e meia da tarde, quando toca o celular. A primeira coisa é o susto. A gente está em alfa e, de repente, aquele estardalhaço. Sim, estardalhaço, porque o toque do meu celular é o tema do Globo Repórter. Levantei meio estonteado, coloquei os óculos e, ao ver que a ligação era do código de área 11, deixei tocar até parar.
     Deitei de novo. Daqui a pouco, novamente o estardalhaço. Era do mesmo número. Já que minha sesta tinha ido pro brejo mesmo, atendi pra tentar dar um fim naquilo.

     — Alô!

     — Boa tarde. Aqui quem está falando é Robson. Falo em nome do Bradesco. Gostaria de falar com o seu Aldo Jung (pronuncia-se “iung”, mas eles sempre falam “jung”, com “j”).

     — Sou eu mesmo, Robson, mas não posso falar agora porque estou no trânsito.

     — Qual seria, senhor Aldo, uma melhor hora para estar falando com o senhor?

     — Hoje? Só lá pelas 10 da noite!

     — O Bradesco agradece e lhe deseja uma ótima tarde.

     Claro que eu sabia que ele não ligaria às 10 da noite. Ligou logo depois das sete. Não atendi e, naquele dia, ficou por isso.
     No dia 1º, pela manhã, estou no trabalho e aquele fatídico 11 liga novamente. Atendi. Ficou mudo e a ligação não se completou. Cerca de uma hora depois, toca de novo. Atendi. Ficou mudo e a ligação não se completou. À tarde, naquela horinha que é sagrada pra mim, o Globo Repórter grita de longe: to-óin, to-óin, to-óin,to-óóóóóiiiiin! Dessa vez não atendi e a coisa ficou por aí. Só que a minha sesta foi pro brejo pelo segundo dia consecutivo.
     O drama continuou no feriado do dia 2. Várias vezes, durante o dia, deixei o 11 pendurado, inclusive na hora da sesta. Apesar de ela ter ido pro brejo.
     Ontem, dia 3, pela manhã, resolvi atender. Na primeira vez a ligação não se completou. Na segunda, deu certo.

     — Alô!

     Do outro lado falou a voz metálica, fanhosa, de uma mulher.

     — Boa tarde. Aqui quem está falaaaando é Rose Silva. Falo em nome do Bradesco e gostaria de falar com o seu Aldo Jung.

     — Pois não. Sou eu mesmo, mas não posso falar porque estou dirigindo.

     Cheguei bem perto do condicionador de ar, que estava ligado, para fazer barulho.

     — Poderia repetir, senhor Aldo. Não lhe entendi.

     — Não posso falar porque estou dirigindo – gritei.

     — Qual seria, senhor Aldo, uma melhor hora para estar falaaaando com o senhor?

     — Hoje? Só depois das 19 horas!

     — O Bradesco agradece e lhe deseja um exceleeeente dia.

     Pensa que eles desistem? Que nada! Os coitados têm uma meta diária a cumprir.
     Na tarde daquele mesmo dia, na horinha sagrada da minha sesta: to-óin, to-óin, to-óin, to-óóóóóiiiiin! Lá veio o Globo Repórter me tirar de alfa. E o pior: a ligação não completou. Vi que era o Bradesco de novo. Levei o telefone pra deitar comigo. Não demorou muito, de novo: to-óin, to-óin, to-óin,to-óóóóóiiiiin! E o pior: a ligação não completou. Vi que era o Bradesco de novo. Larguei o telefone do meu lado. Não demorou muito: to-óin, to-óin, to-óin,to-óóóóóiiiiin! Deu certo!

     — Alô!

     Do outro lado falou a voz metálica, fanhosa, de uma mulher.

     — Boa tarde. Aqui quem está falaaaando é Gisleine. Falo em nome do Bradesco e gostaria de falar com o seu Aldo “Iung”.

     — Pois não.

     — Seu Aldo?

     — Sim. E daí?

     — Primeirameeeeente, gostaria de estar lhe informaaaando que essa ligação vai estar seeeendo gravada para sua segurança. Então: blá, blá, blá, blá, blá. Benefícios, blá, blá, blá, blá, blá. Crédito, blé, blé, blé, blé. Blé, blé, blé, blé. Juros baixos, bli, bli, bli, bli. Bli, bli, bli, bli. Bló, bló, bló...

     Antes que chegasse ao blu, interrompi a Gisleine.

     — O negócio é o seguinte, Gisleine: graças a Deus não preciso de crédito. Isso é o que eu mais tenho. Crédito. Tenho cinco cartões de crédito, tenho um ótimo emprego no governo federal, que me garante uma renda excepcional, não passo por dificuldades e não preciso de nada.

     — Quais seriam as bandeiras dos cartões de crédito que o senhor possui, senhor Aldo?

     — Visa, Mastercard, Dinners, American Express e um outro que nem me lembro mais, porque não uso nenhum, compro e pago tudo com dinheiro, na hora.

     — Mas, então, senhor Aldo, vou estar lhe ofereceeeeendo a oportunidade de estar adquiriiiindo mais um cartão de crédito...

     Interrompi a Gisleine de novo.

     — Gisleine...

     — ... blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá...

     — Gisleine! – gritei.

     — Pois não, senhor Aldo.

     — No momento não estou interessado em crédito. Mas o que eu tô querendo muito é fazer sexo.

     Um breve silêncio.

     — Poderia estar repetindo, senhor Aldo? Não lhe entendi.

     — Eu tô loco pra fazer sexo, Gisleine, dar uma boa transada. Poderias estar me ajudando com isto?

     — O Bradesco agradece e lhe deseja uma boa tarde.

     Tu, tu, tu, tu, tu...

.:: o ::.

     Fui grosseiro, sei. Fiquei com pena da Gisleine. Faria o mesmo se fosse a Rose ou o Robson, de quem também ficaria com pena. Sei que eles não são culpados, mas alguém tem que ouvir. Se eu pedisse pra chamar o supervisor ou supervisora, não seria atendido se não houvesse uma razão plausível para tanto, mas diria o mesmo pra ele/ela, de quem também teria compaixão. Na verdade, quem tem que ouvir o que eu disse e coisa ainda pior é o Diretor de Marketing do Bradesco e o cara que inventou esse serviço telechato. Esses são os verdadeiros culpados pelas seguidas e vespertinas interrupções da minha sesta.

.:: o ::.

     Posso estar imaginaaaando que o leitor tenha achado meio chato esse texto repetitivo. Imagine, então, como eu estava incomodado. É que tentei passar a impressão daquele papo de telemarketing, que é sempre o mesmo.

     Enfim, estarei de volta no fim do mês e, espero, sem estresse. Mas, como tenho que deixar o celular ligado, então não sei se vou ficar livre dos telechatos...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

It’s only Rock n’ Roll


     Já comentei neste blog sobre meu hobby do passado (The Old Stones e The Old Stones rides again!). Acho que não comentei que ele continua. Então vamos a um resumo dele no passado.

O passado remoto

     Em 1966, quando tinha 16 anos, formei uma banda de rock com mais três amigos, no embalo da beatlemania. Ela se chamava The Old Stones e eu era o baterista, que não é considerado músico, mas sim o melhor amigo dos músicos. Durou até 1969, quando cada um seguiu seu rumo.
     Passei a ensaiar sozinho, na garagem da minha casa, com o objetivo de me aprimorar. Colocava os discos de bandas da época num toca-discos plugado num potente amplificador, sobra do divórcio dos Old Stones, e os acompanhava na bateria.
     Em seguida, o Buffalo, contrabaixista dos Old Stones, me convidou pra tocar na banda em que ele estava e que se chamava The Hooligans (não sei se o nome tinha alguma referência com os violentos torcedores ingleses, mas era soava bem rock n’ roll). Mas, como tudo acaba, essa também acabou. Com alguns remanescentes e novos integrantes, formou-se a The New Hooligans, que também acabou depois de um tempo.
     Não demorou muito, eu e um remanescente da TNH formamos outra banda, mais pesada, com mais pegada e uma batida forte, à qual demos o nome — pasmem — de Banda do Pentágono da Paz (nossa!). A essa altura já era final de 1971 e a banda, como as outras, foi pro saco.
     Foi então que entrei numa banda chamada Kaos (não me lembro se era com K ou com C). Essa tinha pretensão de crescer e fazer muito sucesso, mas seus integrantes não tinham recursos suficientes para adquirir os bons equipamentos necessários. Para conseguir isso, a banda começou a tocar num inferninho da Cristóvão Colombo, perto da Gaspar Martins, chamado Pyramides Club. Era um horror. Tocávamos pras putas da casa dançarem com seus pretendentes. Não se suportava nem o cheiro do local. Eu trabalhava, tinha um salário razoável e estava prestes a me casar, então acabei caindo fora.
     Era 1972. Dei por encerrada minha carreira de músico e vendi minha bateria pra um colega de trabalho.

O passado recente

     Eis que 24 anos depois, o Buffalo, antigo companheiro, resolveu reunir os Old Stones para uma brincadeira: queria comemorar 30 anos dede que tínhamos tocado juntos pela primeira vez. Topamos. Assim, em outubro de 96, os velhos stones tocaram juntos de novo, num jantar dançante no Partenon Tênis Clube. A casa lotou com antigos e antigas fãs, quase todos já com os cabelos agrisalhados.
     Talvez você já tenha ouvido alguém dizer que música é como cachaça: não pode tomar o primeiro gole. E foi o que aconteceu. Os Old Stones continuaram na estrada por algum tempo, com diversas formações, tocando em jantares dançantes e fazendo shows em praças e parques, mas como um saudável hobby.
     Um ditado diz que a fruta nunca cai longe do pé. Meu filho também montou uma banda com colegas do colégio. Não era de rock, mas sim de pagode (acho que atirei pedra na cruz em encarnação passada). Tudo bem. Como pai tem que participar, levava-o para os ensaios, que já não são mais em garagens como no meu tempo, mas sim em estúdios. Num desses, o dono também tinha sido músico na adolescência e havia voltado a tocar depois de maduro (vou evitar o termo “velho”), mas que, como eu, estava parado. Conversa-vai, conversa-vem, convidou-me pra fazer com ele uma banda.
     Eu e os outros convidados, a quem eu não conhecia, aparecemos no dia marcado. Feitas as apresentações, fomos para o estúdio e fizemos um som bem legal, por cerca de duas horas. Na saída, conversamos uns com os outros sobre o passado, em que bandas, quando e com quem havíamos tocado. Dirigi-me a um deles, gordo e quase careca, e disse que tinha tocado numa banda do IAPI, chamada Kaos, com fulano, sicrano e o Cabeleira...
     Ele me interrompe e diz: — Pô! O Cabeleira era eu!
     Ou seja: o tempo foi implacável com ele, a ponto de, além de transformar seu corpo, afetou-lhe a memória, pois não me reconhecera. E eu nem mudei tanto naqueles pouco mais de 30 anos, apenas não sou mais cabeludo, mas continuo magro. Ele, naquela época, era mais magro do que eu e tinha uma vasta cabeleira crespa (daí seu apelido).
     Mas isso foi apenas um detalhe. Essa banda durou poucos encontros e não vingou, justamente por causa do Cabeleira, que tinha uma vida meio complicada. Em compensação, o outro integrante que conheci nesses encontros, o Nelson, me convidou para formar uma banda com ele. Juntamos, então, metade dos antigos Old Stones com metade dos antigos Os Bruxos, que era a banda do Nelson na adolescência, e nasceu o Projeto 70.
     O Projeto 70 foi eterno enquanto durou, assim como as paixões e alguns amores. Novamente este melhor amigo dos músicos que lhe escreve estava no ócio musical. Num belo dia, encontro no supermercado o Gil, aquele cara do estúdio em que meu filho ensaiava e que quis fazer a banda com o Cabeleira e o Nelson. Estava tocando numa banda que passava por modificações e precisava de um baterista. Lá fui eu tocar na Escravisaura Blues Band.

O presente

     Por falta de tempo de alguns, a Escravisaura ficou na berlinda. Enquanto isso, eu e o Gil formamos a Folk’n’Roll, que existe desde 2006.
     A Folk'n'Roll toca músicas dos anos 60 e 70, sem que tenham sido, obrigatoriamente, tops de paradas de sucesso e que, normalmente, não são tocadas por grupos semelhantes. A interpretação tem uma levada às vezes folk, às vezes country e, na maioria das vezes, a batida do rock daquelas décadas. Não existe a preocupação de fazer covers dos originais. A Folk'n'Roll coloca pitadas de banda de garagem na interpretação do seu repertório. A proposta é executar músicas do gosto pessoal dos integrantes, mas que também transportem seu público àquela época. Para os mais novos, porém, tudo soa como se fosse novo.
     O grupo é formado por músicos experientes, que, como eu, encaram a atividade como um hobby: Aldo - bateria e backing vocals; Aloar - guitarra solo e backing vocals; André - teclados; Gil - contrabaixo e vocais; Lauro - guitarra base e vocais.
     Do set list da Folk'n'Roll constam músicas de Barry McGuire, Beatles, Bee Gees, Billy Ray Cyrus, Bob Dilan, Byrds, Eric Clapton, Marmalade, Monkees, Nillson, Rokes, Rolling Stones, Shakers, The Five Americans, Turtles, Ventures, Willie Nelson e outros.
     Conheça melhor a banda e ouça músicas interpretadas pela Folk’n’Roll no site, clicando aqui. Abaixo, um vídeo gravado com uma máquina digital numa festa privada.
    
 
     O bom de ser baterista, isto é, ser o melhor amigo dos músicos, é que a gente tem um monte de conhecidos músicos. Há pouco mais de um ano, recebi um telefonema de um cara que se identificou como Ricardo, que me conhecia da época dos Old Stones. Disse que quem dera meu número pra ele fora o Carlos (o Português, dos Old Stones). Ao se identificar, disse que também tinha uma banda naquela época, assim, assado, etc. e tal. Resumindo: queria que eu conhecesse uma turma que estava se reunindo havia algum tempo, mas que não tinha baterista (ou seja, a turma não tinha um “melhor amigo”).
     No dia combinado, apareci na casa desse cara, que eu desconfiava quem fosse. E era ele mesmo, o Tati, irmão do Fred, que estudava comigo no Colégio Batista. Inicialmente ele queria que eu levasse a bateria. Argumentei que era muita coisa só pra um encontro que nem se sabia se iria dar certo. Um dos outros caras, contudo, levou um arremedo de bateria, mas que dava pra fazer barulho.
     E como fizemos barulho! Foi paixão à primeira vista. No grupo tinha (e ainda tem) dois guitarristas fantásticos (Richard e Cristiano), um contrabaixista de primeira (Ivo), o Tati, que toca violão e canta, e o Hespanhol, que, naquela época, era tecladista. Tinha, ainda, um cara que tocava harmônica, o Rafael, filho do Fred e, consequentemente, sobrinho do Tati, mas que não apareceu naquele dia (nem nos subsequentes, apenas nas apresentações. Hoje está fora do país).
     Assim começou minha vida de baterista com aquela banda, chamada Alpha Rock. Posso dizer que praticamente começou a vida da banda, porque, até então, haviam feito poucas apresentações. Com meus conhecimentos, consegui levar a banda pra tocar no Sgt Peppers — a meca das bandas de rock de Porto Alegre —, que deu ainda mais motivação praquela gurizada detonar o rock n’ roll.
     Diz a história que tudo começou com o nome “Joh Free Band”. No final dos 90, um baterista e um violonista, dispostos a encontrar alguém que realmente soubesse tocar, publicaram no jornal um anúncio classificado procurando um guitarrista. Atendendo ao anúncio, Cristiano Marchionatti junta-se ao violonista Ricardo Forneck e ao baterista da hora.
     Em 2001, indicado por um amigo de Ricardo, agrega-se ao grupo o baixista Ivo Silveira. O tempo passa. Músicos passam e se vão, mas o trio Ricardo, Cristiano e Ivo mantêm-se firme.
     Em 2003, o guitarrista Richard Hennig se junta aos encontros daquele trio formado por violão, guitarra e baixo. Nascia, então, a “Alpha Rock”. Nem se podia dizer que a banda era completa, pois nenhum baterista esquentava lugar. Um dia, Ivo convocou seu filho, Diego “Beselho” Silveira, para, finalmente, assumir as baquetas.
     Mais tarde, Ricardo e Richard conheceram o tecladista PC Hespanhol e o convidaram para participar da banda. O convite foi aceito na hora.
     Por motivos de estudos e trabalhos, Diego precisou desligar-se do grupo. Outra vez a banda passou por momentos críticos, convocando e testando outros bateristas, que não se enturmaram. Novamente por indicação, surgiu meu nome, de quem os demais gostaram e que também gostou da banda.
     Quando a banda começou a tocar no Sgt Peppers, Revolution, Free Riders e outros pubs, amigos que a acompanhavam gravavam vídeos e os colocaram no Youtube. Ao se pesquisar por Alpha Rock, no entanto, aparecia outra banda com o mesmo nome, de outro Estado. Sugeri, então, que se mudasse o nome.
     Agora, a Alpha Rock tem outro nome, “the” rock band, e continua tocando o mais puro, bom e velho rock'n'roll! Confira no site, clicando aqui.
     A formação atual conta com Ricardo Forneck (violão e voz), Cristiano Marchionatti (guitarra e voz), Richard Hennig (guitarra e voz), Ivo Silveira (baixo), e Aldo Jung (bateria).
     Abaixo, um vídeo gravado no Sgt Peppers.

     It’s only rock n’ roll, but I like it!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O ronco


     Não adiantarão insistentes pedidos pra eu voltar a postar textos antigos achados seja em uma gaveta ou numa caixa em cima do guarda-roupa. Definitivamente, este é o último. Se, no entanto, meus seis leitores ficarem muito indignados, escrevo textos atuais com estilo e cenários de cerca de 35 anos atrás.
     Abaixo, então, uma rápida síntese do momento mais importante da vida de Políbio, um velho rabugento em que, invariavelmente, nós, homens, nos tornamos a partir de certa idade.
 
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ronco
     Desde seu casamento, Políbio acordava com um mau-humor que nem ele aguentava. Quando se dava conta de que não valia a pena, tornava-se o gordo normal de antes.
     Pelo menos pra ele o azedume tinha motivo: quando passava da metade da garrafa de cana, falava entre dentes para os gambás amigos que era o ronco de sua mulher que o incomodava de noite. Dizia que, seguidas vezes, acordava sobressaltado e cutucava com força as graxas da consorte com o roliço cotovelo. Em seguida, dormia até novo susto.
     Vinte anos de vida em comum tinham-se ido e Políbio não se acostumara. Matutinamente, o mau-humor; à noite, os sobressaltos.
     Havia vezes em que ele até se engasgava, contava aos amigos. Na metade da garrafa os caras come­çavam a rir. No último gole, Políbio rebentava numa gargalhada gostosa e voltava à vida do bairro.
     A vizinhança gostava muito de comentar o ranço do Políbio. Tudo sem muita malícia. Quando ele descia, ninguém falava nada, nem olhavam. Quando subia, as coma­dres, de avental e vassoura, sorriam e perguntavam Inocentemente como tinha passado a noite. Poli só di­zia “bom-dia” ou “boa-tarde”.
     Querida, sua mulher, trazia sempre uma cara de choro. Não sei se era do berço ou conseguiu-a depois de casar, assim como a gordura. Como as outras mulheres do bairro, era dona de casa por inércia. Sua vida havia sido um só trabalhar-trancado. Nas mãos havia encaixes para o cabo da vassoura, da frigideira, das panelas e da sacola de cordas. Um eterno chinelo arrastava-se sob seus pés. Sua fala mansa, contínua e chorosa cansava a quem com ela dialogasse.
     Na vida de Políbio e Querida houve uma vez um menino. Coisa quase sem importância, pois durou pouco. Mal comprou uma guitarra usada já arpejou a valsa do adeus. Enamorou-se do rock para nunca mais voltar.
     Cansado da rotina, o velho barrigudo, pensio­nista do INAMPS, resolveu dar uma de guri: estendeu um pouco mais seu domínio geográfico e foi até a avenida conhecer Mariana. Era uma mulata de sentar em duas ca­deiras e virar o prato de sopa. A caduquice que o fazer-nada trouxe ao Poli levou-o à paixão absoluta. Todas as tardinhas vestia sua roupa menos velha e ia pra avenida encontrar-se com Mariana. De lá, iam pra pensão.
     Mas Poli era um cara meio moralista. Nada de passar a noite fora e muito cuidado pra não ser visto. Era uma ginástica. A mulata era exigente, sempre querendo mais. E a paixão aumentava a cada dia.
     À noite, seus sobressaltos tornaram-se mais frequentes. Querida andava chateada. O mau-humor contagi­ou-a, tantas eram as vezes que acordava sendo sacudida. Seu braço esquerdo já tinha uma marquinha roxa de tanto cotovelada.
     O Poli ia pro bar e desabafava com a garrafa e os amigos. Dizia não aguentar mais os roncos da Querida. Era tal de pesadelo a noite toda. Nem falava mais com a mulher. Só ia em casa pra comer e ter pesadelos.
     E a Mariana dando em cima. Era um desembolsa grana daqui, desembolsa dali que o Políbio tava ficando naquela dureza. Mas era algo muito especial. Deixou, com muito sacrifício, de visitar o boteco, mas não deixou a mulata.
     Teve uma idéia: e se Querida morresse? Ele venderia o barraco, compraria outro e levava Mariana pra casa. Saía com a vantagem de sustentar um só “lar” e, o melhor, não ouviria mais roncos. Mas como conseguir isso?
     Doente ele não era. Só resta uma maneira. Remorso? Nem pensar. Já não podia mais acomodar as suas graxas com as da mulher. Era uma convivência impossível que ele ia tolerando. Desquite não valeria a pena. Ah! Aquela crioula redonduda, bem onde devia ser...
     Entre mais umas noites mal dormidas Poli achou a maneira mais conveniente: veneno a prazo. E foi numa far­mácia distante comprar um vidro de veneno.
     Noite após noite, colocava umas gotinhas no chá de Querida. Dia após dia, a indisposição dela crescia. Tonturas, enjôos e desmaios. E o Poli a dizer que não era nada, não precisa de doutor, é a menopausa...
     As repentinas acordadas continuavam sempre cres­cendo. As sacudidas cada vez mais violentas. Políbio ouvia o ronco mais forte, cutucava a mulher que só fazia “hum”. E pensava num momento próximo qualquer em que ele a sacudiria e sua cabeça tombaria para o lado do traves­seiro. Já tinha até comprador pro seu barraco e outro em vista. Faltava pouco pra Mariana ser sua, só sua. Tudo aquilo do seu lado, o dia todo, a noite toda — e sem roncos. Oh, vida...
     E foi numa noite quente e suarenta que Querida levou sua gordura pra baixo da terra. Bem como Políbio imaginara: uma cutucada no rim esquerdo, e a cabeça tombou com o ronco mortal.
     Foi tudo muito rápido: no atestado de óbito, uma insuficiência cardíaca; pra vizinhança, uma pena; pro Poli, a independência.
     No dia seguinte, Políbio já dormiu com a crioula na pensão. Na outra semana, despediu-se da vizinhança e foi pro seu barraco novo. Pequeno e sem muita coisa por dentro, que era pra mulata não se cansar e pra não gastar muito dinheiro. Aquela mulher foi feita pra outras coisas e não pro trabalho de dona de casa.

     Algum tempo se passou e Mariana voltou à antiga esquina de todos os dias. Quando lhe perguntavam por que havia sumido por uns tempos, dizia que fora morar com um velho barrigudo que tinha algum dinheirinho, mas que passava a noite acordando sobressaltado, dando uma cutucada nela e logo continuava roncando a todo volume. Não aguentou.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Desconhecido de mim

desconhecido2
 
     Há anos, quando meus filhos eram pequenos e morávamos no Bom Fim, ia passear no brique da Redenção com a família. De cada 10 pessoas que por nós passavam, metade me cumprimentava. Minha mulher de então dizia que eu poderia tranquilamente me candidatar a vereador. Seria eleito.
     Eu só ria. Alguns eu conhecia. Outros, nunca vira mais gordo.
     Com o tempo, foi diminuindo o número de pessoas que me cumprimentava. Decerto porque, envelhecendo, minhas feições se alteraram e deixei de ser parecido com alguém que pelo menos três daquelas pessoas que me cumprimentavam antes achavam que eu era.
 
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     Hoje, estou noutro bairro, sem brique, sem minha família e sem redenção.
     Estava na sacada e vi um vizinho da rua aproximar-se. Vinha caminhando tranquilamente pelo outro lado da calçada, assoviando e olhando distraidamente para os lados. Viu-me e meneou levemente a cabeça como um cumprimento, sem interromper sua melodia. Repeti o gesto e acrescentei um breve aceno.
     A rua não é movimentada. Por ali passam poucas pessoas, nos dois sentidos. Algumas eu conheço só de ver passar. Diariamente.
    Percebi que não tinha mais cigarros e fui ao mercadinho, na quadra de baixo. Cruzei com outras pessoas no caminho. Todas desconhecidas, a quem nem olhei e que também não me olharam. O mercado estava razoavelmente cheio. Como não precisava andar por entre as gôndolas, fui direto pra fila da caixa. Na minha frente havia duas senhoras, certamente moradoras do bairro, mas que eu não conhecia. A moça da caixa eu conhecia, mas só de ali comprar cigarros vez que outra. Respondi ao seu gentil bom dia e pedi o que queria.
     Na volta, passei por mais pessoas. Algumas eu conhecia só de por ali passar, vez que outra, e sabia morarem naquela rua. Não nos olhamos.
     Na entrada do prédio encontrei um vizinho do mesmo andar que saía e que ficou segurando o portão para eu entrar. O diálogo não poderia ter sido mais trivial:
     — Bom dia, professor – disse o vizinho. E esse calor?
     — Bom dia. Tá brabo – respondi.
     Entrei e ele fechou o portão atrás de mim. Era dia de faxina no edifício. Cumprimentei a moça da limpeza, a mesma de todas as semanas, mas de quem eu não sabia o nome. Ao subir a escada, mais um encontro casual. Era uma vizinha do andar de cima. Novamente um diálogo corriqueiro se fez ouvir.
     — Olá, seu Walter. Bom dia. E a dona Bela, está bem? Com esse calor acho que tá todo mundo meio mal, né? Mas vai melhorar assim que chover!
     Aquilo não era apenas um cumprimento. Era vontade de falar com alguém. Eu, sem parar de subir; dona Jandira, sem parar de descer. Quase não ouvi o final do seu “discurso”, mas encadeei as respostas na mesma sequência, sem saber se ela tinha ouvido.
     — Bom dia. Tudo bem. É. Acho que não passa de hoje.
     Se fosse um filme com legendas, o profissional que as faz não saberia como resolver. Mas não importa se ouvimos um ao outro ou se nos entendemos. O importante são as convenções. Afinal, vizinho é vizinho e é preciso cumprimentá-los.
 
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     Desconhecidos: pessoas de quem, mesmo morando no mesmo bairro, na mesma rua, não sei o nome nem sabem o meu.
     Conhecidos: pessoas com quem vivi ou vivo, com quem trabalho, que moram no mesmo bairro, na mesma rua, no mesmo prédio e de quem se conhece pelo menos o nome, mas que, muitas delas, não sabem o meu..
     Elas têm pai e mãe? Têm filhos? De onde vêm? Elas sabem se tenho pais e filhos? Sabem se preciso de alguma coisa? Como estou me sentindo?
     Conhecer alguém é algo muito relativo. Há cinco anos, quando terminei o casamento de 27 anos por ter me apaixonado por uma mulher que recém conhecera, minha ex-esposa — aquela que disse que eu deveria me candidatar a vereador — disse que “achava” que já me conhecia e que jamais imaginaria isso de mim.
     Nessa mesma época, entrei numa rede social da internet que estava na moda. Era um tempo em que se precisava ser convidado para fazer parte dela. Meu filho me convidou. A partir daí, comecei a conectar-me virtualmente a conhecidos que encontrava na mesma rede. Amigos, amigos de amigos e assim por diante. O número de contatos crescia a cada dia, assim como de visitas a meu perfil.
     Há poucos dias ganhei um selo dessa rede por ser um dos mais antigos participantes. Resolvi, então, fazer uma auditoria nos meus conhecidos da rede. Muitos eu nem sabia como e por que haviam se instalado lá. Com muitos mais nunca tinha trocado um recado. Outros com os quais só me comunicava nos dias de aniversário, isso porque o software da rede avisava. A maioria não respondia. Poucos eram os que me cumprimentavam no meu aniversário. Apaguei quase todos. Sobraram meus filhos, minha atual mulher, o filho dela (que mantive por respeito a ela) e um que outro colega de trabalho ou de lazer.
     Entre os que sobraram, só conheço plenamente (eu acho) e só me conhecem os meus filhos. De resto são apenas conhecidos — pra não dizer desconhecidos — de quem sei o nome porque está lá escrito.
 
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     Voltando aos (des)conhecidos de hoje. Entrei no apartamento e fui direto lavar as mãos. Tinha andado na rua, mexido em dinheiro, etc. Molhei as mãos, ensaboei-as, enxaguei-as e sequei-as sem olhar no espelho. Eu sabia que minha imagem estava ali. Mas, assim como fiz em relação aos desconhecidos com quem cruzei na rua, ignorei-a. Poderia ter feito o mesmo que fiz com o vizinho da rua e meneado a cabeça pra minha imagem. Até ter dado um aceno. Poderia ter dado bom dia, como a moça da caixa do mercado, a faxineira ou os vizinhos do prédio. Com certeza seria correspondido. Se falasse do tempo, no entanto, não obteria resposta. Mas não faria diferença. Quando se fala do tempo não se quer, na verdade, a resposta que o interlocutor possa dar, a menos que ele seja meteorologista. Só se quer falar. Só se quer sentir acompanhado. Saber que existe outro no mundo além de você.
     É uma coisa mais ou menos como seus contatos numa rede social da internet. Você sabe que estão lá porque vê que se comunicam com outros, porque seus perfis têm fotos, porque há um nome ou apelido lá escrito.
     Voltei ao espelho e me encarei. Mas, por mais que me olhasse, me desconhecia. Sentia-me só.
     A porta do apartamento se abriu. Era minha mulher que chegava. Ela tinha ido à casa da mãe dela, pertinho daqui.
     Novamente um notório e retórico diálogo.
     — Oi! Já voltaste?
     Eu teria certeza de que estava ficando louco se Bela me respondesse que ainda não tinha voltado.
     — É. Já são onze e meia. Vou fazer o almoço.
     Ufa! – pensei – ainda bem que ela levou ao pé da letra minha pergunta e deu a resposta certa.
 
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     Em pouco menos de uma hora, cruzei com várias pessoas. A maioria desconhecidas, algumas conhecidas de vista, um vizinho de rua dois de condomínio, uma faxineira semanal e minha mulher, com quem há poucas horas tinha passado mais uma de todas as noites dos últimos cinco anos. Dessas pessoas, quem eu conhecia e quem delas me conhecia?
     Posso dizer que conheci minha família de 27 anos — apesar de a ex ter dito que “achava” que me conhecia — porque tinha, então, uma identidade: era o marido da fulana, pai da sicrana e do beltrano e todas as implicações que essa rede familiar proporciona. Havia parentesco. Além disso, por ser marido e pai, fazia parte de uma grande rede social. Os conhecidos de fulana, sicrana e beltrano também eram meus conhecidos. Eu sabia quem eram seus pais, seus irmãos, seus filhos, suas famílias.
     Depois que conheci e me apaixonei por Bela, o “conhecer” tomou outra forma. Hoje, percebo que nesses últimos cinco anos perdi aquela referência familiar. Sinto-me um desconhecido, um intruso numa família que se formou sem mim, a ponto de o enteado (do latim antenatu, nascido antes) me classificar apenas como o “namorado da mãe dele”. Certamente os que com ele têm laços de sangue me classifiquem apenas pelo nome: o Walter... Mas o que é o Walter?
 
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     — E foi assim que, hoje, não reconheci aquele do espelho a minha frente e percebi que sou só. Por isso estou aqui, doutor. Sou um desconhecido meu. Quero voltar a me conhecer, a conviver comigo, a saber do que preciso, para onde vou, o que vou fazer, quais meus planos, quais são meus sentimentos...
     — Muito bem. Interessante, mas, agora, fale-me um pouco sobre sua mãe.
 
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Espio no espelho o espião
que existe em mim
mas ei-lo que logo se esconde
atrás da imagem
que espio em mim.

(Flávio Moreira da Costa - O espião)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Vai tudo bem, obrigado.

     Semana passada fui numa formatura. Nesta, vou a outra. Ambas do curso de Direito.
     Formaturas, hoje em dia, são um verdadeiro show. Parece até um jogo da NBA ou de futebol americano. Um espetáculo.
     E acho que estão certos os formandos. Antigamente era uma coisa muito chata, sem qualquer atrativo. Era bom (ou quase) apenas para quem estava se formando e seus orgulhosos familiares. Me agrada, hoje, ver aquele set list musical variado, com os formandos procurando mostrar sua individualidade através do trecho de uma música. As mais tocadas são as eletrônicas que embalam as baladas do momento. Algumas músicas se repetem, como I gotta feeling, do Black Eyed Peas. A personalidade desses formandos que escolhem a mesma música deve ser a mesma. Daqui a alguns anos, quando virem o vídeo da formatura, com certeza se arrependerão de terem escolhido esse tema, em vez de algum que continue dizendo algo para sempre.
     Quando meus filhos se formaram — Direito e Relações Públicas — já era assim. Lembro de ter pago uma nota para uma produtora fazer a produção (óbvio, né!) de tudo: desde os convites, passando pelas várias festas e encontros, as fotos, o vídeo e a solenidade.
     Enfim, lembrei-me da minha formatura. Era 1978. No Brasil imperava a ditadura militar. O déspota de plantão era o general Ernesto Geisel. Todos já conhecem a história. Caso contrário, deveriam conhecer.
     As solenidades de colação de grau ainda eram tradicionais: todo mundo sentado quietinho, um respeito muito grande, um cerimonial, digamos, “careta”. Mudamos um pouco aquilo tudo, mas sem pagar produtora alguma. Fizemos nós mesmos. Colocamos música no show, e não era o hino nacional. Entramos correndo no Salão de Atos da PUC ao som da abertura da Guilherme Tell, interpretada por Walter Carlos, da trilha sonora do filme A laranja mecânica. Depois, conforme o momento, tocavam músicas de Chico Buarque, especialmente Cálice e O que será. Eram músicas que representavam o momento pelo qual o Brasil passava.
     Antes, no entanto, depois de muita briga entre futuros jornalistas, publicitários e relações públicas, chegamos a um consenso sobre como seria a formatura, desde os convites até a cerimônia da colação de grau. Nem preciso dizer que valeu a opinião dos jornalistas. Os publicitários nem estavam aí e os RPs, como minoria, tiveram que nos engolir.
     O tema do evento mostrava os formandos como uma nova safra de hortifrutigranjeiros. O convite foi confeccionado em forma de um pequeno jornal, com oito páginas (a capa reproduzo abaixo). O editorial, na página 2, falava das expectativas dessa nova safra em relação momento atual brasileiro; na página 3 tinha um anúncio dos formandos de Publicidade e Propaganda; na página central estavam os nomes dos formandos; na página 6, um texto dos RPs; na 7, vários textinhos da turma de jornalismo e uma charge (feita por mim); na última, uma reflexão sobre a educação, o ensino, o mercado, etc.
     O discurso foi um tema também polêmico. Foi à votação. Os RPs apresentaram um e os jornalistas, outro. Venceu o dos jornalistas, que foi redigido por mim, fazendo as vezes de ghost writer da turma.
     Escrevi, mas não li. Quem o leu da tribuna foi um colega, o Eliseu Pacheco, que tinha uma bela voz (ainda tem). Naquela época era locutor numa rádio de Porto Alegre. Depois, transferiu-se para São Paulo e não mais o vi. Por um tempo, ainda ouvia sua voz em comerciais de TV. Agora, não mais.
     Abaixo, após a reprodução da capa do convite, o discurso de formatura da Safra 78. Bem abaixo, a charge da seção dos jornalistas no convite-jornal.
safra78
A capa do convite-jornal

     Sosseguem, não vai doer. Vai tudo bem, obrigado.
     Estamos vivendo num mundo em que as coisas só acontecem lá fora, os males só aparecem para os outros: na India estão passando fome; no Irã não querem mais Xá; no Líbano estão em guerra. Nós estamos em paz, vai tudo bem, obrigado. Aqui, além da tranquilidade, é tudo muito bonito. E muito prático também. Desenvolvimento altamente tecnológico, progresso... Progresso. Vejam as comunicações, por exemplo: aconteceu lá na Tailândia, segundos depois estamos sabendo aqui. Seja o que for, aonde for, somos informados na hora, via-satélite. Micro-ondas, lasers e outras ondas cruzam sobre nossas cabeças em intermináveis monólogos eletrônicos. Todos nós sabemos de tudo sobre o mundo, principalmente o que está na TV, no rádio, nos jornais e revistas. Tudo o que se possa imaginar sobre o mundo que nos rodeia. Mas tem uma coisa que nem todos sabem ou do que sabem muito pouco: a realidade brasileira.
     É claro que o mundo nos interessa — estamos nele — mas, em primeiro lugar, deveríamos saber sobre nossas coisas. Você sabe, realmente, como é a vida do brasileiro?
     É tudo muito claro: temos dois partidos políticos para escolher, temos dirigentes pra não escolher, temos pacotes pra nos encolher... E por falar em escolha, como vai o nosso irmão nordestino? E o seu primo do Amazonas? E o seu tio do Mato Grosso? Como vão nossos empregos e nossos salários? Vai tudo bem, obrigado...
     Obrigado a ir tudo bem!
     É... Todo mundo pensa que sabe de tudo e não dói nem um pouco. Será que vai doer em vocês se souberem que a opinião pública é habilmente manipulada por minorias privilegiadas?
     Que, nos últimos anos, no Brasil, a censura impediu a denúncia de medidas que intensificaram a exploração econômica, a dominação política e a marginalização de segmentos preferenciais da sociedade?
     Mas vai tudo bem, obrigado. Itaipu, carnaval, energia nuclear, futebol, pólos petro-carbo-químicos, obrigado...
     Todos sabemos que o direito social à informação é conquista dos povos e não pode ficar nas mãos do arbítrio governamental ou privado. Todos sabemos que a propaganda pode e deve ter um papel formador e não deformador, que tem o dever de enriquecer e dignificar o ser humano. Todos sabemos que relações públicas é a preocupação com a integração de uma empresa ou instituicão com seu público.
     Sendo assim, dói em nós, jornalistas, saber da existência de uma estrutura montada para impedir o acesso da população às informações básicas necessárias à compreensão e transformação da realidade. Dói em nós, publicitários, saber que existe certa propaganda mentirosa, usada como forma de alienar pessoas, desinformar, anestesiar e imbecilizar em massa. Dói em nós, profissionais de relações públicas, saber que falsos profissionais manipulam o público com brindes e sorrisos e que vai tudo bem, obrigado.
     Hoje, vamos sair daqui com o grave compromisso de não sermos instrumentos passivos desse poder devastador.
     Nós, jornalistas, nos propomos a protestar contra a violação de um dos direitos fundamentais da sociedade, que é o de informar e ser informada. Nos propomos a defender a liberdade de manifestação, não como prerrogativa para nós, mas sim como um direito de toda a sociedade de manifestar suas aspirações e debater suas opiniões.
     Nós, publicitários, seremos co-responsáveis por tudo aquilo que a propaganda fizer ao nosso povo, à nossa cultura, ao nosso país. Nossos compromissos não devem se esgotar apenas na venda de um produto, serviço ou ideia. Nos propomos a participar ativamente pela expansão do mercado interno e, consequentemente, por um maior número de consumidores, que são o objeto do nosso trabalho
     Nós, de relações públicas, nos propomos a orientar a conscientização dos públicos internos das organizações estatais ou privadas, para que realmente prestem seus serviços em favor de uma coletividade e que possam, assim, garantir a verdadeira integração da empresa na comunidade a que pertence. Nos propomos a fazer valer o processo de troca de ideias e do diálogo entre público e empresa, visando o bem comum.
     Nós todos, jornalistas, publicitários e relações públicas sabemos que estamos entrando num sistema alheio aos nossos ideais, um sistema preocupado apenas com o capital, custe o que custar aos trabalhadores. E, como trabalhadores da comunicação, reconhecemos o papel estratégico que temos no processo de transformação social. Por isso, até agora, temos sido alvo de castrações. Apesar de nossas especializações diferirem um pouco na forma, mantêm o mesmo conteúdo.
     Até hoje, estivemos unidos, mas e daqui pra frente? Será que conseguiremos permanecer juntos na luta pela construção de uma sociedade democrática, onde não existam fantasmas, onde não haja medo disfarçado de tranquilidade, desemprego, fome e forças ocultas?
     Se conseguirmos, aí sim, estará tudo bem, obrigado.
     ... mesmo que doa.

chargeA charge da página 7 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vai levanu!

     Achei mais alguns escritos perdidos. Dessa vez não foi numa gaveta, mas sim numa caixa que está em cima do guarda-roupa. Fui procurar o discurso que fiz para a minha formatura e, além dele, achei este texto, que é uma brincadeira com a onomatopeia. Procuro reproduzir nele os sons dos coletivos da década de 70 — época em que eu ainda andava de ônibus — e o jeito de falar de seus tripulantes e passageiros.

vai_levando

     Num ponto qualquer, a caminho do centro da cidade, ele chegou estabanado. Um guincho pré-histórico fin­cou-se nos ouvidos dos que ali estavam. Uma fumaça preta espalhou-se por todos os lados. Pela janela saiu uma cabeça vermelha e uma voz de alto-falante de quermesse berrou:

     — Ai ô centro, olhaí! Subinu! Sobi mais! Sobiaína! Lieva!

     Se fora, com o barulho e a fumaça era ruim, dentro estava pior. A porta traseira se fechou com um estrondo metálico e ficou mordendo minha camisa.

     — Ei, abre atrás!

     — Vaum cheganu à roleta!

     — Abre atrás!

     — Favor facilitá o troco.

     — Abre atrás, pô!

     PRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ

     — Diesce!

     — Abre a porta de trás que eu fiquei preso!

     — PFSSSSHSHSHSHHHH.

     Finalmente se abriu. Mas não foi porque berrei. Já era outra parada. Fui empurrado degrau acima. Quando consegui virar a cabeça, vi a man­cha de graxa que tinha ficado na camisa.

     — Podi subi que aína há lugares! Ai ô centro!

     — Com licença?

     — Com licença?

     — Subinu! Um passinho à frente a fila do meio!

     — Com licença?

     — Passa por cima, pô! Não vê que eu tô, trancado!

     — Cavalo...

     — Vaum subinu e passanu à frente! Quem não qué passá que dá o lado aí, oh! Pode levá

     O calor aumentava a cada nariz que entrava. As janelas estavam todas abertas, mas era não adiantava. Quem estava dentro só saía a muito custo. Quem estava fora só entrava por descuido. E lá ia ele. Buraco dentro, buraco fora, uma apertada num táxi, um palavrão de lá, outro palavrão daqui, — só podia sê muié —, uma travada de seco, uma arrancada também, bura­co dentro, buraco fora.

    — Cheganu à porta!

     — Vai pará! Não precisa se pindurá na campainha!

     — Com licença?

     — Vaum dexá passá na porta. Vaum dá o ladinho. Óia a fila do meio, um passinho mais à frente do carro!

     — Falta dez, moço.

     — Não tem troco. Aguarda num cantinho aí. Vaum facilitá as passage!

     — Ô, Foguinho! Vamu lá-com essa roleta aí que tá muito amarrado!

     — Coperanu e passanu à frente da roleta. Vaum dexá livre a subida! Sobiaína! Lieva!

     — Segura!

     — Desci mais! Fiiiuuuu.

     A batalha estava formada. Narizes contra sovacos, dedões contra calcanhares, cotovelos contra nucas. Traseiros contra mãos-bobas. Ombros con­tra pernas. Joelhos contra braços.

     O suor abundando, as sacolas atra­palhando, o cobrador berrando. O sol não dava folga. Atirava seus raios pelas janelas e frestas. O veículo parecia uma frigideira que fritava nossos miolos. Os vidros dos edifícios brincavam de sol e mandavam reflexos contra os olhos de quem estava do lado da sombra.

     Uma curva pra esquerda; uma pra direita. Um buraco. Uma sinaleira. Mais uma parada.

     Uí-Uí-Uí-Uí-Uí-Uí-Uííí. PFSSSSSHHHH:

     — Sobi! Ai ô centro, ao mercado e há lugares.

     — Ai!

     — Desculpe...

     — Cheganu rápido à saída. Passanu à frente a fila do meio, olhai!

     — Segura, moço!

     — Diesce! Tem vinte aí?

     — Ainda falta um cruzeiro.

     — Quanto é que eu te dei aí?

     — Sete e oitenta.

     — Não, eu te dei oito. Tenho certeza.

     — Então conta aqui, animal!

     — Animal, não! Pede com modos que eu dô! Tomaí!

     — Não quero esse teu dinheiro imundo. Tu já sabe o que fazer com ele!

     — Ô, Foguinho, tá misquecendo?

     — Lieva! Dieu! Fiiiiiuuuu.

     Não sei como sempre cabia mais um naquela coisa. Pra cada um que saía, subiam três. O ar não era mais de oxigênio. Era só morrinha de sovaco, gás carbônico, micróbios e muito calor.
     As velhas gordas, de pé, queriam sentar. As sentadas queriam descer. No corredor, três filas, às vezes quatro. A ladainha do cobrador nunca parava e ainda faltava a metade do caminho.
     Foi numa curva pra direita que o sol ficou de frente e começou a zombar de nossos olhos. Me arrependi de ter sentado. Não podia olhar pra frente, pois não enxergava. E o pior, o motorista também estava de frente pro sol.
     Pra terminar logo esta situação chata, aumentou a velocidade. Uma incrível trepidação tomou conta de tudo. Pelas frestas da tampa do motor saía um calor que, dançando, vinha juntar-se ao já existente. Como consequência, aumentou o suor dos corpos. E o resto também.

     — Vaum lá que só fica de fora quem qué! Há lugares no corredor.

     — Com licença, meu filho?

     — Pô, estas velha. A senhora vai descer agora?

     — Não.

     — Então aguenta aí.

     — Maliducado...

     — Ai, ai! Calma! Não se pede mais licença?

     — Um passinho mais no corredor óia aí. Sóbimais! Subinu! Vai levanu!

     — Momentinho que eu vô descê!

     — Se­gura!

     O sol rasteiro atravessava o empoeirado para-brisa, varava a retina e não nos deixava olhar em frente. Não sabíamos quantos indefesos automó­veis já haviam sido fechados, quantos sinais vermelhos cruzados, quantos pedestres apavorados.
     Deu uma chance e olhei para os santinhos colados na cabine do motorista. Infelizmente não me alentaram esperança alguma. Mais umas poucas paradas e estaríamos no centro. Tomara.

     — Moço, não dá pra abrir atrás pra mim descer com o meu marido que não está se sentindo bem?

     — Não posso fazê nada, minha senhora.

     — Mas eu pago. Aqui está o dinhei­ro. Não vou conseguir passar pra frente.

     — Não dá. Se tem um fiscal da se­cretaria por aí, vai multá a gente.

     — Mas que barbaridade.

     — Pô! Abre atrás, o sem-vergonha!

     — Cumé quié, cara? Excesso de lotação pode, sair da fila indiana pode, correr desta ma­neira pode. Pra isso não tem fiscal, né?

     — Não posso fazê nada. Pede pro motorista. Cheganu à porta e descenu rápido!

     Lá fora talvez não estivesse muito diferente. Quem arriscava pôr o nariz pra fora da janela, mudava logo de idéia. A grande capital respirava mal. Os odores industriais insinuavam-se narinas adentro dos cidadãos.
     Aqui, do pequeno executivo engravatado ao operário todo suado, espremiam-se, misturando temperaturas e vapores, formando uma massa disforme e fedorenta. Judeus, cristãos, ateus, brancos, negros, crianças, homens e mulheres... animais, quem sabe...

     — Ai ô centro, ao mercado:

     PFSSSSHSHSHSHHHHH.

     — Aimbora:

     Agonia das agonias. Parecia nunca terminar. Condições sociais levemente diferentes, mas a expressão nos rostos era a mesma. Socialismo forçado. Calor — comum de todos. Aperto — comum de todos. Suor — comum de todos. Calor, aperto, suor — transporte co letivo.

     — Diesce mais. Vaum aproveitá que é a última parada! Fecha atrás que não entra mais nada!

     — Com licença que eu desço nesta.

     Diescenu aína! Lieva! Dieu!

     PFSSSSHSHSHSHSHHHH! CLANG! BROOOMMBROOOMMMMMMM!

     — Última parada, a primeira coisa sensata que o Foguinho disse. Só mais uns segundos e seria o fim da linha.

     — Vaum aproveitá e ir passanu a ro­leta. Óia o trocado na mão.

     — Cume que eu vô passá com tudo trancado?

     — Pobrema teu, cara. Cheganu à frente do carro a fila do meio, é favorrrrr!

     Fechou o sinal. Um tempo a mais para que pés, braços e cabeças pudessem se desvencilhar. Olho para o lado e vejo situações semelhantes. Estavam todos eles, os ônibus, cheios. Um pouco abaixo, os táxis. O ronco e a fumaça invadiram célula por célula do meu corpo.
     Abre o sinal e todos arrancam ao mesmo tempo. O medo de uma colisão me faz suar a última gota. Ao meu redor, com as caras distorcidas, os passageiros buscando, cada um, ser o primeiro a cair fora.

     Uí-uí-uí-uf-uí-uí-uíííí. PFSSHSHSHSHHH.

     — Decenu rápido é favorrrr!

     Fui levado pelos corpos que se atiravam em direção à porta. Na parada, filas estendiam-se e gente que entrava misturava-se a gente que saía que misturava-se a gente que simplesmente passava.
     Corri aproveitando o sinal vermelho e peguei o outro ônibus que já arrancava. Bati com a cabeça no cara que subira na minha frente. A porta se fechou com um estrondo metálico e ficou mordendo minha camisa.